Existe um batismo de desejo e um batismo de sangue? A Doutrina Católica responde com a Bíblia, Papas e Santos

S. Tomás de Aquino,
rogai por nós!
Extraído de: "O Príncipe dos Cruzados (Volume II, 2a edição)".

Sagrada Escritura

"Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu vou beber, ou ser batizados no batismo em que eu vou ser batizado? Podemos, asseguraram eles. Jesus prosseguiu: Efetivamente haveis de beber o cálice que eu devo beber e e haveis de ser batizados no batismo em que eu vou ser batizado. " S. Marcos X, 38-39.


"Todo aquele, portanto, que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus" S. Mateus X, 32. A Escritura diz "todo" [omnis].

"E são três os que dão testemunho na terra: o espírito, a água e o sangue, e estes três são uma mesma coisa" 1 S. João V, 8.

Santo Tomás de Aquino citando a Sagrada Escritura, S.Agostinho, São Cipriano, Santo Ambrósio

"Parece inadequada a distinção de três batismos: de água, de sangue e de desejo ou do Espírito Santo (...)

Em sentido contrário, a Glosa diz a respeito da passagem da Carta aos Hebreus ("da doutrina sobre os batismos, da imposição das mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno" 6:2) que menciona a doutrina dos batismos: "Fala no plural, porque há o batismo de água, o batismo de penitência e o batismo de sangue".

Respondo. O Batismo de água obtêm sua eficácia, por um lado, da paixão de Cristo, a quem a pessoa é configurada pelo batismo e, por outro, do Espírito Santo, como da causa primeira. Embora o efeito dependa da causa primeira, a causa excede de muito o efeito e não depende dele. Por isso, além do batismo de água, uma pessoa pode conseguir da paixão de Cristo o efeito do sacramento, pelo fato de se conformar com Cristo em sua paixão. A respeito diz o Apocalipse (7:14): "Eles vêm da grande tribulação. Lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro".

Pela mesma razão, uma pessoa pode conseguir o efeito do batismo pela força do Espírito Santo, sem batismo de água e até sem batismo de sangue, quando seu coração é movido pelo Espírito Santo a crer e amar a Deus e arrepender-se de seus pecados: por isso, também se chama "batismo de penitência". Eis porque diz o livro de Isaías (4:4): "Se o Senhor limpar por ablução as imundícies das filhas de Sião e lavar Jerusalém do sangue nela derramado, num espírito de julgamento e num espírito de ardor".

Assim, portanto, os dois outros batismos são chamados de batismo, enquanto suprem a ausência do batismo. S.Agostinho diz (O Batismo contra os Donatistas, Livro IV): "São Cipriano adota um argumento não sem peso para aceitar que, às vezes, o martírio toma o lugar do batismo. É o caso daquele ladrão não batizado a quem Cristo disse: 'Hoje estarás comigo no paraíso'. Refletindo repetidamente sobre isso, acho que não só o sofrimento suportado pelo nome de Cristo pode suprir o que faltava ao batismo, mas também a fé e a conversão do coração, se por acaso não se pode acudir à celebração do mistério do batismo dada a situação crítica do momento" [1].

"Parece que nunguém pode se salvar sem o batismo.

1 - Com efeito, o Senhor diz: "Ninguém, a não ser que nasça da água e do Espírito Santo, pode entrar no Reino de Deus" (Jo 3:5). Ora, só se salva quem entra no Reino de Deus. Logo, ninguém pode salvar-se sem o batismo, pelo qual nascemos de novo pela água e pelo Espírito Santo.

2 - Além disso, no livro dos Dogmas Eclesiásticos se lê: "Cremos que catecúmeno algum, embora tenha falecido em boas obras, terá a vida eterna, exceto em caso de martírio, no qual se realiza o sentido do sacramento do batismo". Ora, se alguém se pudesse salvar sem batismo, seriam principalmente os catecúmenos ricos em boas obras, que parecem ter "a fé que age pelo amor". Logo, parece que sem o batismo ninguém pode salvar-se.

3 - Ademais, o sacramento do batismo é necessário à salvação.  Ora, necessário é "aquilo sem o qual  algo não pode ser", como diz Aristóteles (V Metafísica). Logo, sem o batismo ninguém pode conseguir a salvação.

Em sentido contrário, diz S.Agostinho que "houve que recebesse e se beneficiasse de uma santificação invisível sem sacramentos visíveis, mas a santificação visível que se realiza pelo sacramento visível, pode dar-se sem a invisível, mas então nada vale". Como o sacramento do batismo concerne à santificação visível, sem ele se poderia obter a salvação por uma santificação invisível.

