Lançamento do volume 2 da série "O Príncipe dos Cruzados", do escritor Eloi Taveiro

O site "O Príncipe dos Cruzados" lança hoje, dia 8 de Setembro de 2018, festa de Nossa Senhora da Natividade, e em honra, agradecendo e louvor a esta, a primeira edição do livro: 

"O Príncipe dos Cruzados (Vol.II): Manual básico do Tradicionalista Contra-Revolucionário; Bíblia, Papas, Santos, e Teólogos", com 821 páginas, escrito por seu articulista principal e motor principal, Eloi Taveiro.

No dia 13 de Maio de 2015 havíamos lançado a primeira edição da primeira parte, e poucos dias depois, a segunda. Em 2018, lançamos a segunda de ambos com correções, e incrementos indicados na introdução dela. O link para baixá-los está a seguir:

"O Príncipe dos Cruzados (Volume 1, Parte 1): Da Teologia da História às profecias", Eloi Taveiro, 2 Edição, 609 pgs.

"O Príncipe dos Cruzados (Volume 1, Parte 2): Plinio Corrêa de Oliveira, o S. Elias de seu tempo e profeta por sabedoria, 2 edição, 218 pgs.

Colocamos a seguir transcrita a introdução desta edição,lembrando que temos a intenção de pôr a opção de comprar via internet o livro físico, assim que acharmos algum negócio decente.


De vez em quando iremos corrigir erros de português, ou de edição no livro, sem lançar novas edições, de maneira que é bom baixar de novo por esse link, mais ou menos de seis em seis meses, quando se acumular estas revisões para serem postas. Além disso, tentaremos diminuir o tamanho da letra para diminuir o número de páginas e colocar no padrão dos outros livros. Esta versão deve estar com uma letra 10% maior. Talvez uma próxima versão tenha algum pouco incremento.

Links para baixar gratuitamente estes livros em pdf:



Como ler este livro – Introdução da edição

Este livro faz parte da série “O Príncipe dos Cruzados”. Dela foi lançado em primeiro lugar o volume 1, que é dividido em duas partes, “Da Teologia da História às profecias” e “Plinio Corrêa de Oliveira e suas profecias”. A segunda parte pode ser lida sem a primeira, e a primeira também, com boa vontade. No entanto, elas fazem parte de um conjunto, e só serão divulgadas separadas porque muitos têm interesse em uma só das partes.

Agora, vem à lume o segundo volume, que visa ser um manual de apologética e mapa para o Tradicionalista Contra-Revolucionário ver as áreas principais de atuação da Revolução com suas heresias, erros e práticas que levam ao inferno e ao fim de todo vestígio de Civilização Cristã. Sendo um manual, dá alguns bons elementos para refutar estas coisas.

Sabemos que muito mais aprofundamento poderia ser dado nas tantas áreas do conhecimento que tocamos, por isso afirmamos ser este volume meramente um manual básico. Além disso, algumas áreas foram deixadas de lado, assim como o número de heresias, pela pouca influência que possuem na sociedade hodierna, ou por sua refutação estar incluída em outra refutação.

Nada mais queríamos com este trabalho e objetivo, do que mostrar com mais clareza a glória da Santa Igreja Católica fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Afinal, com boa parte consistindo em citações, o livro é menos nosso do que da Tradição Católica.

Somente com a aparição de coisas muito relevantes colocaremos novos detalhes e artigos em futuras edições, que certamente existirão pelo menos para correção de erros de português, estilo, etc. Então, nos comprometeremos a ressaltar aqui na introdução os acréscimos ou correções relevantes desde a primeira edição.

Por fim, é importante ressaltar as palavras sempre proféticas e certeiras de Plinio Corrêa de Oliveira, e oferecer a Nossa Senhora este trabalho, para que seja o cumprimento de anseios tão justos, tão esquecidos, tão urgentes, que esse filho da Virgem Santíssima exprimiu, e que infelizmente seus herdeiros não tiveram atenção em cumprir. Quanto a nós, antes mesmo de conhecermos estas palavras a seguir, já tínhamos o objetivo de fazer este livro, e podemos dar graças a Maria Santíssima por conhecer tudo e terminar este trabalho.  

"Então, essa tarefa que nós temos diante de nós é uma tarefa intelectual. Nós temos a obrigação de conhecer, de, portanto, estudar, e temos a obrigação de estudar um monte de matérias enorme, estudar suficientemente para dar uma denúncia capaz e eficaz, e apresentar assim contra essa maré montante, com o sinal da cruz e o M de Maria, apresentar de frente a nossa contestação: "Isso é assim! Vocês são tais! E contra vocês nós jogamos tal denúncia!". Dê no que der e arrebente no que tiver que arrebentar, pouco importa. Nós teremos cumprido nosso dever.

Acontece que na idade madura dos srs. vem exatamente a possibilidade  de fazer esse estudo que é um grande estudo de maturidade. É um grande estudo de aplicação de inteligência, de aplicação de vontade, de empuxe sério para fazer as coisas andarem. E com isso uma possibilidade de começarem a terçar as armas da Bagarre (...).

Então os srs. percebam bem a conjuntura histórica na qual estão. Quer dizer, é-lhes posto tudo nas mãos. Mais uma vez. E com o lhes pôr isto tudo nas mãos, permitam que eu lhes diga com toda franqueza, não sei se é certo, mas é possível que a Providência lhes esteja dizendo:

"Esta é a última vez. Não facilite, porque eu perdoei uma vez, duas vezes, 50 vezes; a vez 51 não vai! Agora trate de aproveitar".

Quer dizer, esse apelo que eu estou fazendo aqui é um apelo imensamente sério, mas é imensamente sério" (Reunião Comissão Médica, 21/4/91).


Eloi Taveiro,
Dia 8 de Setembro de 2018,

Festa da Natividade de Nossa Senhora, 
um dia após o dia da Independência do Brasil.

Sobre alegações de problema no Rito Maronita reformado

São Charbel, modelo dos maronitas,
rogai por nós
Do livro "O Príncipe dos Cruzados" (volume II - inédito).

Recomendamos os artigos anteriores para melhor compreensão:

A forma da Eucaristia é só "isto é o meu corpo"/"este é o meu sangue" ? Análise pelas liturgias tradicionais, Papas, Santos e teólogos

Papas, Santos e teólogos contra a participação ativa liturgicista na missa em desprezo do terço e piedades não-litúrgicas. Resposta a objeções

Papas e tradição contra o liturgicismo pró altar-mesa, altar único, padre voltado ao povo, e oposto a imagens sagradas. Resposta a objeções

Resumo da reforma do Rito Maronita

Neste artigo mostraremos em linhas gerais o que mudou na reforma do Rito Maronita, e como isto trouxe um problema de licitude, e em que consiste este problema. Para isto, nos servimos do Qurbono Book of Offering (Divine Liturgy), o livro da Divina Liturgia Maronita, disponível no site da Eparquia de São Marun do Brooklyn, e publicado em 31 de Julho de 1992 [1], que surgiu após "quarenta tentativas" de reformas, "entre 1963 e 1982", seguindo o influxo do Concílio Vaticano II, como o próprio livro alega. Esta edição de 1992 foi feita em conjunto com o Sínodo Patriarcal dos Bispos e a Congregação Vaticana para as Igrejas Orientais, e foi publicada, "pela primeira vez, com um decreto oficial atestado pela assinatura do Patriarca e seu imprimatur".

