Por que devemos nos vestir bem, por Plinio Corrêa de Oliveira

Autor: Plinio Corrêa de Oliveira



Bem, vamos responder pergunta por pergunta. Eu acho que o assunto é tão claro que não comporta ulteriores pedidos de explicação. É só entrar na resposta.

Então o primeiro ponto da pergunta é: se isso não pode me convidar a ser uma almofadinha vaidoso.

 A resposta que se deve dar a isso é a seguinte: Vamos dizer que possa, e então uma pessoa faça então o seguinte raciocínio: “Se tal modo de vestir conduz à vaidade, propicia o pecado. Porque a vaidade é um pecado. Ora, como o homem deve evitar todo o pecado, deve evitar tudo quanto conduz à vaidade. Portanto, não deve vestir-se direito.” Esse seria o raciocínio. Está claro o raciocínio, ou alguém quereria que eu explicasse melhor?

Bem, eu respondo. Vamos ver do que vale esse raciocínio.

Um homem estudar pode conduzir à vaidade. Então vou aplicar o raciocínio: como eu devo evitar tudo quanto pode conduzir à vaidade, eu não devo estudar. O bom é o homem ficar burro.

O homem lavar-se pode conduzir à vaidade, pelo menos em relação ao sujo. Porque… “sujo, esse porco que está aqui”. Ora, eu devo evitar tudo que conduz à vaidade, logo eu devo viver um porco. Conseqüência, o estado ideal contra a vaidade é a barbárie. Então o homem deve ir para a barbárie para fugir da vaidade. Quer dizer, a conclusão é tão absurda que a gente compreende que o raciocínio não vale nada. Porque aquilo que logicamente conduz ao absurdo, aquilo é falso. Alguém queria me perguntar alguma coisa a esse respeito ou consegui ser claro?

A verdadeira resposta é: de tudo quanto o homem possa fazer uso, pode haver um abuso. Da inteligência pode haver um abuso, da boa apresentação física pode haver um abuso, da cortesia pode haver um abuso, da virtude pode haver um abuso. O indivíduo pode ter virtude e pode envaidecer-se por ter virtude. Agora, se ele vai deixar tudo aquilo que para ele pode ser uma ocasião de vaidade, ele se transforma num facínora, num porco. O que ele precisa fazer? Ele precisa dominar a sua vaidade. Ele precisa então apresentar-se decente, mas não se apresentar enfeitado, emperiquitado que não convém a um homem. Decente, bem apresentável, sim. Mas todo enfeitado…

Certos homens que a gente vê que não têm um lugar onde possa caber um enfeite, não vai. O cabelo tem uma ondinha, depois uma contra-ondinha, faz assim… A gente vê que aquilo foi estudado no espelho a duras penas. O laço de gravata é o ideal, e se tem uma listra, a listra cai logo aqui. Minha gravata parece que tem listra, mas o senhores sabem como são os meus laços de gravata. A listra cai aqui. Ele arranjou ainda uma pedrinha para pôr aqui, com uma pontinha, com outra pedrinha pendurada que treme quando ele se move. A gente vai olhar o prendedor de gravata dele, é um prendedor de ouro que tem um não sei o quê, que faz não sei o quê. Não há… É um emperiquitado, está uma árvore de Natal, onde pode caber um enfeite, cabe. Isso é ridículo, é evidente. Aqui há um excesso de uma coisa boa. Isso está errado.

Mas usar paletó, gravata, apresentar-se limpo e bem, isso é um prova de respeito que a gente dá a Deus. Porque como eu sou feito à imagem e semelhança de Deus e pelas orações de Nossa Senhora, eu, no batismo, me tornei um templo do Espírito Santo. Eu preciso me apresentar decentemente. Isso seria a resposta que eu teria a apresentar.

Segundo: “Quais são os motivos de ordem superior que me obrigam a agir dessa maneira?”

O motivo profundo é precisamente este: é que convém que as aparências das coisas correspondam à sua realidade; que as coisas sejam o que elas parecem ser quando elas têm uma aparência boa. Mas que também, quando a coisa é boa, ela externe sua aparência. Isso é o que se deve desejar. Os senhores, não sei se sabem que havia uma disputa durante algum tempo entre duas escolas teológicas: uma que acha que Nosso Senhor Jesus Cristo tinha sido um homem desgrenhado, feio e muito desagradável de se olhar; e outra que afirmava que Nosso Senhor Jesus Cristo tinha sido o que nós sabemos.


