Importância e simbolismo da Tríplice Tiara, deposta no Concílio Vaticano II por Paulo VI pela primeira vez



Vídeo de uma coroação de João XXIII
Pio XII na sede gestatória,
também abolida

Simbolismo e história da Tiara Papal

Um dos mais importantes e mais antigos símbolos da Igreja, a Tiara Papal denota o poder do Sumo Pontífice, fala da doutrina católica aos olhos dos homens, e é contra-revolucionária. Ela tornou-se ainda mais contra-revolucionária depois que revolucionários invadiram e tomaram os Estados Pontifícios em 1870, pois a partir daí ganhou o significado de resistência a esse ato abominável contra a então autoridade civil do Sumo Pontífice nos Estados Papais, existente desde a Idade Média. Disso, restou o Estado do Vaticano.

Sabe-se que São Silvestre I recebeu do Imperador Constantino várias relíquias, entre elas, o Palácio de Latrão (hoje Basílica de São João de Latrão), e "o diadema, isto é, nossa coroa e ao mesmo tempo o gorro frígio, quer dizer, a tiara e o manto que os imperadores costumam usar", segundo o Edito desse Imperador [1]. O Sumo Pontífice usou essa única Tiara até Bonifácio VIII, que incluiu outra, na época do confronto com o Rei da França, Filipe, o Belo, para representar a sua autoridade espiritual superior à civil. "Foi Bento XII que em 1342 acrescentou a terceira coroa para simbolizar a autoridade moral do Papa sobre todos os monarcas civis, e reafirmar a posse de Avinhão", conforme conta o Núncio Apostólico, em explicação oficial do brasão de Bento XVI, no site do Vaticano [2].
A Tiara foi de tal maneira um
símbolo do poder Papal, que
 o sultão muçulmano Solimão, 
chamado Magnífico, quis  
concorrer colocando 
quatro coroas, 
como na gravura

Na cerimônia de coroação do Papa, o Cardeal Proto-Diácono (mais velho Cardeal) diz em latim, enquanto coroa o Papa:

"Receba a Tiara adornada com três coroas e saiba que vós sois o Pai dos Príncipes e Reis, Governador do Mundo, Vigário de Nosso Salvador Jesus Cristo na terra, o que é honra e glória pelos séculos dos séculos [Accipe tiaram tribus coronis ornatam, et scias te esse Patrem Principum et Regum, Rectorem Orbis, in terra Vicarium Salvatoris Nostri Jesu Christi, cui est honor et gloria in sæcula sæculorum]" [3].

Assim, dos vários simbolismos podemos destacar os títulos representados na tríplice coroa: pai dos Reis e príncipes, governador do mundo e vigário de Cristo. As três Igrejas: triunfante, padecente, e militante [4]. Os três poderes do Papa: Magistério, Jurisdição e Ordem. As três missões da Igreja: Ensinar, governar e santificar. A dignidade do Bispo de Roma: Pastor Universal, Jurisdição Eclesiástica Universal, e Poder Temporal. As três dignidades de Cristo: Sacerdote, Profeta e Rei. E, obviamente, a Santíssima Trindade.

Deposição da Simbólica Tiara no Concílio Vaticano II: um simbólico gesto contra a Tradição Católica 

Se alguém quisesse acostumar a opinião pública ao fim de algo muito bonito e vistoso, a maneira mais eficiente seria mudar esse algo para algo feio e pouco vistoso, para que quando este chegasse ao fim, ninguém sentisse falta. Não julgando se essa era a intenção com a Tiara Papal, o fato é que Paulo VI usou a mais feia da história. O historiador Roberto de Mattei conta como foi a deposição desse tesouro Papal cheio de simbolismo e doutrina:

"Descrevendo a Missa conclusiva da sessão, com 24 concelebrantes, "mistura de inovações litúrgicas (...) e do velho rito", Padre de Lubac anota: "Olho a estátua de S. Pedro com a testa coberta pela Tiara: será possível tirá-la? Seria visto como um sacrifício".
Paulo VI depõe a Tiara Papal

Uma semana antes, a 13 de novembro, Paulo VI era elevado ao Trono Pontifício posto sob o baldaquino de bronze de São Pedro e havia deposto "sob o altar do Concílio" a Tiara que lhe foi dada pelos Milaneses na ocasião de sua coroação de Pontífice. D. Hélder Câmara descreve o evento com estas palavras: "Em emocionante silêncio, a Basílica viu Paulo VI avançar com a tiara nas mãos, pousá-la sobre o altar, e voltar para trás satisfeito! Foi um delírio". Congar, que estava presente na cerimônia, mas que pegou as repercussões, comenta com uma dose de ceticismo: "O Papa tirou a tiara e ofereceu-a aos pobres. Se se trata de renunciar à tiara e se, depois daquela, não vai ter mais nenhuma, muito bem. De outro modo, será apenas um gesto espetacular sem futuro. Em suma, é necessário colocar
Leão XIII
sobre o altar, não uma tiara, mas A tiara."" [5].


Lembrando que D. Hélder Câmara era conhecido como "Arcebispo Vermelho", nome popularizado por Plinio Corrêa de Oliveira nos inúmeros embates que teve com esse prelado, o qual foi sempre alinhado com a esquerda, o progressismo, e o tribalismo eclesiástico. 

Por fim, a tiara de Paulo VI foi vendida e seu dinheiro doado para a caridade, como previsto. Como os compradores eram católicos, doaram à Basilica of the National Shrine of the Immaculate Conception, de Washington, DC. Foi um ato pioneiro em relação ao resto dos outros tesouros Papais e do Vaticano, ainda mais com o Papa Francisco, o qual tem tendido a abandonar cada vez mais essas relíquias.

Salmo em reparação (Salmo 6)

Nossa Senhora do Apocalipse, rogai por nós!

S. Pio X
"Senhor, não me arguas no teu furor, nem me castigues na tua ira. Tem misericórdia de mim, Senhor, porque sou enfermo; sara-me, Senhor, porque meus ossos estremeceram. E a minha alma turbou-se em extremo, mas Tu, Senhor, até quando? Volta-te, Senhor, e livra a minha alma, e salva-me pela tua misericórdia.

Porque na morte não há quem se lembre de Ti, e na habitação dos mortos, quem Te louvará? Estou esgotado à força de tanto gemer, lavarei meu leito com lágrimas todas as noites, regarei com elas o lugar do meu descanso. 

Os meus olhos se turbaram por causa do furor, envelheci no meio de todos os meus inimigos. Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade, porque o Senhor ouviu a voz do meu pranto.

Pio XI e João XXIII
O Senhor ouviu a minha súplica, o Senhor ouviu a minha oração. Sejam confundidos, e em extremo conturbados todos os meus inimigos, retirem-se e sejam num momento cobertos de vergonha".

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[1] "História da idade média: textos e testemunhas", Maria Guadalupe Pedrero-Sánchez, 2003, Pg.125 
[2] D. Andrea Cordero di Montezemolo, Núncio Apostólico, L'Osservatore Romano. Link: https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/elezione/documents/stemma-benedict-xvi.html
[3] Cerimônia de coroação de João XXIII. Link: https://www.gloria.tv/video/VdNznHpsPfPpLP8kiaaj1XWaU
[4] Site do Vaticano: http://www.vatican.va/news_services/press/documentazione/documents/sp_ss_scv/insigne/triregno_en.html
[5] Roberto de Mattei, "O Concílio Vaticano II: uma história nunca escrita", Cap.V, 16, 2012.