Não queremos tratar, portanto, das reformas anteriores, mas o leitor poderá, lendo este artigo, avaliar se nelas se aplicam as mesmas reflexões. Avisamos também que nossa análise visa ser geral, não exaustiva, visto que tal coisa se coaduna com nossos objetivos que são alcançados somente com este artigo.

Pontos ruins

- Liturgicismo do padre voltado ao povo: o livro admite que tradicionalmente os padres celebravam de costas ao povo, e voltado para o oriente, o que era possibilitado pela construção da Igreja. Agora, fala que é a hierarquia local que decidirá como será feito, já que um decreto de Junho de 1992 do Sínodo Patriarcal dos Bispos Maronitas possibilitou celebrar em qualquer direção. O livro recomenda ser de frente ao povo.

- Liturgicismo da participação ativa: em vários lugares se fala em participação ativa do povo na liturgia.

- Liturgicismo do uso diminuído da língua vernácula: um Arcebispo alega que várias coisas foram mantidas na língua siríaca (considerado um tipo de aramaico), o que mostra que muita coisa na língua tradicional foi retirada para dar lugar ao vernáculo, que seria o árabe [2].

- Concílio Vaticano II: é citado uma vez como influenciador das reformas.

Pontos bons

- Orações e hinos antigos e tradicionais

“Aqui nós não criamos novas orações e hinos, pelo contrário, fomos atrás de orações e hinos selecionados de nossas raízes e fontes Siríacas. A maior parte do tempo nós usamos um texto Siríaco como base para os textos traduzidos [3].

- Orações de penitência e perdão abundam, assim como gestos de baixar a cabeça para pedir perdão [4].

- A preparação dos elementos é mantida

- Credo Niceno-Constantinopolitano

Conclusão parcial

Dado só estes pontos, seria de lamentar estes elementos ruins, mas não o suficiente para ter que evitar tal Rito como favorecedor da heresia, já que a estrutura se mantêm quase exatamente a mesma (obviamente ignoramos abusos litúrgicos que podem ocorrer em um local ou outro).

Tratando de uma objeção: a consagração nas anáforas maronitas

Anáfora é o nome que se dá à parte mais solene da liturgia na qual se inclui a consagração. No Rito Maronita reformado existem nove anáforas em uso [5]:

Anáfora dos Doze Apóstolos, Anáfora de São Pedro Chefe dos Apóstolos, Anáfora de São Tiago, Anáfora de São João Apóstolo, Anáfora de São Marcos Evangelista, Anáfora de Sixto Papa de Roma, Anáfora de S. João Crisóstomo, Anáfora de S.João Maron, Anáfora Sharar.

Chegamos a verificar que as palavras da consagração de algumas destas anáforas, pelas traduções que vimos, tem problemas. Entretanto, no livro do Qurbono de 1992 acima citado se diz que para as palavras da instituição do Rito foi escolhido sempre o uso da anáfora dos Doze Apóstolos [6]. Ademais, no Qurbono, ou Missal Maronita, traduzido da edição de 2005, já com todas anáforas acima exceto a de Sharar, está disponível na internet assim como o Qurbono de 1992 [7], e em ambos se vê em todas as anáforas as mesmas palavras da consagração. De modo que não há problema no Qurbono de 1992 ou de 2005.

Entretanto, houve mais uma reforma da Liturgia em 2008, quando foram adicionadas as últimas três anáforas acima citadas. Conforme o que soubemos por um sacerdote libanês do rito maronita, não houve alteração nas palavras da consagração no missal, e uma fonte maronita de Março de 2014, analisando a estrutura da missa, indica que se usa as palavras corretas da consagração "isto é o meu corpo/isto é o meu sangue" [8]. Além disso, temos fontes de que as anáforas de S.João Crisóstomo [9] e S.João Maron [10], por si só exibem as palavras da consagração como deve ser.

De qualquer forma, analisaremos a anáfora de Sharar segundo as traduções que obtivemos, e considerado que são fidedignas, veremos o problema na consagração. Ressaltamos que não queremos avaliar esta anáfora inteiramente, mas só as palavras da consagração que sejam ruins. Portanto, pode ser que no decurso dos séculos se tenha modificado, que a tradução seja o problema real, ou que as palavras estavam assim desde o começo para ocultar propositalmente. Não é nosso objetivo tratar destes problemas.

Problema da Anáfora Sharar

Atribuída à S.Pedro, esta anáfora pertenceu ao Rito Maronita. Isto nos conta o livro acima citado, que diz que esteve ausente de 1716 até 1959, nas edições seguintes do Qurbono de 1716, que eram iguais a esta segunda edição de 1716, mostrando um indício de rechaço que poderia ter tido em relação ao uso dela.

Qual é o problema com ela? Pelas traduções que vimos ao inglês por livros sobre liturgia [11], e uma tradução do latim ao espanhol [12], as palavras da consagração são:

"Este pão é o meu corpo/ Este cálice é o meu sangue".

O que diz Santo Afonso Maria de Ligório sobre isso:

"221 - I. A consagração é válida, mas ilícita: I. Se o consagrante diz: "Este alimento", "essa bebida", "esse cálice", ou "essa coisa", ou "o conteúdo dessa espécie", [e em seguida] "é o meu corpo" ou "é o meu sangue" [Hic cibus, hic potus, hic calix: vel haec res, vel contentum sub his speciebus, est corpus meum, vel sanguis meus]. Bon. l. c. p. 1. II. Se diz: 'Hic est calix novum testamentum in sanguine meo', como está em S. Lucas. c.22. (...)" [13].

Ora, esta doutrina de S.Afonso é sólida pelo motivo de que falando "este pão é o meu corpo" o padre está chamando de pão e ao mesmo tempo de corpo de Cristo a Sagrada Eucaristia, isto é, ele não deixa de consagrar, mas ofende a Deus chamando de pão o que só possui a aparência de pão. O mesmo se diga do cálice.

Assim, o padre peca se tem consciência disso, e por isso o Santo Doutor diz que é válida mas ilícita.

Segundo um estudioso da liturgia, esta Anáfora é usado no Domingo da Consagração da Igreja, Domingo dos Padres, Novo Domingo, Festa de São Pedro e São Paulo, Festa da despedida da Virgem Maria [14].

Conclusão

As fontes que citamos dizem que esta anáfora não é aplicada na consagração, e que mesmo a escolha da anáfora a ser usada é do sacerdote. De qualquer forma, se um dia for o caso ou acontecer em algum caso particular, a conclusão será a seguinte:

Como o católico não pode favorecer o sacrilégio e o pecado, mesmo que o padre não saiba o que faz, não é lícito frequentar uma missa com a consagração tirada desta anáfora, se o fiel tem ciência do fato, porque não é lícito a um católico favorecer uma missa com uma consagração ilícita, pecaminosa. Entretanto, a comunhão será lícita se o católico aparecer somente para comungar, isto é, na hora da comunhão, contando que não haja um Rito tradicional para ir. Isto porque a paróquia e o padre são parte da Igreja, e não há communicatio in sacris, nem favorecimento da missa porque se aparece só para comungar.

Se a anáfora de Sharar não é usada inteiramente, a missa não tem problema algum, exceto, talvez, os problemas de liturgicismo, e outros problemas litúrgicos que já falamos em outros artigos.