No sentir de todos os católicos e de todos os santos, a segunda escola dominou a primeira completamente. Nós não podemos imaginar Nosso Senhor Jesus Cristo a não ser com um físico que era a transparência da divina beleza incomparavelmente maior, porque era cheia de graça, de charme de dignidade, de expressão de fisionomia; é a maior de todas as belezas. E eu sustento que na Criação toda nunca houve uma coisa tão bela quanto a face divina e humana de Nosso Senhor Jesus Cristo. É evidente.

Mas é [assim] porquê? Porque havia nEle tanta santidade, havia tanta virtude na humanidade d’Ele — pela comunicação com a natureza divina pela união hipostática — que convinha que tudo isso se apresentasse de um modo distinto, digno, majestoso, bondoso, afável e soberano nas suas manifestações materiais. Então, o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, um modelo de beleza. A Santa Face de Turim, o Sudário de Turim que é indiscutivelmente o Sudário de Nosso Senhor Jesus Cristo apresenta a prova disso.

Se isso é com o corpo, deve ser com o traje. Porque o traje é um complemento do corpo. Para nós que somos concebidos no pecado original, nós entendemos que a nudez não convém ao homem debaixo de nenhum ponto de vista, porque ele deve trajar-se. O traje dele deve ser uma expressão de seu corpo, um complemento de seu corpo. Então, resultado, o traje deve ser digno, o traje deve ser sério, o traje deve ser distinto.

Isso não quer dizer que todo o mundo deva andar o mais bem vestido possível. Há algumas pessoas a quem é próprio estar muito bem vestido. Outras pessoas devem estar vestidas com dignidade, mas nem lhes fica bem estar muito bem vestidas. Ninguém deve estar vestido numa categoria social superior à sua, nem inferior à sua. Deve andar de acordo com sua categoria social. Não procurar pelo traje simular o que não é. Seja o que é, seja autêntico. Não há razão para a gente ter vergonha de nenhuma classe social. As classes não são iguais, mas qualquer homem pode ser um filho de Deus e um santo em qualquer classe. Então esteja contente na classe onde a Providência o fez nascer e se vista de acordo com isso. Está acabado (...).

A última pergunta: “Porque há momentos nos quais pode sentir-se vontade de romper com tudo isso e andar à vontade?”

Eu acho que é muito fácil. Eu acho que para ser bem franco: não [há] um aqui nessa sala que, de vez em quando, assistindo uma conferência, não sinta vontade de tirar o sapato. Porque o sapato aperta. Não há um que não tenha vontade, de vez em quando, de tirar o paletó; não há quem não tenha vontade de alargar a gravata; não há um que não tenha vontade de mandar embora o vizinho e pôr a perna na cadeira do vizinho — porque a natureza humana pede essas coisas —, é evidente. Não há um que não tenha vontade de bocejar enormemente; não há um que não tenha vontade de dizer para o orador: “Olhe, pare um pouco que eu estou cansado. E vocês todos fiquem parados. Eu vou dar uma voltinha e daqui a pouco vou voltar”.

Por quê? Porque a natureza humana, nos seus aspectos espontâneos, trincada pelo pecado original pede tudo quanto é incorreto. E portanto, há uma revolta da natureza humana contra o traje, como há contra as boas maneiras, como há contra uma porção de outras coisas.

Por exemplo, vai chegando uma visita em casa numa hora cacete. A vontade que a gente tem é dizer o seguinte: “Olhe aqui, você é cacete e a hora em que você chegou é cacetíssima. Vá embora. E até para me evitar de vê-lo, não apareça nunca mais.” Mas a gente sabe que não pode fazer isso. É contra a caridade, às vezes será contra a justiça, em todo caso é contra a boa educação.

Agora, a pergunta: “Porque é que de vez em quando a gente tem vontade de fazer isso?” É simples: [é o] pecado original que põe dentro de cada um de nós um bárbaro. Então, porque é que nós temos vontade de nos vestir mal? A resposta é: “Vá perguntar para nossos antepassados índios no interior. Eles sabem. Aqui está acabado.”

(Reunião Santo do Dia, 29 de Dezembro de 1969, 2ª feira)



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