Sobre alegações de problema no Rito Maronita reformado

São Charbel, modelo dos maronitas,
rogai por nós
Extraído de: "O Príncipe dos Cruzados" (volume II, 2a edição).

Recomendamos os artigos anteriores para melhor compreensão:

A forma da Eucaristia é só "isto é o meu corpo"/"este é o meu sangue"? Análise pelas liturgias tradicionais, Papas, Santos e teólogos

Papas, Santos e teólogos contra a participação ativa liturgicista na missa em desprezo do terço e piedades não-litúrgicas. Resposta a objeções

Papas e tradição contra o liturgicismo pró altar-mesa, altar único, padre voltado ao povo, e oposto a imagens sagradas. Resposta a objeções

Resumo da reforma do Rito Maronita

Neste artigo tratamos, em linhas gerais, das mudanças no Rito Maronita, isto é, o rito tradicional dos libaneses católicos em comunhão com o Sucessor de S. Pedro. Avaliamos se isto trouxe um problema de licitude, e em que consiste este problema. Servimo-nos, para tanto, do Qurbono Book of Offering (Divine Liturgy), o livro da Divina Liturgia Maronita, disponível no site da Eparquia de São Marun do Brooklyn, e publicado em 31 de Julho de 1992 [1], que surgiu após "quarenta tentativas" de reformas, "entre 1963 e 1982", seguindo o influxo do Concílio Vaticano II, como o próprio livro alega. Esta edição de 1992 foi feita em conjunto com o Sínodo Patriarcal dos Bispos e a Congregação Vaticana para as Igrejas Orientais, e foi publicada, "pela primeira vez, com um decreto oficial atestado pela assinatura do Patriarca e seu imprimatur".

Não visa, portanto, as reformas anteriores, porém o leitor poderá, ao final, avaliar se naquelas se aplicavam as mesmas reflexões. Esta análise visa ser genérica, e não exaustiva.

Pontos ruins

- Liturgicismo do padre voltado ao povo: o livro admite que tradicionalmente os padres celebravam de costas ao povo, e voltado para o oriente, o que era possibilitado pela construção da Igreja. Agora, fala que é a hierarquia local que decidirá como será feito, já que um decreto de Junho de 1992 do Sínodo Patriarcal dos Bispos Maronitas possibilitou celebrar em qualquer direção. O livro recomenda a celebração versum populum.

- Liturgicismo da participação ativa: em vários lugares se fala em participação ativa do povo na liturgia.

- Liturgicismo do uso diminuído da língua vernácula: um Arcebispo alega que muitos elementos foram mantidos na língua siríaca (uma tipo de aramaico), o que mostra que muita coisa na língua tradicional foi retirada para dar lugar ao vernáculo, que seria o árabe [2].

- Concílio Vaticano II: é citado uma vez como influenciador das reformas.

Pontos bons

- Orações e hinos antigos e tradicionais.

“Aqui nós não criamos novas orações e hinos, pelo contrário, fomos atrás de orações e hinos selecionados de nossas raízes e fontes Siríacas. A maior parte do tempo nós usamos um texto Siríaco como base para os textos traduzidos [3].

- Orações de penitência e perdão abundam, assim como gestos de baixar a cabeça para pedir perdão [4].

- A preparação dos elementos é mantida.

- Credo Niceno-Constantinopolitano.

Conclusão parcial

Até aqui, exige-se lamentações aos elementos ruins, mas não suficientes para evitar este Rito como favorecedor da heresia, já que a estrutura se mantém quase idêntica (tratamos somente do Missal, isto é, ignoramos abusos litúrgicos surgidos localmente).

Tratando de uma objeção: a consagração nas anáforas maronitas

Anáfora é o nome que se dá à parte mais solene da liturgia na qual se inclui a consagração. No Rito Maronita reformado existem nove anáforas em uso [5]:

Anáfora dos Doze Apóstolos, Anáfora de São Pedro Chefe dos Apóstolos, Anáfora de São Tiago, Anáfora de São João Apóstolo, Anáfora de São Marcos Evangelista, Anáfora de Sixto Papa de Roma, Anáfora de S. João Crisóstomo, Anáfora de S.João Maron, Anáfora Sharar.