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[1] Qurbono Book of Offering (Divine Liturgy), Boutros Gemayel, Archbishop of Cyprus for the Maronites Chairman, Patriarchal Commission on Liturgy, English translation by Bishop Stephen Hector Doueihi, Bishop of the Eparchy of Saint Maron of Brooklyn. Link: http://www.stmaron.org/spirituality/liturgy/qurbono-book-of-offering-divine-liturgy/
[2] S. E. Mons. Moussa el Hage, Arcebispo Maronita de Haifa e Terra Santa. "Hemos mantenido una serie de cosas en lengua siriaca, por ejemplo cuando se entra y nos dirigimos hacia el altar, pronunciamos “he entrado en tu casa, oh Señor”, o como el trisagio, “tres veces santo”, que pronunciamos ‘Qadeeshat Aloho’, que significa ‘Tú eres santo, oh Señor’, o incluso la oración de consagración ‘el primer día antes de su vivificante pasión’”. LA IGLESIA MARONITA “Puente entre Oriente y Occidente”. Link: https://www.cmc-terrasanta.com/es/video/la-iglesia-maronita-puente-entre-oriente-y-occidente-11070.html
[3] Qurbono Book of Offering...Tradition and Renewal
[4] "The Rite of Penance found in the Maronite Ritual is identical to the practice of the Roman Church before its revision in recent years. It consists of the penitent confessing his sins to the priest, being attentive to the priest's admonition and the giving of penance to be performed, the expression of sorrow followed by the prayer of absolution". The Sacraments Of Reconciliation: A Commentary On The Spirit Of Reconciliation As A Way Of Life, Chorbishop Seely Beggiani, Rector of Our Lady of Lebanon Seminary and Professor at the Catholic University of America, Washington, D.C. Link: http://www.maronite-institute.org/MARI/JMS/july00/The_Sacraments_Of_Reconciliation.htm
[5] 10 de Junho de 2016, The Maronite Church “A bridge between East and West". Link: https://www.cmc-terrasanta.com/en/video/the-maronite-church-a-bridge-between-east-and-west-11069.html
[6] Por isto uma fonte diz: "There are at least seventy two Maronite Amphorae. In the present reformed Maronite mass, the “Anaphora of the twelve Apostles ” is the one used". St.George Maronite Church. Link: https://www.stgeorgesa.org/maronite-divine-liturgy/ 
[7] "Qurbono: The Book of Offering", Diocese of Saint Maron, USA, Brooklyn, NY. 1993, Saint Maron Publications, Brooklyn, New York. Link: https://thehiddenpearl.org/liturgical-books/. E em francês no link: http://www.maronites.fr/IMG/pdf/messe_edition_complete.pdf
[8] The Third Encyclical Letter of Patriarch Rai, Bkerke, March 2014, Patriarca da Antioquia e todo o Oriente e Cardeal da Igreja Universal. Link: http://sjmaronite.org/index.php/en-us/church-media/patriarch-visit/patriarch-photos/14-web-pages/patriarch.feed#sdendnote4anc
[9] "The Eucharistic Liturgies: Their Evolution and Interpretation", Paul F. Bradshaw, Maxwell E. Johnson, Pg.99. E também: "Prayers of the Eucharist: Early and Reformed", Ronald Claud Dudley Jasper, G. J. Cuming, pg.132 
[10] "The Divine Liturgy of the Maronite Church: Birth of Our Lord, Epiphany", 3 edição, 2006, Eparquia Maronita da Austrália, editado por Rev. G. Abdallah, assistido por Sr Y. Zaarour e Mr E. Azzi, pp.274-5
[11] "Do this in Remembrance of Me: The Eucharist....", Bryan D. Spinks, Pg.169 & "Prayers of the Eucharist: Early and Reformed", Ronald Claud Dudley Jasper, G. J. Cuming, Pg.48
[12] No link: http://wwwmileschristi.blogspot.com/2015/10/la-anafora-nestoriana-o-el-ecumenismo.html
[13] Theologia Moralis, Livro IV, Tratado VI, Cap.I, Dubium VI 
[14] "Do this in Remembrance of Me: The Eucharist....", Bryan D. Spinks, Pg.167

Teólogos sobre a possibilidade do Papa se tornar cismático (e perder o Pontificado)

Cardeal João de Torquemada
Do livro "O Príncipe dos Cruzados" (compilação doutrinária inédita).

Este artigo é baseado na maior parte no livro de Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, "Considerações sobre o ordo missae de Paulo VI", 1970, onde na primeira parte se trata exaustivamente das possibilidades do Papa herege. Este livro foi revisado e tinha adesão do eminente católico Plinio Corrêa de Oliveira.

Cardeal Journet

"1. Os antigos teólogos (Torquemada, Caietano, Bañez), que pensavam, de acordo com o "Decreto" de Graciano (parte I, dist. XV, c. VI), que o Papa infalível como Doutor da Igreja, podia entretanto pessoalmente pecar contra a fé e cair em heresia (ver "L’Église du Verbe Incarné", t. I, p. 596), com maior razão admitiam que o Papa podia pecar contra a caridade, mesmo enquanto esta realiza a unidade da comunhão eclesiástica, e assim cair no cisma.

A unidade da Igreja, segundo eles diziam, subsiste quando o Papa morre. Portanto, ela poderia subsistir também quando um Papa incidisse em cisma (Caietano, II-II, q. 39, a. 1, n.º VI).

Eles se perguntavam, entretanto, de que maneira pode o Papa tornar-se cismático. Pois ele não pode separar-se nem do chefe da Igreja, isto é, de si próprio, nem da Igreja, porque onde está o Papa está a Igreja.

A isso Caietano responde que o Papa poderia romper a comunhão renunciando a comportar-se como chefe espiritual da Igreja, decidindo por exemplo agir como mero príncipe temporal. Para salvar sua liberdade, ele fugiria assim aos deveres de seu cargo; e se fizesse isso com pertinácia, haveria cisma. Quanto ao axioma "onde está o Papa está a Igreja", vale quando o Papa se comporta como Papa e chefe da Igreja; em caso contrário, nem a Igreja está nele, nem ele na Igreja (Caietano, ibidem).

2. Diz-se às vezes que o Papa, não podendo desobedecer, tem apenas uma porta de entrada para o cisma. Das análises a que procedemos resulta, pelo contrário, que também ele pode pecar de duas maneiras contra a comunhão eclesiástica: 1º) quebrando a unidade de conexão, o que suporia de sua parte a vontade de se subtrair à invasão da graça enquanto esta é sacramental e realiza a unidade da Igreja; 2º) quebrando a unidade de direção, o que se produziria, conforme a penetrante análise de Caietano, se ele como pessoa privada se rebelasse conta os deveres de seu cargo e recusasse à Igreja – tentando excomungá-la toda ou simplesmente resolvendo, de modo deliberado, viver como mero príncipe temporal – a orientação espiritual que ela tem o direito de esperar dele em nome de Alguém que é maior do que ele: do próprio Cristo e de Deus" [1].

Cardeal João de Torquemada

"1- (...) pela desobediência, o Papa pode separar-se de Cristo, que é a cabeça principal da Igreja e em relação a quem a unidade da Igreja primariamente se constitui. Pode fazer isso desobedecendo à lei de Cristo ou ordenando o que é contrário ao direito natural ou divino. Desse modo, ele se separaria do corpo da Igreja, enquanto, está sujeito a Cristo pela obediência. Assim, o Papa poderia sem dúvida cair em cisma.

