Prática indispensável para a interpretação das profecias e regras do nosso método de intepretação

Profeta Jonas
Doutrina católica sobre as revelações públicas e particulares (parte útil para a interpretação das mesmas)

O ministério profético dentro da Igreja após o tempo dos apóstolos não acabou

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Prática indispensável para a interpretação das profecias

Sempre levar em conta a tradição apostólica, os Padres, Doutores, e Teólogos da Igreja

Por causa da falta de análise profunda de muitos que consideram fácil qualquer passagem, e acabam caindo em erro frequentemente. Dá certa razão neste sentido S.Agostinho: "Não duvido de que a obscuridade dos Livros santos seja por disposição particular da Providência divina, para vencer o orgulho do homem pelo esforço e para premunir seu espírito do fastio, que não poucas vezes sobrevém aos que trabalham com demasiada facilidade" [1].

Por causa das próprias Escrituras. "Disse-lhes: A vós é concedido conhecer o mistério do reino de Deus, porém aos que são de fora, tudo se lhes propõe em parábolas, para que, "olhando, olhem e não vejam, ouvindo, ouçam e não entendam, de sorte que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados" Mc 4, 11-12. "Todas estas coisas disse Jesus ao povo em parábolas, e não lhes falava sem parábolas, a fim de que se cumprisse o que estava anunciado pelo profeta, que diz: "Abrirei em parábolas a minha boca, publicarei os enigmas dos antigos tempos"(Sl. 77, 2). Mt 13, 35. "Temos ainda a palavra mais firme dos profetas, à qual fazeis bem em prestar atenção, como a lucerna que alumia num lugar escuro, até que venha o dia, e a estrela da manhã nasça em vossos corações, atendendo antes de tudo a isso: que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular. Com efeito, a profecia nunca foi dada pela vontade dos homens, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo" 2 Pedro 1, 19-21.

E pela própria tradição apóstolica, da qual é guardiã a Santa Igreja Católica, a qual indica o significado das passagens, e qual é a conduta de vida, as verdades sobre o universo, sobre as coisas superiores ao homem, a história, o começo e o fim do mundo. Tudo isso é preciso tomar em conta para não sustentar teses contra a fé, moral, costumes, e outras coisas que a Igreja sustenta. No entanto, se um versículo da Escritura tem sentido dado pela Tradição, não está selada toda a interpretação sobre aquele versículo, a não ser que a nova luz sobre a Palavra contradiga o sentido dado anteriormente. Falaremos mais adiante como as profecias falam muitas vezes de vários eventos ao mesmo tempo. 

Regras do nosso método de intepretação das profecias

Compilamos aqui em ordem aleatória um conjunto de regras que fazem parte do nosso método e é usado sem serem mencionadas em vários artigos nossos, por motivos de praticidade.

1. Analisar as profecias em conjunto

S.Agostinho: "Quando se chega a um sentido, cuja certeza não pode ser apoiada por outras passagens seguras das santas Escrituras, resta-nos esclarecê-la por provas racionais, ainda que o autor, cujas palavras procuramos compreender, talvez não tivera essa intenção em seu pensamento. Mas essa prática é perigosa. Com efeito, caminha-se com muito mais segurança ao seguir as divinas Escrituras. Quando elas estão obscurecidas por expressões metafóricas, que intentamos escrutar, é preciso ou fazer uma interpretação que não leve à controvérsia ou bem, se ela se prestar a isso, limitar a explicação a testemunhos reconhecidos e provados, tirados de outras passagens da mesma Escritura" [2].

2. Não tomar as profecias com sentido único, mas também não em sentidos variados que podem se contradizer

A profecia sobre a destruição de Jerusalém de Nosso Senhor é um exemplo disso, dado que ele mistura esta destruição, o calvário, e a segunda vinda, em claro exemplo de que as profecias podem ter diversos planos de interpretação, isto é, para os eventos próximos e os últimos eventos. A razão que não podemos tomar a Escritura com sentidos variados que se contradizem é óbvia: por ela ser a palavra de Deus, ela não é contraditória.

"Nós todos os que o lemos esforçamo-nos por indagar e compreender o pensamento do autor. Quando o temos por verídico, não ousamos imputar-lhe, como dito por ele, nada do que sabemos ouu julgamos ser falso. Contanto que cada um se esforce por interpretar bem as passagens da Sagrada Escritura conforme a idéia daquele que as escreveu, que mal há em interpretá-las em outro sentido, se Vós, ó Luz de todas as mentes sinceras, lho mostrais como verdadeiro ? Que mal há nisso, se o autor que lemos só teve em vista a verdade, apesar de não ter dado ao texto este segundo sentido ?" [3]. "Se alguém encontrar um terceiro e um quarto ou mais sentidos verdadeiros, por que não acreditaremos que todas estas interpretações as viu Moisés, por meio do qual o Único Deus acomodou a Escritura Sagrada à inteligência de muitos que haviam de descobrir nela coisas verdadeiras e diferentes ?" [4].

