Doutrina católica sobre as revelações públicas e particulares (parte útil para a interpretação das mesmas)

S.Vicente Ferrer
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Doutrina católica sobre as profecias (públicas e particulares)

-Valor das profecias públicas

Pe.Julio Maria: "As profecias públicas são as que estão incluídas no Antigo ou no Novo Testamento, e dizem respeito às recompensas ou castigos do povo hebreu, à Pessoa de Jesus Cristo, à Igreja e ao fim do mundo. O ciclo das profecias públicas encerrou-se pelo Apocalipse, que indica os acontecimentos humanos até ao fim do mundo" [1].

-Valor das profecias privadas: não são de fé divina, mas de fé humana

Bento XIV (quando Cardeal Lambertini): "Que se deve pensar das revelações particulares aprovadas pela Santa Sé, como as de Santa Hildegarda [que o foram em parte por Eugênio III], de Santa Brígida [Bonifácio IX], de Santa Catarina de Siena [Gregório XI] ? Eu afirmei que não é obrigatório, nem possível, dar-lhes assentimento de fé católica, mas somente de fé humana, conforme às regras da prudência" [2].

Pe.Melchor Cano, O.P.: "Pouco importa à Igreja que se acredite ou não nas revelações de Santa Brígida ou outras. São coisas que não têm nada a ver com a Fé" [3].

Pe.Julio Maria: "Tais profecias não são de fé divina, porque foram feitas fora do ciclo da inspiração pública, nem são de fé eclesiástica, porque a Igreja, mesmo admitindo-as, não obriga a aceita-las como verdades de fé (...).

Certas revelações provadas, ou profecias, receberam a aprovação da Igreja, porém, convém notar que tal aprovação é apenas negativa, o que quer dizer que nada incluem de contrário ao ensino católico. A aprovação positiva que a Igreja dá a uma verdade claramente revelada, torna esta verdade de fé eclesiástica, enquanto a aprovação negativa agasta apenas a discordância com o dogma ou a moral católicos, podendo os fiéis aceitar ou rejeitar estas verdades" [4].

-Não podem ser em bloco desprezadas

Pe.Julio Maria: "Aquele, entretanto, que lhes negasse todo o valor, seria mais que imprudente, pois é certo que algumas revelações são de inspiração divina, e como tais, dignas de respeito e merecedoras de nossa adesão (...).

Pode alguém desprezar todas as profecias feitas por pessoas de grande virtude ?

Não havendo escândalo ou outras consequências graves, podia sem dúvida, porém, seria uma gravíssima imprudência, porque seria como negar o espírito profético na Igreja, quando é certo que tal espírito continua depois, como antes da vinda de Jesus Cristo.

Pode-se negar tal ou tal profecia, em particular, por não ter fundamentos bastante sólidos ou aparentes, porém, não se podem negar em bloco todas as profecias privadas, porque tal negação seria como que a negação da assistência do Espírito Santo à sua Igreja.

É por isso que São Paulo dizia: “Não desprezeis as profecias, examine tudo, abrace o que for bom” I Tess 5, 20" [5].

-Até as revelações dos santos podem às vezes conter erros

Carta de São Bernardo, sobre revelações de São Norberto: "Eu lhe perguntei o que sabia sobre o Anticristo, e ele me declarou que soube por revelação, de maneira muito certa, que o Anticristo viria durante a geração atual. Como eu não compartilhasse sua convicção, pedi que me expusesse suas razões. A resposta não me satisfez. Procurou pelo menos estabelecer que ele não morreria sem presenciar uma perseguição geral na Igreja" [6].

São Vicente Ferrer é um exemplo surpreendente de condições subentendidas nas profecias. Ele utilizou os seus últimos vinte e um anos de vida (1398-1419) para anunciar que o Juízo Final estava próximo (no sentido comum da palavra). Ele o soube por uma visão muito clara, enunciada sem condições, e cuja veracidade ele provou por meio de numerosos milagres. Em 1412 já se contavam mais de 3.000, quando ele pregou em Salamanca, e lá ocorreu o mais célebre de todos: ressuscitou durante quinze minutos uma mulher que era conduzida ao cemitério, e que confirmou o que ele dizia. No entanto, essa profecia tão bem apoiada não se realizou [7].

O Pe.Poulain [8] dá outros exemplos: "Beata Catarina Emmerich disse que a Santa Virgem morreu treze anos depois de seu filho [9]. A irmã Gojoz dá a mesma cifra [10]. Maria de Ágreda conta vinte e um anos, quatro meses e dezenove dias [11]. S.Brígida, quinze anos [12]. S. Elisabeth de Scluenau, um ano e meio [13]. A terceira disse que Maria ressuscitou três dias depois de sua morte [14], a quarta, quinze dias, a quinta, quarenta dias (...)".

-Ainda assim, a profecia não diz algo falso

S.Tomás explica a razão destas falhas mesmo sendo as profecias oriundas de Deus, e por isso infalíveis: "a presciência divina considera os eventos futuros de duas maneiras: primeiro, neles mesmos, isto é, vendo-os como presentes. Segundo, nas suas causas, isto é, vendo-os como efeitos em relação às suas causas. Embora os futuros contingentes sejam, em si mesmos, sujeitos a uma única determinação, contudo, considerados em relação às suas causas, não são assim determinados, de tal modo que não possam produzir-se de outra maneira. E, não obstante esse duplo conhecimento estar sempre conjugado na inteligência divina, nem sempre o está na revelação profética, porque a impressão do agente nem sempre é adequada à capacidade dele (...). Nem por isso a profecia está sujeita a erro, pois o sentido dela é que a disposição das causas inferiores, ou naturais, ou dos atos humanos é tal que por elas pode acontecer o que foi anunciado" [15].

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Fontes:
[1] Pe.Julio Maria, "O fim do mundo está próximo ?", 1940, Cap.1, no. II
[2] De Servorum Dei Beatificatione, liber III, cap. último, no.15, et 1. II, c. xxxii, no.11
[3] De locis theologicis, liber. XII, c.III
[4] Idem
[5] Idem, no. II e III
[6] Édition Migne, Lettre 56, escrito por volta de 1128
[7] Fatos que constam em "Histoire de saint Vincent Ferrier, apôtre de l'Europe", Tome I et Tome II, R.P.Fages, O.P., Paris, Picard, 1901
[8] Pe. Augustin Poulain, SJ, "Traité de Théologie Mystique", Gabriel Beaughesne & Cie, Éditeurs, Paris, 1909, Cap.XXI, no.11, nota 2
[9] Vie de la Sainte Vierge, part.II, cap.XII
[10] Vie para la Mère de Provane, part.III, cap.VIII
[11] A Cidade Mística, part.III, L.VIII, cap.XIX
[12] liber VII, cap.XXVI
[13] Bolland, IS juin, no.110
[14] ibid., ch.XXI
[15] Suma Teológica, II-II, q.171., art.6, ad.2