2- O Papa pode separar-se sem nenhuma causa razoável, mas por pura vontade própria, do corpo da Igreja e do colégio dos sacerdotes. Fará isso se não observar aquilo que a Igreja universal observa com base na tradição dos Apóstolos, segundo o c. "Ecclesiasticarum", di. 11, ou se não observar aquilo que foi, pelos Concílios universais ou pela autoridade da Sé Apostólica, ordenado universalmente, sobretudo quanto ao culto divino. Por exemplo, não querendo pessoalmente observar o que diz respeito aos costumes universais da Igreja ou ao rito universal do culto eclesiástico. Isso se dará caso não queira celebrar com as vestimentas sacras, ou em lugares consagrados, ou com velas, ou caso não queira fazer o sinal da cruz como os demais sacerdotes fazem, ou outras coisas semelhantes que se ordenam de modo geral à utilidade perpétua, conforme os cânones "Quae ad perpetuam", "Violatores", "Sunt quidam" e "Contra statuta"(25, q. 1). Afastando-se de tal modo, e com pertinácia, da observância universal da Igreja, o Papa poderia incidir em cisma. A conseqüência é boa; e o antecedente não é duvidoso, porque o Papa, assim como poderia cair em heresia, poderia também desobedecer e com pertinácia deixar de observar aquilo que foi estabelecido para a ordem comum na Igreja. Por isso, Inocêncio diz (c. "De Consue.") que em tudo se deve obedecer ao Papa enquanto ele não se volte contra a ordem universal da Igreja, pois em tal caso o Papa não deve ser seguido, a menos que haja para isso causa razoável.

3- Suponhamos que mais de uma pessoa se considere Papa, e que uma delas seja verdadeiro Papa, embora tido por alguns como provavelmente dúbio. E suponhamos que esse Papa verdadeiro se comporte com tanta negligência e obstinação na busca da união da Igreja, que não queira fazer quanto possa o restabelecimento da unidade. Nessa hipótese, o Papa seria tido como fomentador do cisma, conforme muitos argumentavam anda em nossos dias, a propósito de Bento XIII e do Gregório XII" [2].

O Papa cismático perderia o Pontificado

Os autores que admitem a possibilidade de um Papa cismático, em geral não hesitam em afirmar que em tal hipótese, como na do Papa herege, o Pontífice perde o cargo. A razão disso é evidente: os cismáticos estão excluídos da Igreja, do mesmo modo que os hereges.

Como é óbvio, o pecado de cisma não é cometido em qualquer ato de desobediência, mas apenas naquele em que se nega o próprio princípio de autoridade na Igreja, rompendo assim a unidade eclesiástica (ver São Tomás, "Summa Theol.", II-II, 39, 1; M.-J. Congar, "Dict. de Th. Cath.", verbete "Schisme", col. 1304).

Bíblia, Papas, santos e teólogos sobre a real possibilidade de um Papa ser herege

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[1] "L’Église..., vol. II, pp. 839-840 
[2] "Summa de Ecclesia", pars I, lib. IV, cap. 11, p. 369 verso 

Teólogos sobre a eleição não-canônica de um Papa ser válida, enquanto aceita universalmente, e outras possibilidades de ser dúbio

S.Afonso de Ligório,
rogai por nós
Do livro "O Príncipe dos Cruzados" (compilação doutrinária inédita).

Recomendamos a leitura também:

Teólogos sobre a perda do Pontificado só por Heresia notória e divulgada de público

Bíblia, Papas, santos e teólogos sobre a real possibilidade de um Papa ser herege

Este artigo é baseado em parte no livro de Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, "Considerações sobre o ordo missae de Paulo VI", 1970, onde na primeira parte se trata exaustivamente das possibilidades do Papa herege. Este livro foi revisado e tinha adesão do eminente católico Plinio Corrêa de Oliveira.

Neste artigo veremos como os teólogos tratam a questão do "Papa dúbio" (Papa que se duvida da eleição) sob determinados aspectos, e a partir disso resolveremos algumas aplicações para situações semelhantes.

-> Eleito não canonicamente ou por meios ilícitos, mas aclamado

Cardeal Billot

"Afinal, o que quer que ainda penses sobre a possibilidade ou impossibilidade da referida hipótese (do Papa herege), pelo menos um ponto deve ser tido como absolutamente inconcusso e firmemente posto acima de qualquer dúvida: a adesão da Igreja universal será sempre, por si só, sinal infalível da legitimidade de determinado Pontífice, e portanto também da existência de todas as condições requeridas para a própria legitimidade. A prova disso não precisa ser buscada muito longe, mas encontramo-la imediatamente na promessa e na providência infalíveis de Cristo: "As portas do inferno não prevalecerão contra ela", e "Eis que estarei convosco todos os dias". Pois a adesão da Igreja a um falso Pontífice seria o mesmo que sua adesão a uma falsa regra de fé, visto que o Papa é a regra viva de fé que a Igreja deve seguir e que de fato sempre segue, como se tornará ainda mais claro pelo que adiante diremos. Deus pode permitir que às vezes a vacância da Sé Apostólica se prolongue por muito tempo. Pode também permitir que surja dúvida sobre a legitimidade deste ou daquele eleito. Não pode contudo permitir que toda a Igreja aceite como Pontífice quem não o é verdadeira e legitimamente. Portanto, a partir do momento em que o Papa é aceito pela Igreja e a ela unido como a cabeça ao corpo, já não é dado levantar dúvidas sobre um possível vício de eleição ou uma possível falta de qualquer condição necessária para a legitimidade" [1].

Santo Afonso de Ligório

"Em nada importa que nos séculos passados algum Pontífice tenha sido ilegitimamente eleito ou se tenha fraudulentamente apoderado do Pontificado; basta que depois tenha sido aceito por toda a Igreja como Papa, uma vez que por tal aceitação ele se terá tornado verdadeiro Pontífice. Mas se durante certo tempo não houvesse sido verdadeira e universalmente aceito pela Igreja, durante esse tempo a Sé pontifícia teria estado vacante, como vaga na morte do Pontífice" [2].

-> Eleito, mas não aclamado

Um Papa que, publicamente se esconde em uma roupa, ou aparece encapuzado de modo que não se pode vê-lo, ou não aparece de modo algum, não é Papa válido, porque o povo precisa reconhecer o Papa para aclamá-lo e aceitá-lo.

Agora, se o Papa é eleito em outra cidade que não Roma, ou aparece pela primeira vez em outra cidade, ou em outro lugar que não o Vaticano, se for aclamado ali se dará o começo do Pontificado.

Se aparecer só por televisão não é Papa válido, porque a televisão é sujeita à montagem de todo gênero, maquiagem, máscaras, etc. Alguém diria que na realidade também isto se pode dar, com um Papa que usa uma máscara na cara de modo a parecer que tem outro rosto, mas na televisão há a possibilidade do Papa sequer ser real, além de que o Papa deve abençoar o Povo e guiá-lo, e escondendo-se, estaria se recusando o próprio Papado, de modo que não seria dúbio, mas cismático, como falamos antes. Onde está o Papa, está a Igreja, e a Igreja é uma sociedade visível, logo, o Papa também deve o ser.

Voltemos ao problema do Papa com máscara humana, barba falsa, etc. Seria Papa não por muito tempo, porque estas máscaras logo se revelam. Entretanto, se alegasse que precisa usar esta máscara de rosto por ter algum problema no rosto real, não seria Papa válido também, exceto se mostrasse o rosto sempre que aparecesse em público, para em seguida, na frente de todos, colocar a máscara. Só assim se saberá que é o Papa que está por detrás daquela máscara. De qualquer forma, seria muito inconveniente ter um Papa assim, e é mais provável que choque mais os fiéis do que se estivesse mostrando o rosto real com problema.