3. Avaliar o conjunto das opiniões dos Padres, Doutores e Teólogos da Igreja sobre a profecia

Esta regra e a próxima seguem da prática indispensável. Convém notar unicamente que quando a interpretação é nova, é difícil ou não é possível usar esta regra, mas as várias interpretações ajudam sempre a iluminar qualquer interpretação nova no sentido profético, às vezes porque as contradiz e faz o exegeta se revisar, às vezes porque as observações ajudam no plano de interpretação da nova exegese.

4. Avaliar o conjunto das opiniões dos Padres, Doutores e Teólogos da Igreja sobre os sinais do fim dos tempos

5. Não tomar a profecia em separado, mas o conjunto das profecias, no que elas são discordantes e concordantes

Por causa da visão de conjunto que elas dão, uma vez que assim excluem certas interpretações, e reforçam pela unanimidade outras. Também porque separadas, podem estar erradas e a própria novidade dela pode ser suspeita. Além disso, várias podem estar erradas também conforme falamos acima. Acreditamos que S.Pedro tem esta opinião: "nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular" 2 Pedro 1, 19-21.

6. Tentar captar o sentido das harmonias (música)

"A ignorância de certas noções musicais é, em numerosas passagens das Escrituras, barreira e véu", diz S.Agostinho [5]. Ora, tomamos não só as noções de música, mas as harmonias dos Evangelhos, a relação com outras passagens da Escritura que possuem algum sentido misterioso seja por coincidência de lugar ou número ou ação mencionada, e também as profecias que se cumprem tem uma relação com todo o salmo profético ou toda a profecia da qual foi tirada a passagem cumprida (frequente no novo testamento).

7. Tentar captar o simbolismo dos números nas passagens

"A ignorância dos números também impede compreender quantidade de expressões empregadas nas Escrituras sob uma forma figurada e simbólica" [6]. Em seguida o próprio S.Agostinho dá alguns simbolismos para os números, os quais consideramos válidos, e podemos usar de outras interpretações dos números na Escritura oriundos de outros exegetas, santos, ou pessoas com autoridade para podermos entender melhor as passagens. O importante é notar a necessidade de uma ou mais numerologias visando a exegese. 

9. Tentar captar o sentido em que é mencionado uma coisa pela sua natureza

O comentário do Doutor da Igreja aqui citado explica razoavelmente: "A ignorância da natureza das coisas dificulta a interpretação das expressões figuradas, quando estas se referem aos animais, pedras, plantas ou outros seres citados frequentemente nas Escrituras e servindo como objeto de comparações.

Assim, é fato notório que a serpente, para preservar a cabeça, expõe seu corpo todo aos que a espancam. O quanto esse gesto nos esclarece sobre o sentido das palavras do Senhor ao nos mandar ser prudentes como a serpente ! (Mt 10, 16). Isto é, devemos saber apresentar nosso corpo aos que nos perseguem, de preferência a expor nossa cabeça que é Cristo. Assim, não deixar morrer em nós a fé cristã, renegando a Deus, ao poupar o nosso corpo" [7].

10. Procurar os versículos nas diversas traduções e línguas para compreender melhor

"Para combater a ignorância dos signos próprios, o grande remédio é o conhecimento das línguas" [8]. Claro, porque a etimologia aumenta o significado das palavras para nós, dá possibilidade de outras interpretações, etc. As línguas principais são: latim, grego, hebraico.

11. Interpretar segundo a espécie e o gênero

Fala desta regra útil para o nosso trabalho S.Agostinho: "A quarta regra de Ticônio trata sobre a espécie e o gênero. Ele denomina desse modo, na intenção que se entenda por "espécie" a parte, e porá "gênero", o todo, do qual é parte a espécie. Por exemplo, cada cidade é certamente uma parte do conjunto das nações. Ticônio chama, pois a cidade de espécie e o conjunto das nações, de gênero (...).