Chegamos a verificar que as palavras da consagração de algumas destas anáforas, pelas traduções que vimos, têm problemas. Entretanto, no livro do Qurbono de 1992, acima citado, lê-se que para as palavras da instituição do Rito foi escolhido sempre o uso da anáfora dos Doze Apóstolos [6]. Ademais, no Qurbono, ou Missal Maronita, traduzido da edição de 2005, já com todas anáforas acima exceto a de Sharar, está disponível na internet assim como o Qurbono de 1992 [7], e em ambos se vê em todas as anáforas as mesmas palavras da consagração. De modo que não há problema no Qurbono de 1992 ou de 2005.

Entretanto, houve mais uma reforma da Liturgia em 2008, quando foram adicionadas as últimas três anáforas acima citadas. Conforme o que soubemos por um sacerdote libanês do rito maronita, não houve alteração nas palavras da consagração no missal, e uma fonte maronita de Março de 2014, analisando a estrutura da missa, indica que se usa as palavras corretas da consagração: "isto é o meu corpo/isto é o meu sangue" [8]. Além disso, temos fontes de que as anáforas de S. João Crisóstomo [9] e S. João Maron [10], por si só exibem as palavras da consagração como deve ser.

De qualquer forma, analisaremos a anáfora de Sharar segundo as traduções que obtivemos, e considerando-as fidedignas, analisaremos a questão da consagração. Ressaltamos que não queremos avaliar esta anáfora inteiramente, mas só as palavras da consagração que por ventura sejam ruins. Pode ser que no decurso dos séculos ela se tenha modificado por causa de traduções sucessivas, ou que as palavras estavam assim desde o começo com o propósito de ocultar partes sagradas. Este artigo não objetiva estas análises.

Problema da Anáfora Sharar

Atribuída à S. Pedro, esta anáfora pertenceu ao Rito Maronita. Isto nos conta o livro já citado, que diz que ela esteve ausente de 1716 até 1959, nas edições seguintes do Qurbono de 1716, que eram iguais a esta segunda edição de 1716, mostrando um indício de rechaço que poderia ter tido em relação ao uso dela.

Qual é o problema ali? Pelas traduções que vimos ao inglês por livros sobre liturgia [11], e uma tradução do latim ao espanhol [12], as palavras da consagração são:

"Este pão é o meu corpo/ Este cálice é o meu sangue".

O que diz Santo Afonso Maria de Ligório sobre isso:

"221 - I. A consagração é válida, mas ilícita: I. Se o consagrante diz: "Este alimento", "essa bebida", "esse cálice", ou "essa coisa", ou "o conteúdo dessa espécie", [e em seguida] "é o meu corpo" ou "é o meu sangue" [Hic cibus, hic potus, hic calix: vel haec res, vel contentum sub his speciebus, est corpus meum, vel sanguis meus]. Bon. l. c. p. 1. II. Se diz: 'Hic est calix novum testamentum in sanguine meo', como está em S. Lucas. c.22. (...)" [13].

Ora, esta doutrina de S.Afonso parece sólida pelo motivo de que falando "este pão é o meu corpo" o celebrante chama de pão e ao mesmo tempo de corpo de Cristo a Sagrada Eucaristia, isto é, ele não deixa de consagrar, porém confunde o que só possui a aparência de pão com mero pão. O mesmo se diga do cálice.

Assim, o padre peca em consciência disso. Por isso, o Santo Doutor diz que é válida, mas ilícita.

Segundo um estudioso da liturgia, esta Anáfora é usada no Domingo da Consagração da Igreja, Domingo dos Padres, Novo Domingo, Festa de São Pedro e São Paulo, Festa da despedida da Virgem Maria [14].

Conclusão

Testemunhos maronitas que encontramos dizem que esta anáfora não é aplicada na consagração, e que mesmo a escolha da anáfora a ser usada parte do sacerdote. De qualquer forma, se um dia for empregada em algum caso particular, a melhor conclusão parece ser a seguinte:

Como o católico não pode favorecer o sacrilégio e o pecado, mesmo que o padre não saiba o que faz, não é lícito frequentar uma missa com a consagração tirada desta anáfora, se o fiel tem ciência deste fato. Afinal, o católico é proibido de favorecer uma missa com uma consagração ilícita, pecaminosa. Por outro lado, enquanto a paróquia e o padre pertencem à Santa Igreja (não são cismáticos ou hereges), ou seja, não há communicatio in sacris no favorecimento da ilicitude, se se busca meramente a válida comunhão por devoção à Sagrada Eucaristia, parece lícito que um católico apareça somente na hora da comunhão, devidamente confessado, contando que não haja outro Rito tradicional disponível.