-> Eleito aclamado com um outro Papa que não renunciou

Se for eleito e aclamado pelo povo, ainda com um Papa que não renunciou, certamente deveria ser avaliado o caso do predecessor, porque para um novo Papa ser aclamado sem renúncia do predecessor, é preciso que o Papa passe a ser considerado não mais Papa, seja por heresia ou cisma ou morte, etc.

Considerando que o outro Papa não aceite essa nova aclamação: se não houve este tipo de problema (heresia ou cisma) com este primeiro papa, nas condições que falamos no artigo sobre o sedevacantismo, esta nova aclamação é inválida. Se houve, ela é válida.

Se o Papa anterior simplesmente falou que será eleito mais um Papa, mas ele continuará a ser Papa, ou alegar alguma outra coisa qualquer para dar a entender ao povo de que haverá mais de um Pontífice, a princípio, com um povo normal, isto seria heresia, e este Papa perderia o cargo por heresia notória e divulgada de público. 

Com um público não-normal, se o Papa começar a divulgar que vai tirar férias, afastar-se por algum tempo indeterminado, sem falar em renúncia, ele será cismático, porque deixou de ser Papa, e o novo Papa é válido. Isto cremos que mesmo o povo católico não normal entenderá. Mas se falar que, com a eleição do novo Pontífice, passará a exercer só parte do cargo, como só pastoralmente, ou só escrever encíclica, ou qualquer outra afirmação no sentido de que estaria dividindo o cargo com outro, ele incorreria em heresia, e a perda do seu cargo dependeria das condições que falamos no artigo sobre o sedevacantismo. Quando seu sucessor fosse aceito e aclamado, este seria o verdadeiro Papa. Entretanto, se também passar a concordar com seu predecessor na prática, seria cismático, mas é preciso que abandone totalmente algum ofício essencial do cargo, como não querer aparecer ao público, ou escrever documento pontifício, ou outra coisa, deixando ou não ao anterior um ou mais destes ofícios. Se concordar só em teoria, estaria defendendo uma heresia pública e talvez evidente para muitos, mas teriam que ser analisadas as condições do público não-normal, já citadas neste parágrafo, para saber se continua no cargo.

Agora, contando que se apresente e aja como Papa verdadeiro, um Papa eleito corretamente após a renúncia válida e incontestável do anterior continua no cargo, mesmo que passe a andar e aparecer com seu predecessor vestido ainda de Papa, abençoar o povo junto com ele, celebrar missa junto dele, viajar com ele, escrever encíclica com ele, etc. Isto tudo para um público normal seria claro favorecimento da heresia, mas não heresia (exceto se ambos assinarem como Papa, o que é heresia, mas como o Papa real ainda assina como Papa, não seria cisma), e o povo certamente iria pedir sua renúncia, no mínimo. Para um público católico não-normal talvez isto seja aceito, e embora seja um pecado, um escândalo, um favorecimento da heresia, o Papa continuaria a ser Papa.

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[1] "Tract. De Eccl. Christi", tom. I, pp. 620-621 
[2] "Verità della Fede", em "Opere...", vol. VIII, p. 720, n.º 9.

Questão teológica sobre quando o sedevacantismo é sempre cisma. Erro de Dr.Arnaldo na matéria, resolução de Plinio Corrêa de Oliveira

Dr.Plinio
Do livro "O Príncipe dos Cruzados" (compilação doutrinária inédita).

Recomendamos a leitura prévia dos artigos:

Teólogos sobre a perda do Pontificado só por Heresia notória e divulgada de público

Bíblia, Papas, santos e teólogos sobre a real possibilidade de um Papa ser herege

Neste artigo mostraremos a falsidade na posição sedevacantista, isto é, alegar que não é Papa aquele que atualmente é tido como Papa pelos católicos e pela mídia, se veste como Papa, assina como Papa, foi aclamado Papa, e só não é reconhecido como Papa por um número pequeno de pessoas. Entretanto, é preciso que este Papa não seja herege notório e divulgado de público, caso contrário, será divulgado como herege pelos católicos e pela mídia, e mesmo que se vista como Papa, assine como Papa, tenha sido aclamado Papa, se esta heresia notória levá-lo a não ser reconhecido pelos católicos como Papa, ele não é Papa.

Este artigo tem em vista os artigos anteriores sobre a perda do Pontificado por heresia notória e a possibilidade do Papa ser herege.

O problema do grau de notoriedade da heresia para a perda do Pontificado

Dr.Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira:

"O problema se poria – isto sim - em relação ao momento preciso em que se daria a destituição. Quanto a este particular, a pergunta proposta só poderia ser cabalmente respondida em função das circunstâncias concretas. Os conceitos de "notório" e "divulgado de público" nos parecem em teoria claros; sua aplicação à ordem concreta exigiria o exame de uma casuística vastíssima, de que não nos cabe aqui tratar" [1].

-> Três problemas que impedem a identificação da heresia notória na circunstância atual

Como veremos com a solução de Plinio Corrêa de Oliveira mais adiante neste artigo, a noção de heresia e perda de cargo está diluída em um mundo caótico tomado pelo progressismo e pela Revolução. Assim resumimos:

- Problema da noção de heresia: para algo ser heresia notória, precisa haver no povo a noção correta de heresia
- Problema da noção da perda do cargo: os teólogos antigos consideravam um povo católico normal, que sabia que o herege perde seu cargo, o que é uma noção diluída em um contexto mundial não normal.
- Problema da aceitação do herege como Papa: ademais, o povo não-normal, mesmo sabendo da heresia, da perda de cargo por heresia, pode simplesmente aceitar o Papa como Papa por qualquer outro motivo.

Por fim, ressaltamos que só o terceiro problema foi incluído, mas não inteiramente identificado por nós (como veremos com a citação do Pe.Paul Laymann), e que em relação a todos estes problemas, há sim uma solução, da qual falaremos adiante como "solução prática".

-> Defesas teológicas que não podem ser confundidas com a tese semi-conciliarista

Pode haver um Concílio que simplesmente reconheça que o Papa perdeu o cargo. Defender esta tese não é o mesmo que defender a tese semi-conciliarista do Cardeal Cajetano, que foi refutada por S.Roberto Bellarmino, como mostrado no artigo sobre a heresia notória. Vejamos:

