Hipótese Teológica sobre a mudança na indumentária com o Papa Santo

Para entender tais raciocínios convém ler primeiro alguns artigos da seção que possam ajudar a entender conceitos aqui mencionados:

CLIQUE: Profecias Católicas

Do livro "O Príncipe dos Cruzados (Vol. I, parte I, 3a edição, Cap. III)".

Estas hipóteses são firmadas no "princípio de beleza", visto no capítulo 1. Assim, a hipótese é feita por aproximação a uma situação imaginada de extrema beleza, contendo o máximo de aspectos belos e semelhantes aos aspectos que dispõem a Sagrada Escritura. Essa hipótese é o mais próximo possível que alguém pode chegar (se Deus der uma graça), e portanto ela em si é limitada e não necessariamente verdadeira. É possível elaborar teses a partir dessa mesma hipótese. Tais teses dependem muitas vezes de questões doutrinais, por isso, é preciso estar imbuído da doutrina tradicional católica.

Tal modo de hipotetizar foi, até onde o autor destas palavras pôde rastrear, primeiramente posto em prática pelo prof. Plinio Corrêa de Oliveira, como visto no capítulo 1.

Assim, usamos a hipótese de que as Eras da Igreja são as Eras já tratadas antes nesse capítulo. Dela, tiramos a tese histórica de que os começos e os fins das Eras, em maioria, foram acompanhadas por uma mudança nas vestes Papais.

Daí segue a tese doutrinária: o decaimento no uso das vestes Papais no pós-concílio clama por resgate ou por mudança. Além dos argumentos históricos, aqui mostrados, nos referimos às noções do volume 2. Pelo mesmo argumento propomos outra tese, em harmonia com o que já vimos nesse volume: a vinda do Papa Santo é o marco do início da sexta Era, o que precisa estar explícito nos símbolos também.

No caso das vestes habitualmente usadas pelo Papa, a conveniência de uma mudança é apoiada pelos motivos:
- O uso das vestes papais pelos Papas que renunciaram causa confusão, mas essa confusão igualitária será belamente resolvida com a mudança das vestes papais.
- Transformará a roupa antiga em um símbolo da Igreja antiga, que com o Papa Santo tomaria novo rumo.
- Se os papas que renunciaram passassem a usar a roupa nova, seria uma afronta ao Papa Santo e um claro indício de que eles queriam mesmo o igualitarismo.

No caso das vestes litúrgicas, a conveniência do uso tradicional é apoiada pelos motivos:
- Em relação a liturgia, o Papa Santo virá para resgatar.

- Os começos ou os fins das Eras em maioria foram acompanhadas por uma mudança nas vestes dos Papas

Resta provar essa tese com argumentos históricos. Mas primeiro é preciso se perguntar por qual motivo isso acontece, isto é, se há alguma razão, pois caso contrário poderia se dizer que foi mera casualidade.

Os sinais exteriores refletem a dignidade da pessoa, assim como a sua personalidade, como visto no volume 2 dessa série. Então, se um Papa resolve se vestir com mais dignidade, ele quererá mostrar a grandeza de seu cargo ou estará cheio de vaidade. A segunda opção não é possível por duas razões: o Papado é atemporal, e é a mais digna posição que um homem pode ter, a de chefe da única e verdadeira religião como Vigário de Nosso Senhor Jesus Cristo. Então, a indumentária Papal não precisa estar conforme os costumes do tempo, e deve ser aquela mais de acordo com a dignidade do cargo, ou seja, nada a ver com a vaidade Papal.

Porém, há a possibilidade do Papa refletir vaidade caso ele passe a usar roupas belas sem continuidade com os Papados anteriores. Por exemplo, ao desprezar as cores vermelhas e brancas, comuns na história da indumentária, ou a cruz peitoral por uma cruz grudada na roupa, ainda que feita em diamantes ou pedras preciosas, etc. E pior ainda seria se usasse roupas semelhantes ou iguais a de outros, de modo que não só seria algo igualitário mas constrangeria quem usa, assemelhando-os ao Sumo Pontífice.

Isso até hoje não houve, mas os últimos Papas passaram a deixar de lado muitos símbolos de dignidade que antes representavam a grandeza do Papado. Não provaremos que os últimos pontificados tenderam a mentalidade moderna, o que pertence a outro volume dessa série.

Ademais, se o Papa, ao usar vestes mais belas quer mostrar a grandeza de seu posto, podemos dizer que isso ocorre por dois motivos:

1. Impulsionado pelo próprio Papa.
2. Impulsionado pelo Papa, por causa de uma mudança social. Esta opção pode ser motivada por reação ou conformidade, pois é possível reagir contra essa mudança, ou se conformar com ela, seja por estar de acordo ou não.

O segundo motivo indica mudança de Era, pois essa é marcada por um mudança da sociedade, também em relação à Igreja. Já o primeiro pode ser simplesmente da cabeça do Papa, sem influência da sociedade. No entanto, como a indumentária reflete o homem, se ela for algo boa (de acordo com a dignidade Papal), denota bons tempos, e portanto uma das três opções: ápice de glória da Era, começo, ou fim de uma Era. Do mesmo modo para a má, que denota maus tempos e, portanto, o começo ou o fim de uma Era.