E se a anáfora de Sharar não é usada inteiramente, a missa não cria entraves, exceto, a depender do local, o liturgicismo e outros contratempos litúrgicos já abordados em outros artigos deste volume.


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[1] Qurbono Book of Offering (Divine Liturgy), Boutros Gemayel, Archbishop of Cyprus for the Maronites Chairman, Patriarchal Commission on Liturgy, English translation by Bishop Stephen Hector Doueihi, Bishop of the Eparchy of Saint Maron of Brooklyn. Link: http://www.stmaron.org/spirituality/liturgy/qurbono-book-of-offering-divine-liturgy/
[2] S. E. Mons. Moussa el Hage, Arcebispo Maronita de Haifa e Terra Santa. "Hemos mantenido una serie de cosas en lengua siriaca, por ejemplo cuando se entra y nos dirigimos hacia el altar, pronunciamos “he entrado en tu casa, oh Señor”, o como el trisagio, “tres veces santo”, que pronunciamos ‘Qadeeshat Aloho’, que significa ‘Tú eres santo, oh Señor’, o incluso la oración de consagración ‘el primer día antes de su vivificante pasión’”. LA IGLESIA MARONITA “Puente entre Oriente y Occidente”. Link: https://www.cmc-terrasanta.com/es/video/la-iglesia-maronita-puente-entre-oriente-y-occidente-11070.html
[3] Qurbono Book of Offering...Tradition and Renewal
[4] "The Rite of Penance found in the Maronite Ritual is identical to the practice of the Roman Church before its revision in recent years. It consists of the penitent confessing his sins to the priest, being attentive to the priest's admonition and the giving of penance to be performed, the expression of sorrow followed by the prayer of absolution". The Sacraments Of Reconciliation: A Commentary On The Spirit Of Reconciliation As A Way Of Life, Chorbishop Seely Beggiani, Rector of Our Lady of Lebanon Seminary and Professor at the Catholic University of America, Washington, D.C. Link: http://www.maronite-institute.org/MARI/JMS/july00/The_Sacraments_Of_Reconciliation.htm
[5] 10 de Junho de 2016, The Maronite Church “A bridge between East and West". Link: https://www.cmc-terrasanta.com/en/video/the-maronite-church-a-bridge-between-east-and-west-11069.html
[6] Por isto uma fonte diz: "There are at least seventy two Maronite Amphorae. In the present reformed Maronite mass, the “Anaphora of the twelve Apostles ” is the one used". St.George Maronite Church. Link: https://www.stgeorgesa.org/maronite-divine-liturgy/ 
[7] "Qurbono: The Book of Offering", Diocese of Saint Maron, USA, Brooklyn, NY. 1993, Saint Maron Publications, Brooklyn, New York. Link: https://thehiddenpearl.org/liturgical-books/. E em francês no link: http://www.maronites.fr/IMG/pdf/messe_edition_complete.pdf
[8] The Third Encyclical Letter of Patriarch Rai, Bkerke, March 2014, Patriarca da Antioquia e todo o Oriente e Cardeal da Igreja Universal. Link: http://sjmaronite.org/index.php/en-us/church-media/patriarch-visit/patriarch-photos/14-web-pages/patriarch.feed#sdendnote4anc
[9] "The Eucharistic Liturgies: Their Evolution and Interpretation", Paul F. Bradshaw, Maxwell E. Johnson, Pg.99. E também: "Prayers of the Eucharist: Early and Reformed", Ronald Claud Dudley Jasper, G. J. Cuming, pg.132 
[10] "The Divine Liturgy of the Maronite Church: Birth of Our Lord, Epiphany", 3 edição, 2006, Eparquia Maronita da Austrália, editado por Rev. G. Abdallah, assistido por Sr Y. Zaarour e Mr E. Azzi, pp.274-5
[11] "Do this in Remembrance of Me: The Eucharist....", Bryan D. Spinks, Pg.169 & "Prayers of the Eucharist: Early and Reformed", Ronald Claud Dudley Jasper, G. J. Cuming, Pg.48
[12] No link: http://wwwmileschristi.blogspot.com/2015/10/la-anafora-nestoriana-o-el-ecumenismo.html
[13] Theologia Moralis, Livro IV, Tratado VI, Cap.I, Dubium VI 
[14] "Do this in Remembrance of Me: The Eucharist....", Bryan D. Spinks, Pg.167