Pe.Ballerini

"Um perigo para a fé tão iminente e entre todos gravíssimo, como esse de um Pontífice que, embora apenas privadamente, propugnasse a heresia, não poderia suportar delongas. Porque, então, esperar que o remédio viesse de um Concílio geral, cuja convocação não é fácil? Porventura não é verdade que, diante de tal perigo para a fé, quaisquer súditos podem pela correção fraterna advertir o seu superior, resistir-lhe em face, refutá-lo e, se necessário, interpelá-lo e pressioná-lo para que se arrependa? Poderão fazer isso os Cardeais, que são seus conselheiros; ou o clero Romano; ou o Sínodo Romano se, reunido, julgar isso oportuno. Para qualquer pessoa, mesmo privada, valem as palavras de São Paulo a Tito: "Evita o herege, depois da primeira e segunda correção, sabendo que um tal homem está pervertido e peca, uma vez que foi condenado por seu próprio juízo" (Tit. 3, 10-11). Pois a pessoa que, advertida uma ou duas vezes, não se arrepende, mas mantém-se pertinaz numa sentença contrária a um dogma manifesto ou definido – não podendo, em razão dessa pertinácia pública, ser escusada de forma alguma da heresia propriamente dita, que requer a pertinácia – essa pessoa declara a si mesma abertamente herege. Revela que por própria vontade se afastou da fé católica e da Igreja, de tal forma que já não é necessária nenhuma declaração ou sentença de quem quer que seja para cortá-la do corpo da Igreja. É muito claro nessa matéria o argumento dado por São Jerônimo a propósito das citadas palavras de São Paulo: "Por isso diz-se que o herege condenou a si mesmo: porque o fornicador, o adúltero, o homicida e os demais pecadores são expulsos da Igreja pelos sacerdotes; mas os hereges proferem a sentença contra si mesmos, excluindo-se da Igreja espontaneamente: exclusão essa que é a sua condenação pela própria consciência". Portanto o Pontífice que depois de tão solene e pública advertência pelos Cardeais, pelo Clero Romano ou mesmo pelo Sínodo, se mantivesse endurecido na heresia e se afastasse abertamente da Igreja, deveria ser evitado, conforme o preceito de São Paulo. Para que não causasse prejuízo aos demais, deveria ter a sua heresia e a sua contumácia proclamadas de público, a fim de que todos pudessem igualmente precaver-se em relação a ele. Assim, a sentença que ele proferiu contra si mesmo seria proposta a toda a Igreja , tornando claro que por vontade própria ele se afastou e se separou do corpo da Igreja, e que de algum modo abdicou do Pontificado, do qual ninguém goza ou pode gozar caso não pertença à Igreja. Vê-se pois que em caso de heresia, à qual o Pontífice privadamente aderisse, haveria um remédio imediato e eficaz, sem convocação do Concílio geral: pois nessa hipótese o que quer que se fizesse contra ele antes da declaração de sua contumácia e heresia, com o fim de chamá-lo à razão, constituiria um dever de caridade, não de jurisdição; e depois de manifestado o seu afastamento da Igreja, caso fosse lançada contra ele uma sentença pelo Concílio, tal sentença seria proferida contra quem já não é Papa nem superior ao Concílio" [2].

Dr.Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira

"Não se há de ver laivos de conciliarismo, isto sim, no princípio de que organismos eclesiásticos, como o Concílio, possam emitir um pronunciamento declaratório eventual cessação de funções de um Papa herege, desde que esses organismos não pretendam para si outro direito senão aquele de que goza qualquer fiel. Por motivos de mera conveniência e cortesia, a esses organismos poderia competir, em primeiro lugar, fazer tal declaração; mas essa prioridade não constituiria para eles um direito próprio, e menos ainda exclusivo" [3].

> Mudança de posição do Dr.Arnaldo Vidigal, e seu erro

Posição anterior

Era parecida com a nossa, que por sua vez parece com a do teólogo citado a seguir.

Pe. Paul Laymann S.J. (d.1635):

“É mais provável que o Sumo Pontífice, como uma pessoa, seja capaz de cair em heresia, e até mesmo em heresia notória (…). Observe-se, no entanto, que, apesar de eu afirmar que o Sumo Pontífice, como uma pessoa privada, é capaz de se tornar um herege e, portanto, deixar de ser um verdadeiro membro da Igreja (…), ainda assim, enquanto ele for tolerado pela Igreja, e reconhecido publicamente como pastor universal, ele realmente desfrutará do poder pontifício, de tal forma que todos os seus decretos não terão menos força e autoridade do que teriam se ele fosse um verdadeiro fiel” [4].

Dizia Dr.Arnaldo em 2012: 

"Já na edição francesa, de 1975, pus mais ênfase no fato de que só uma “notoriedade” qualificada levaria à efetiva perda do cargo. Não bastaria uma notoriedade qualquer (“La Nouv. Messe“, pp. 276-281). E hoje sustento, com o grande moralista jesuíta Pe. Paulo Laymann (+ 1625) e outros, que “enquanto [o Papa herege] for tolerado pela Igreja e publicamente reconhecido como pastor universal, gozará realmente do poder pontifício”" [5].

Posição nova

Já em 2018, o mesmo autor diz:

"34]  Se se admite, como retro exposto, que o Papa Francisco já respondeu, direta ou indiretamente, mas de modo efetivo, às numerosos admoestações que ao longo dos anos lhe foram feitas por Cardeais, Bispos, sacerdotes e fieis comuns, e se essas respostas foram sistematicamente no sentido de manter sua posição teológica reformista, então o que falta é a “como-que-promulgação” (“quasi promulgatio”) do fato e dos princípios de direito divino a ele relativos, para os quais acena Ballerini na esteira de São Roberto Bellarmino e de Wernz-Vidal.

35] Se falta apenas essa “quasi promulgatio”, é porque com ela, e só então, estará realizada plenamente a “manifestação” qualificada de que fala São Roberto Bellarmino, complementado por Wernz-Vidal e Ballerini" [6].

Sendo assim, houve uma mudança na posição, pois desta linguagem, que não é clara, podemos entender duas coisas: 

1 - O autor passou a defender o sedevacantismo, já que "o que falta é a “como-que-promulgação” (“quasi promulgatio”) do fato", ou seja, o "fato" que Dr.Arnaldo não quis citar diretamente é a perda do Pontificado do Papa Francisco, que agora é um anti-Papa, e daí faltar só a "como-que-promulgação", já que talvez Dr.Arnaldo sustente ainda nesse ponto, como antigamente, que um Concílio não pode promulgar a deposição do Papa, nem induzir Nosso Senhor Jesus Cristo a depô-lo, mas só reconhecer que ele perdeu o cargo.

2 - O autor passou a defender uma outra espécie de semi-conciliarismo, se enquadrando na subdivisão da tese que não aderiu no seu livro. Isto seria assim se tomarmos que a "quasi promulgatio" é necessária para a plena realização da manifestação da heresia, como ele diz ao aludir que "porque com ela, e só então, estará realizada plenamente a “manifestação”". Neste entendimento, plena realização induz que antes o Papa continua Papa, e sua queda está condicionada a esta "quasi promulgatio".

Erro na nova posição

Como não está clara a posição especificada, e para evitar que alguém possa sustentar a que Dr.Arnaldo disser não ser sua (se algum dia ele esclarecer), refutaremos ambas.

1 - Esta posição induz a pensar que já houve heresia notória. No entanto, há um problema que Dr.Arnaldo não resolve, e veremos a seguir que ele foi informado sobre isso por Plinio Corrêa de Oliveira. É o problema do público católico, que é o que se observa para saber se tal heresia foi notória. O público católico, é inegável, tem ficado mais preocupado com o Papa Francisco e seus atos, mas disso a considerá-lo herege, ou mesmo considerar o que ele faz como heresia, há uma distância grande. Por exemplo, Dr.Arnaldo cita as 700 mil assinaturas no Apelo Filial ao Papa para que confirmasse a doutrina sobre a família como uma das admoestações contra o Papa. A seguir, algumas perguntas (não são afirmações!): Todo este povo sabe que ele não confirmou a doutrina? Sabe que ele cometeu alguma heresia (requisito para perder o cargo)? Sustenta que ele perdeu o cargo por isso ou ao menos sabe que um herege não pode ser Papa? Ou tolera que um herege seja Papa? Tudo isso gira em torno da questão do público não-normal de que fala Dr.Plinio. Ademais, Dr.Arnaldo precisaria refutar sua opinião do passado que citamos: "hoje sustento, com o grande moralista jesuíta Pe. Paulo Laymann e outros, que “enquanto [o Papa herege] for tolerado pela Igreja e publicamente reconhecido como pastor universal, gozará realmente do poder pontifício”. Até agora o Papa tem sido reconhecido como pastor universal, e nada obriga que a referida "quasi promulgatio" fará com que não o seja mais, a não ser que se considere que ela é condição para que o Papa perca o cargo, então estaríamos falando da segunda posição, a seguir tratada.