De tudo que foi dito, é possível concluir que uma mudança na indumentária Papal decorre de uma mudança social, isto é, o ápice, começo ou fim de uma Era. Mostramos a seguir com argumentos históricos.

Épocas em que as indumentárias Papais se estabilizaram - Indumentária - Era

Obs: O ápice referido é no Papado

(1) Séc. IV - Pálio - Fim da Era 2

(2) Séc. VIII - Fano - Começo da Era 4

(3) Séc. VIII - Tiara ou Camelaucum - Começo da Era 4

(4) Séc. VII -  Manto vermelho - Começo da Era 4

(5) Séc. XIII -  Veste branca - Ápice da glória na Era 4

(6) Séc. XIV, Bonifácio VIII e Bento XI e Clemente V -  Tríplice Tiara Papal - Começo da Era 5

(7) Séc. XVI, São Pio V - Hábito Dominicano branco - Ápice da glória na Era 5

(8) Séc. XXI, Papa Santo - Veste Papal profética do Reino de Maria - Começo da Era 6

- Respondendo objeções prévias antes das provas históricas


Objeção 1: O Papado de Pio IX obteve mais glórias
(que o de Pio V), pois nele houve: santos como João Bosco, João Maria Vianney, Antônio Maria Claret, Bernadette Soubirous, Francisco Palau, a fundação dos Salesianos e dos Claretianos, boa parte das grandes aparições Mariais, o Concílio Vaticano I, o dogma da Infalibilidade Papal.

No Pontificado de Pio V semelhantes coisas aconteceram: santos como João da Cruz, Teresa D'Avila, Luis Gonzaga, José de Anchieta, a reforma do Carmelo, o legado da companhia de Jesus, a Contra-Reforma, Nossa Senhora de Lepanto, Concílio de Trento, a forma final da missa latina.

Podemos dizer que o Pontificado de Pio IX teve eventos mais ligados ao espírito da profecia, tanto que seus santos eram mais inclinados a isso do que os santos sob Pio V, que eram mais combativos. Isso era conveniente ao tempo de cada um. Anterior e mais combativo, o pontificado de Pio V alcançou mais conquistas, até no sentido material, coisa que não aconteceu com Pio IX, que acabou perdendo os Estados Pontifícios, embora no âmbito sobrenatural tenha sido um glorioso pontificado.

Aqui são mais relevantes as conquistas materiais (ligadas ao sobrenatural, é claro), pois a Igreja pode perder tudo no âmbito material e estar gloriosa no sobrenatural, como foi na época dos mártires. Por esse motivo também é difícil encontrar um marco na indumentária Papal da época.

Objeção 2: Se o ápice da glória é simbolizada mais pelas conquistas materiais do que as sobrenaturais, como dito antes, como dizer que o Papa Santo é quem trará uma mudança nas vestes, e não algum outro glorioso pontificado no Reino de Maria?

O Reino de Maria, segundo já visto, vem após a Bagarre ou Castigo Mundial, quando haverá uma grande graça, mas se deve ter em conta que o mundo ainda estará em ruínas, por causa do Castigo. Apesar disso, a conquista material será grande pois voltarão os Estados Pontifícios, e os remanescentes serão católicos autênticos, sobrando quase nenhum revolucionário, enfim, uma grande conquista, também simbolizada pela conversão da Inglaterra e China, conforme consta nas revelações particulares, vistas mais adiante.


Objeção 3: Segundo as noções acima, a Era 4 não tem começo definido, e assim também o fim da Era 3. Isso dá mais liberdade para inserir mudanças nas vestes nessa Era.

A virada da terceira para a quarta Era costuma ser relacionada com a queda do Império Romano do Ocidente, que passou a ser governado pelo Império Bizantino. Então, não há uma data exata para a queda do Império Romano. Mas essa virada de Era, na verdade, é a "mudança" do poder de Roma para o poder da Igreja. A Igreja, fundada em Roma, seria o novo Império Romano, já o sendo no âmbito sobrenatural. A realidade do Império da Igreja ficou mais evidente depois que o Império Romano era considerado história, mas a Igreja resistia. Nesse momento já estamos na Idade Média, a Era 4, na qual a Igreja, como nunca antes, mostra que é o verdadeiro Império.

(1) Séc. IV - Pálio - Fim da Era 2


Bento XVI entregando o Pálio
e usando um
A Enciclopédia Católica [1] diz que "de acordo com o "Liber Pontificalis", foi usado na primeira metade do século IV. Esse livro relata que, na vida do Papa São Marcos (+336), ele conferiu o direito de usar o pálio ao Bispo de Ostia, porque a consagração do [futuro] Papa lhe pertencia." Na mesma fonte é mencionado o uso comum dessa vestimenta, no século VI, pelo Papa e alguns outros bispos que dele recebiam: cita-se o caso de São Cesário de Arles que recebeu o pálio do Papa Símaco em 513.