Respondo. Há dois modos de não ser batizado. Há os que não são batizados nem na realidade nem no desejo, o que acontece naqueles que nem são batizados nem querem batizar-se. Em quem tem o uso do livre-arbítrio, isso obviamente manifesta desprezo do sacramento. Por conseguinte, aqueles a quem falta o sacramento do batismo deste modo, não podem conseguir a salvação, porque nem sacramentalmente nem espiritualmente estão incorporados a Cristo, que é o único que nos salva.

Há, porém, outro modo de não ser batizado não ser batizado na realidade, mas sê-lo no desejo, ocmo quando alguém deseja batizar-se, mas pr acaso a morte o surpreende antes de receber o batismo. Ele pode alcançar a salvação sem o ato do batismo por causa do desejo do batismo que procede da "fé que age pelo amor", pela qual Deus, cujo poder não está ligado aos sacramentos visíveis, santifica o homem interiormente. Assim Ambrósio diz de Valentiniano que morreu como catecúmeno: "Perdi a quem haveria de dar novo nascimento, mas ele não perdeu a graça que buscava".

Quanto ao 1, portanto, deve-se dizer que como diz a Escritura, "os homens veem aquilo que salta à vista, mas o Senhor vê o coração". Quem pelo batismo deseja "nascer de novo da água e do Espírito Santo", já nasceu de novo em seu coração, embora não no corpo, como diz o Apóstolo: "A circunsição do coração é segundo o Espírito e não segundo a letra. O seu louvor vem não dos homens, mas de Deus".

Quanto ao 2, deve-se dizer que ninguém chega à vida eterna, se não for absolvido de toda culpa e de toda pena. Essa absolvição total acontece ao receber o batismo e no martírio. Eis por quê, se diz que no martírio "se realiza o sentido do sacramento do batismo", a saber: quanto à plena libertação da culpa e da pena. Se, pois, algum catecúmeno tem o desejo do batismo (porque do contrário não morreria em boas obras que não podem existir sem "a fé que age pelo amor") e vem a morrer, não chegará de imediato à vida eterna, mas sofrerá a pena pelss pecados passados, porém "ele mesmo será salvo, mas como quem o é pelo fogo", como diz S.Paulo (1 Cor 3:15).

Quanto ao 3, deve-se dizer que o sacramento do batismo é necessário à salvação, porque o homem não pode ser salvo, se não o tiver recebido, pelo menos em seu desejo, e "Deus reputa esse desejo por coisa feita" [2].

Pio XII

"No entanto, o estado de graça no momento da morte é absolutamente necessária para a salvação. Sem ele, não é possível ter a felicidade natural, a visão beatifica de Deus. Um ato de amor é suficiente para um adulto obter a graça santificante e suprir a falta de batismo. Mas para uma criança no ventre ou recém-nascida, esta via não existe" [3].

O mesmo Papa excomungou o Pe. Leonard Feeney por não crer no batismo de desejo [4].

Código de Direito Cânonico (1917)

Can. 1239

§ 2 Os catecúmenos que morrem sem batismo, sem que seja sua culpa, são assimilados aos batizados.

Catecismo de São Pio X

565) Pode suprir-se de algum modo a falta do Batismo?

A falta do Batismo pode supri-la o martírio, que se chama Batismo de sangue, ou um ato de amor perfeito de Deus, ou de contrição, junto com o desejo, ao menos implícito, do Batismo, e este ato chama-se Batismo de desejo.

CLIQUE PARA VER MAIS ARTIGOS:

A forma da Eucaristia é só "isto é o meu corpo"/"este é o meu sangue"? Análise pelas liturgias tradicionais, Papas, Santos e teólogos

É lícito receber de a-católicos sacramentos, sacramentais ou ir ao culto deles em algum caso? Communicatio in Sacris ativa

Clique aqui para ver mais Doutrina Católica contra os erros sobre a vida católica

-----------------------------------------------------------
[1] Suma Teológica, Parte III, Q.66, Art.11.
[2] Suma Teológica Parte III, Q.68, Art.2.
[3] Alocução às Parteiras, 29 de Outubro de 1951, citado em John McCarthy, "Problems in Theology", Vol. I (Newman Press, 1956), p. 53.
[4] AAS (16 de Fevereiro de 1953) Vol. XXXXV, Page 100.