2 - "Por motivos de mera conveniência e cortesia, a esses organismos poderia competir, em primeiro lugar, fazer tal declaração", disse Dr.Arnaldo sobre um Concílio ou Sínodo grande no qual se diria que o Papa perdeu o cargo. Ora, o que antes era "mera conveniência e cortesia", agora virou uma condição necessária para a plena realização, de maneira que é inegável a mudança de posição. Se é condição necessária, ou este grupo (que pode ser Concílio, sínodo, etc) tem o poder de depor o Papa, ou a partir dele é que o Papa não é mais Papa, então ele seria o "acionador de Deus" para depô-lo. Mas ambas as posições são as mesmas que Dr.Arnaldo discorda em seu livro de 1970, de maneira que talvez ele pense que "acionaria o povo que acionaria a heresia notória", mas isso é incorreto também. Mesmo que tudo estivesse certo e sem nenhum erro teológico ou acusação mal-feita, o que é bastante improvável, dado a unanimidade do alto clero em não ter resistência alguma ao Concílio Vaticano II, ainda faltaria a noção correta de heresia notória, que está atrelada ao que o povo considera heresia e sua noção de que um Papa herege não deve existir. Assim, todos os argumentos da primeira opção ficam de pé.

-> Soluções

Solução teológica pelo profeta Plinio Corrêa de Oliveira

"O senhor sabe qual é a questão que eu pus para Dr.Arnaldo e Dom Mayer e Dr.Paulo Brito, e não tive resposta? A questão é muito complicada! (...).

Bem, o problema nasce no seguinte ponto agora. Daí é que vem a minha dúvida. O público manifestamente, ao menos eu tenho essa convicção, está sendo trabalhado na sua capacidade de julgar, o público católico, porque é desse que se trata, ele está sendo trabalhado na sua capacidade de julgar por processos psicológicos que lhe tiram a agudeza de vistas e lhe tiram o ânimo para resolver qualquer coisa. É a poluição, é tudo quanto os senhores sabem. Mais ainda: ele está inibido em fazer esse julgamento porque ele está criteriologicamente inibido porque se difundiu nele a convicção, que não é verdadeira, de que o Papa nunca pode apostatar. De maneira que quando ele começa a fazer um juízo a esse respeito, a idéia falsa de que um papa nunca pode ser herege, porque essa seria consequência da infalibilidade, esta idéia morre no ovo estancada por um erro, uma ignorância da doutrina.

Eu pergunto, de outro lado, o público tem, isso é louvável, um tal pavor, dentro da confusão contemporânea, de fazer um juízo sobre o caso, que se nós organizássemos um folheto com tudo quanto o Dr.Arnaldo diz, provando que um papa pode cair na heresia, um grande número deles não leria o folheto de medo de perder a fé. De maneira que estão cercados. Psicologicamente cercados, criteriologicamente cercados, disciplinariamente cercados. Esse público está em condições de fazer-se uma idéia a respeito do problema? (...)"

João XXII sendo Papa, soltou a tantas horas, a afirmação de que as almas que iam para o purgatório, para sair do purgatório tinham que aguardar o fim do mundo. Não saíam antes.

Isso produziu uma tempestade de protestos, porque a doutrina tradicional da Igreja não era essa. E os senhores sabem como os medievais eram sensíveis às questões das indulgências e de sair do purgatório (...). E em consequência disso saiu uma tal bagunça que João XXII em vida teve que declarar que a intenção dele não era definir (...). Aquilo era um público como os teólogos consideram quando eles falam na reação do público (...).

Porque o teólogo em tese tem que imaginar um público normal. Ele não pode imaginar um público não normal. Ora, se há uma coisa que não existe é público normal (...).

Bem, eu levantei isso na reunião. Dom Mayer, Dr.Paulo Brito e Dr.Arnaldo ficaram quietos e pensativos. E eu disse a eles. Disse: é por isso que apesar de toda essa mole de coisas afirmando que o Papa continua, porque não é público e notório, etc, etc., eu duvido. Porque eu não sei qual é a repercussão que tem. Como eu não sei, mas pode ter uma repercussão enorme, eu duvido. E aí é o estado de dúvida em que eu estou" [7].

Solução prática ao católico normal no contexto de um público católico não-normal

Pedir a renúncia do Papa. Primeiro, daremos motivos para tal, e segundo, os pré-requisitos para o pedido.

1 - Mostrar a distância entre a atitude do Papa e a dignidade do Papado. 2 - Acostumar desta maneira com a idéia de que não se pode ser Papa e herege, e sendo favorecedor da heresia ou pecado, não é digno do cargo. 3 - Preparar o caminho para que se divulgue que o Papa herege notório perde o cargo. 4 - Acostumar o povo a não hesitar em aceitar que o Papa perdeu seu cargo por heresia notória quando ocorrer. 5 - "Tirar" o Papado de quem não deveria tê-lo.

Os requisitos de um povo para que se faça um pedido público de renúncia são: 1 - Está informado seja da heresia, do favorecimento dela, ou do erro, ou do pecado ou favorecimento dele. 2 - De modo significativo se posiciona contra esta atitude ou atitudes, ou se mostra descontente mas sem muita ação. 

No caso do católico particular ou um grupo particular, valem os mesmos requisitos. Agora, se não há estes requisitos nem para o particular, nem para o geral, não é uma estratégia boa de apostolado, porque pode suscitar desconfiança contra quem pede a renúncia, o pedido pode não ser acolhido, e pode haver acusação falsa de cisma. Só em algum caso muito particular, quando se tenha razões para crer que não haverá esta resistência, seriam bom fazer este pedido.

Além disso, por causa do problema de uma declaração de bispos, a qual pode ser usada como base para um argumento semi-conciliarista visando tirar o Papado do Papa, e também o problema do progressismo que ainda persiste no alto clero, o que provavelmente manchará este Concílio, sínodo, declaração ou reunião, como já tem feito nas admoestações recentes, o melhor a se fazer é pedir a renúncia pura e simples, por qualquer heresia, erro, pecado, ou favorecimento destes, enquanto o público, grupo ou pessoa à qual se dirige o pedido veja tudo isto com preocupação.

Refutações às objeções

Obj: Nesta tese o Papa poderia fazer o mal que quisesse à Igreja, o que se assemelha à tese abandonada de que o Papa nunca perde o cargo mesmo sendo herege, segundo o livro de Dr.Arnaldo.

Esta tese não pressupõe que o Papa poderia fazer o mal que quisesse, pois este mal depende do povo. Em um público católico normal, como disse Dr.Plinio, nunca um Papa poderia sequer ensaiar uma defesa de heresia, senão aconteceria tal como aconteceu com João XXII. 

Já com um público católico não-normal, o nível de maldade que o Pontífice pode propagar não é ilimitado, mas proporcional ao nível aceito de heresia pelos católicos e ao nível de noção destes católicos de que o Papa herege perde o cargo, de modo que se o Papa extrapola esse nível, sua heresia, se bem divulgada ao público, certamente seria notória, embora ainda dependeria que o povo considerasse isso uma perda de cargo para que o Pontífice perca o cargo. Quanto mais escandalosa e evidente for a heresia, maior a chance do povo não considerar mais o Pontificado como válido, visto também que o Espírito Santo sustenta a Igreja de uma maneira que ela não caia inteira na apostasia e pecado.