Outro caso que mostra o significado do pálio é a do papa São Félix IV, que quando ficou doente no ano de 530, quis assegurar a paz na Igreja de Roma nomeando um sucessor no leito de morte. Para isso, ele deu ao Arqui-diácono Bonifácio seu pálio, o que ficou publicamente conhecido como um gesto de escolha de um sucessor [2]. Isso causou problemas, pois não quiseram aceitar Bonifácio II e escolheram outro Papa, o qual morreu 22 dias depois e o Papa ficou sendo Bonifácio mesmo.


(2) Séc. VIII - Fano - Começo da Era 4

Pio XII com pálio sobre o fano,
e com a Tríplice Tiara
É citado no mais antigo Ordo Romanus, então sua existência pode ser provada para o século VIII. Era então chamado de anabolagium (angolagium), mas não era uma vestimenta exclusiva do Papa.

(3) Séc. VIII - Tiara ou Camelaucum - Começo da Era 4

"A mitra Papal é de origem romana, e vem de uma veste não litúrgica que distinguia o Papa: o camelaucum, do qual a tiara também vem. Esse camelaucum foi usado tão cedo quanto o começo do século VIII, como é evidenciado na biografia do Papa Constantino I (780-815) no Liber Pontificalis". "As moedas de Sérgio III (904-11) e de Bento VII (974-83), nas quais São Pedro é desenhado usando um camelaucum, dão ao chapéu a forma de cone, geometria original da mitra" [3].

(4) Séc. VII -  Manto vermelho - Começo da Era 4

Já no século XI, São Pedro Damião descreveu a cappa rubea dada ao Papa na sua eleição como uma vestimenta única do Papa [4], porque ela significava a supremacia da esfera espiritual sobre a temporal. São Gregório VII (1073-1085) avisou que "somente o Papa pode usar a capa vermelha como sinal de sua autoridade imperial e martírio" [5].

Isso já indicava ser um costume da época, o que estendemos para o século VII, como evidencia a imagem abaixo no lado esquerdo com São Gregório Magno usando a capa vermelha, em um desenho do século XII, em um mosaico da Basílica de "Santa Agnese fuori le mura" em Roma feita pelo Papa Honório (625-38) que o mostra usando o manto vermelho.

(5) Séc. XIII -  Veste branca - Ápice da glória da Era 4

Embora tenha sido São Pio V o primeiro a usar o hábito branco dominicano, como mostraremos a seguir, seu uso era anterior, como evidencia a pintura de Raphael de Júlio II (1503-13). O Ordo XIII do Papa Gregório X em 1274 é o mais antigo a mencionar a veste branca como uma veste Papal, e que de certa forma nos diz que foram consolidados nessa época a veste branca e o manto vermelho, apesar deste último já ser de uso mais antigo do Papa. Corrobora isso o fato de que, a partir desse Ordo, essas duas vestimentas foram sempre lembradas como tipicamente Pontificais.

William Duranti, o bispo de Mende,
em 1284 já dava interpretações simbólicas destas duas roupas, o que leva a crer que a consolidação delas trouxe a questão à tona.

(6) Séc. XIV, Bonifácio VIII e Bento XI e Clemente V - Tríplice Tiara Papal - Começo da Era 5

Bento XI com a Tríplice Tiara
e o pálio
É notório que o primeiro a usar a Tríplice Tiara foi Bonifácio VIII em resposta aos que tentavam tirar o poder temporal da Igreja. Entretanto, a tiara ou camelaucum, como foi visto, é mais antiga.

Os papas
Bonifácio VIII, Bento XI e Clemente V  por estarem no meio da confusão que foi a virada de uma Era e o exílio em Avignon, resolveram deixar mais significativo o poder Papal e incrementaram a tiara Papal, constituindo a Tríplice Tiara [6].


Bento XVI com o
hábito dominicano
(7) Séc. XVI, São Pio V - Hábito Dominicano branco - Ápice da glória da Era 5

 São Pio V foi o primeiro a usar propriamente o hábito de dominicano, embora, como argumentamos acima, não foi o primeiro a usar vestes brancas por baixo.

(8) Séc.XXI, Papa Santo - Veste Papal profética do Reino de Maria - Começo da Era 6

No próximo artigo discutiremos a hipótese da roupa do Papa Santo.

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[1] Catholic Encyclopedia, Palium, by Joseph Braun, 1909  
[2] “Neues Archiv”, XI, 1886, 367; Duchesne, “Liber Pontificalis”, I, 282, note 4 
[3] Church Vestments: Their Origin and Development, pg.108, Herbert Norris, 1950 
[4] Peter Damian, Epist., book 1, 20 (1073) in Carol M Richardson, The Cardinal’s Red Hat, The Open University, UK, p. 6
[5] “Descriptio sanctuarii Lateranensis ecclesiae”, in ibid., p. 7.
[6] A History of the Crown Jewels of Europe, (London: B. T. Batsford, 1960) pp. 377-378