Devemos nos despojar de toda meditação discursiva pelas imagens. S. João da Cruz explica como, quando e porque.

1. Para evitar confusão no desenvolvimento desta doutrina é útil dar a entender, neste capítulo, em que tempo e ocasião deve a alma abandonar a meditação discursiva por meio de imagens, formas e figuras; para não acontecer deixá-la antes ou depois do tempo conveniente ao seu progresso espiritual. Pois, assim como convém deixá-la em tempo oportuno, para não impedir a divina união, assim também é necessário não abandoná-la antes do tempo para não voltar atrás; pois embora não sirvam as apreensões das potências internas de meio próximo para a união aos proficientes, todavia servem de meios remotos para os principiantes; dispõem e habituam o espírito a elevar-se, pelo sentido, às realidades espirituais, e o desembaraçam das formas e imagens baixas, terrenas, mundanas e naturais. Indicaremos alguns sinais que há de ver em si o espiritual para saber se é ou não tempo de deixar a meditação discursiva.

2. O primeiro sinal é não poder meditar nem discorrer com a imaginação, nem gostar disso como antes; ao contrário, só acha secura no que até então o alimentava e lhe ocupava o sentido. Enquanto, porém, tiver facilidade em discorrer e achar sabor na meditação, não a deve deixar, salvo quando a alma estiver na paz e quietação indicadas
no terceiro sinal.

3. O segundo é não ter vontade alguma de pôr a imaginação nem o sentido em outras coisas particulares, sejam exteriores ou interiores. Não me refiro às distrações da imaginação, pois esta, mesmo no maior recolhimento, costuma andar vagueando; digo somente que não há de gostar a alma de fixá-la voluntariamente em outros objetos.

4. O terceiro sinal, e o mais certo, é gostar a alma de estar a sós com atenção amorosa em Deus, sem particular consideração consideração, em paz interior, quietação e descanso, sem atos e exercícios das potências, memória, entendimento e vontade, ao menos discursivos, que constituem em passar de um a outro; mas só com a notícia e advertência geral e amorosa já mencionada, sem particular inteligência de qualquer coisa determinada.

5. Esses três sinais reunidos há de verificar em si o espiritual, para ousar com segurança deixar a via da meditação e do sentido, e entrar na via da contemplação e do espírito.

6. Não basta só o primeiro sinal sem o segundo, porque a impossibilidade de exercitar a imaginação e de meditar nas coisas de Deus poderia provir de distração e pouco recolhimento; eis por que é necessário o segundo sinal, isto é, não sentir atração nem desejo de pensar em coisas estranhas. Com efeito, quando a dificuldade de fixar a imaginação e o sentido nas coisas de Deus procede de dissipação e tibieza, logo sente a alma necessidade e desejo de aplicar-se a outras diferentes e de abandonar a meditação. Sem o terceiro sinal, porém, os dois primeiros juntos seriam insuficientes: a incapacidade de discorrer e fixar o pensamento em Deus, sem inclinação de pensar em outras coisas, poderia proceder de melancolia ou resultar de algum humor doentio no cérebro ou no coração, que sói causar certo entorpecimento e suspensão do sentido. Quando assim acontece, a alma em nada pensa e não quer trabalhar com as potências nem sente gosto em fazê-lo, se não só em ficar naquele embevecimento saboroso. Contra isto se há de verificar o terceiro sinal, que é a notícia e atenção amorosa em paz, como dissemos.

7. No princípio, entretanto, quando começa este estado, quase não se percebe esta notícia amorosa, e isto por duas causas: primeira, porque no começo costuma ser a contemplação mui sutil e delicada e quase insensível; segunda, porque tendo a alma se habituado à meditação, cujo exercício é totalmente sensível, com dificuldade percebe êsse novo alimento insensível e já puramente espiritual. Mormente acontece isto quando a alma, por não conhecer seu estado, agita-se, e se esforça por voltar ao outro exercício da meditação. Embora com êsse novo alimento seja mais abundante a amorosa paz interior, a inquietação impede a alma de sentí-la e gozá-Ia. Mas na medida em que a alma se fôr habituando a permanecer sossegada, irá crescendo a tranqüilidade e aquela notícia amorosa e geral de Deus, nela encontrando mais gôsto do que em tôdas as outras coisas, pois a enche de paz, descanso, gôzo e deleite, sem trabalho. [1]

1. Para entrar na via do espírito (que é a contemplação) deve o espiritual deixar a vida imaginária e de meditação sensível, quando já não acha gosto nela, nem pode discorrer. Ora, tem este primeiro sinal duas razões de ser que se podem quase resumir em uma só. (...) A primeira causa, portanto, de não poder meditar e discorrer como antes é o pouco proveito e sabor do aí encontrado pelo espírito.

2. A segunda razão é: a alma chegada a esse ponto já possui, quanto à substância e ao hábito, o espírito da meditação. Pois qual o fim da meditação e dos atos discursivos, senão conseguir mais clara notícia de Deus e mais intenso amor? Cada vez que, pela meditação, o consegue, é mais um ato e como a repetição dos atos gera o hábito, assim muitos atos dessas notícias amorosas chegam, com a prática, a se tornar tão contínuos, que se transformam em hábito para a alma. Na verdade, costuma o Senhor elevar muitas almas logo ao estado de contemplação sem este meio dos atos discursivos ou ao menos sem haver precedido muitos. E, assim, o que a alma outrora conseguia pela aplicação laboriosa de suas potências e pelos conhecimentos distintos, torna-se, pela repetição, hábito e substância de notícia amorosa geral, não distinta nem particular como antes. Logo que entra em oração, como quem já está com a boca na fonte, bebe à vontade e com suavidade, sem o trabalho de conduzir· a agua pelos aquedutos das passadas  considerações, formas e figuras. E assim, logo em se pondo na presença de Deus, achasse naquela notícia confusa, amorosa, pacífica e sossegada em que vai bebendo sabedoria, amor e sabor.

3. Por esta causa a alma sente extrema repugnância e muito sofrimento quando querem arrancá-la dessa quietação e constrangê-la ao trabalho da meditação de assuntos particulares. (...) [2]
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Fontes:
[1] A Subida do Monte Carmelo, livro II, cap.XIII Obras de São João da Cruz, Ed.Vozes

[2] Idem. Cap.XIV