Digno de nota aqui é a antiga estratégia modernista de propagar heresia aos poucos.

Obj: Pedir a renúncia do Papa seria o mesmo que julgá-lo publicamente, porque quem precisa renunciar não é digno do cargo, ou por algum requisito que não tem, ou porque fez algo contra esta dignidade, e ambas as coisas requerem um julgamento, a saber, do requisito ou do que foi feito. Mas comumente se diz em teologia que um inferior não pode julgar ao superior.

Um inferior não pode julgar um superior, mas pode resistir ao que faz ou pede de errado, como São Paulo disse "resisti-lhe em face", referindo-se a São Pedro, primeiro Papa, em determinada ocasião. Ora, para resistir é preciso julgar a atitude, portanto, é permitido julgar a atitude, o que não é sempre o mesmo que julgar a pessoa, proclamá-la herege ou cismática. S.Roberto Bellarmino também fala que não se pode punir um superior, e não é o que se faz quando se pede a renúncia, ao contrário de quando se proclama alguém herege, visto que proclamar alguém herege no mínimo tem a aparência de punição: de ser privado da condição de católico ficando longe da comunhão dos santos, não poder comungar, e de ser privado de jurisdição, se a tem. Ora, não se deve dar aparência de pecado.

Por outro lado, um juízo particular sobre alguém ser herege não tem este problema, visto que pelo contexto se entende que a pessoa se refere ao que caiu na heresia como tendo caído diante de Deus, mas ainda a Igreja não o julgou (no caso do Papa, ele não pode ser julgado pela Igreja).

Ademais, a tradição atesta que foi pedida a renúncia do Papa Gregório VI, que convencido pelo Concílio de Sutri de que tinha praticado simonia para conseguir o cargo, mesmo que o cargo não fosse inválido por isso, pela atitude indigna que teve, foi pedida a sua renúncia, e ele concordou, renunciando [8].

Obj: Dr.Plinio, que aqui é considerado como profeta, pode ter falhado ao não pedir publicamente ou privadamente com tanta ênfase a renúncia dos Papas pós-conciliares que ele não gostava. Logo, esta atitude não parece se coadunar com algo que ele faria.

Diversas vezes o líder católico esteve colocando em contraste a atitude Papal e a dignidade do Papado, uma declaração do Papa com a doutrina católica. Se ele nunca pediu a renúncia publicamente, ou enfatizou privadamente, foi porque não houve contexto para ela ser acolhida, e poderia ser mal-entendida como um ato cismático dele, como já falamos.

Obj: A solução prática está contra a solução teológica, já que esta alega que é impossível que o Papa perca o cargo na condição de um público não-normal, e a solução prática induz a acreditar que o Pontífice pode perder o caso no mesmo contexto.

Justamente a solução prática tenta mudar a mentalidade de um público não-normal, ou pelo menos no que tange à noção de haver um Papa indigno, herege, etc. Ademais, ela não é impossível, como dissemos.

Obj: Seria impossível o Papa perder o Pontificado na situação de um público não-normal, pois este estará dividido entre a parte que vê a heresia e pede a renúncia, e o que quer o Santo Padre continue. Mesmo que se diga que foram mais da metade, nunca seria possível saber com certeza, mas só por estimativa, e além disso pode haver hereges no meio, causando erro nesta estimativa.

Diremos que é preciso um número relevante, mas não total ou majoritária, de católicos clamando em público contra a heresia no Papado, caso contrário não haveria sentido em falar em "heresia notória e divulgada de público", pois esta nunca seria suficiente ou passível de comprovação. Como a tese da "heresia notória" está correta, ela teria que ser possível, senão nunca o Papa perderia o cargo por heresia, e a tese se destruiria. 

Por outro lado, cabe saber qual é o público exato para tal acontecimento. Diremos que o mesmo número de pessoas que aclamou o Papa como Papa na praça São Pedro do Vaticano seria suficiente para que o Pontífice perca o cargo. Não é preciso que seja exatamente o mesmo número, pois só Deus sabe a conta exata, mas é preciso que seja tão parecido em número quanto ele. Assim tem que ser por causa que é o mesmo número de público que o aclamou, é um público que mostra seu número visivelmente, é um público que apareceu movido por algo mas de livre vontade, é um público que não pode ser calado por causa de seu número, é um público que está aonde o Papa não pode ignorar ou fingir que não viu.

Um massivo número de pessoas pedirem a renúncia por escândalo e imoralidade poderia ser o primeiro passo, em uma situação de público não normal, para depois, em um protesto da mesma proporção, declararem que o Papa perdeu o cargo por heresia, exigindo sua retirada. É um modo de se acostumar com este segundo passo, como dissemos, e poder fazer tal ato se de fato houve heresia. Entretanto, é preciso lembrar que o Papa escandaloso ou imoral não perde o cargo.

E por fim, um público que tenha as mesmas características em seu protesto, mas fazendo-o em outra cidade, seria bom e impulsionador, mas não válido para declarar a perda do cargo, visto que "aonde está o Papa, aí está a Igreja". É a Igreja local da onde está o Papa que o reconhece validamente. Isto falamos já na parte da questão sobre a eleição de um Pontífice.

Obj: Se esse protesto massivo não fosse divulgado pela mídia e pelo mundo, não seria válido, pois o mundo católico não estaria sabendo.

Aqui entra a necessidade de divulgar fotos, vídeos e relatos do fato com todos os meios possíveis, para passar por cima de qualquer possível boicote. Se uma parte da Cristandade não souber da verdade, não estará por isso em pecado, nem o Papa não deixaria de ter perdido o cargo, pois assim como na Cristandade antiga só se sabia muito tempo depois que um novo Pontífice tinha sido eleito, ou por vezes não se sabia por causa dos cismas e intrigas, da mesma maneira se dá aqui.

Obj: Tal situação pode causar um cisma na Igreja, se o Papa deposto não querer sair e ter apoio do alto clero. Assim, esta tese parece inconveniente e danosa demais para a Igreja para ser válida.

Os que seguirem aquele que já não é mais Papa estarão em cisma, assim como os que seguiram bispos cismáticos caíram no cisma, e os que seguiram heresiarcas, na apostasia. Nada diferente da História da Igreja, só o fato de mais um precursor do anti-Cristo ou o próprio estar em jogo.

Por outro lado, os católicos que o reconheceram no protesto como não mais Papa, podem do mesmo modo eleger um outro Pontífice, embora para este tomar o Cátedra de São Pedro seria preciso sagrá-lo Bispo, ou seja, seria preciso pelo menos um outro bispo que não esteja em pecado, heresia, etc. Podem inclusive fazê-lo na mesma Praça São Pedro, que é pública, de maneira a fazer uma grande resistência.


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[1] Considerações sobre o ordo missae de Paulo VI, 1970, pg.33
[2] De Potestate Ecclesiastica.., pp. 104-105
[3] Op.Cit., pg.32, nota 10
[4] Laymann, Theol. Mor., Lib II, tract I, cap, VII, p 153
[5] Link: https://promariana.wordpress.com/2012/02/24/debate-com-o-dr-arnaldo-vidigal-xavier-da-silveira-sobre-o-seu-livro-que-trata-da-hipotese-teologica-de-um-papa-herege/
[6] Aprofundando Pontos da Correctio Filialis. 05.01.2018. Link: https://www.bonumcertamen.org/
[7] Reunião de Recortes, 28 de abril de 1974
[8] Mann, H. (1909). Pope Gregory VI. The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company. Link: http://www.newadvent.org/cathen/06791a.htm