Há de valer a mesma regra ao se encontrar nas palavra divinas algo parecido, relativo, por exemplo, não somente a uma cidade, mas a cada província, nação ou reino. Assim, não é só a propósito de Jerusalém ou de alguma cidade dos gentios como Tiro, Babilônia ou qualquer outra nomeada nas santas Escrituras, que encontramos uma questão que ultrapassa as suas fronteiras e convenha antes a todas as nações" [9].

12. Tomar cuidado com a interpretação literal

"Deste modo e de outros muitos, sobrevêm vários enganos às almas, em relação às palavras e revelações da parte de Deus, pelo motivo de se prenderem à letra e à forma exterior, porque, como já demos a entender, o principal desígnio de Deus nessas coisas é declarar e comunicar o espírito ali encerrado e, sem dúvida, difícil de entender. Tal espírito é muito mais abundante que a letra, muito extra-ordinário e fora dos limites dela. Assim, o que se prender à expressão literal ou à figura ou à forma aparente da visão não poderá deixar de errar muto, achando-se depois bem confuso e desprovido, por se haver guiado em tal assunto, segundo o sentido (...) " [10].

"Não se deve, pois, acreditar que as palavras e as revelações da parte de Deus sejam sempre infalíveis segundo o sentido literal de sua significação, principalmente quando estiverem essas predições ligadas a causas humanas, sujeitas por sua natureza a se modificarem e alterarem.

Na verdade, só Deus possui o segredo desta dependência que nem sempre é explícita: às vezes, faz revelação, dissimulando as circunstâncias condicionais, como fez com os ninivitas quando lhes anunciou em termos absolutos a destruição da sua cidade após quarenta dias (Jn 3, 4). Outras vezes, declara expressamente a condição, como fez Roboão, dizendo-lhe "Se andares pelos meus caminhos, guardando as minhas ordenações e os meus preceitos, como David meu servo, serei contigo, e te edificarei uma casa que seja estável, bem como a que fiz a meu servo David" (1 Rs 11, 38). Todavia, quer Deus nos declare ou não a condição de suas revelações, jamais devemos ter a segurança quanto à nossa interpretação pessoal, porque não podemos compreender as verdades ocultas sob as palavras de Deus, nem a multiplicidade de sentidos que encerram [11].

13. Aplicar o princípio da máxima beleza

O princípio da máxima beleza, ou somente princípio da beleza, é uma forma de interpretar nossa que tenta alcançar a beleza máxima das acontecimentos previstos biblicamente através da consideração dos cenários mais belos possíveis, tanto do ponto de vista da maior beleza que a partir do acontecimento se vê nas previsões da Escritura, tanto pela maior beleza no próprio acontecimento que exibe uma glória ou vingança da parte de Deus. Os maus acontecimentos previstos podemos ver a medida em que eles são o contrário dos desígnios de Deus, em que eles se opõem ao Corpo Místico de Cristo, a Igreja.

Esse exercício é uma espécie de transcendência, pela qual o homem tenta contemplar os desígnios de Deus para a história, para poder mudá-la, melhorá-la, e precaver as almas quanto aos possíveis erros do futuro. Isso seria um "ens rationis", isto é, um ser ou ente que é concebível, porém não realizável fora do espírito [12]. O prof.Plinio Corrêa de Oliveira usa esta terminologia para aprofundar a idéia de trans-esfera, que nós utilizaremos aqui para deixar claro este nosso princípio.

"Uma pessoa, olhando determinada coisa, pode formar 'em seu espírito uma idéia de como essa coisa seria se fosse de uma excelência que está nos confins do imaginável'" [13]. É claro, os desígnios de Deus, e a ordem estipulada para a história da salvação extrapolam a capacidade imaginativa do homem. Só o próprio Cristo poderia desvendar os segredos relativos aos rumos de seu Corpo Místico, a Igreja, como fez para S.João Evangelista conforme diz o livro do Apocalipse.

Mas este tipo de contemplar permite ao homem estipular a trans-esfera. "O que é esta esfera ? Não é uma esfera nova da realidade, mas algo que o espírito humano concebe como um produto do espírito (...). De maneira que a trans-esfera é um possível em Deus, não criado, porém um possível virtualmente já criado, do qual nós temos certa noção a partir de seres criados ou de obras feitas pelos homens" [14].

É através dessa contemplação que chegamos perto de conhecer a ordem dos acontecimentos futuros mediante hipóteses e o confronto delas, sempre permeado pelas regras de exegese anteriores. "Assim, por detrás e acima da idéia de trans-esfera, para falar numa linguagem teológica mais precisa, existe uma idéia do Corpo Místico de Cristo e das repercussões que nele se produzem, partindo do princípio de que o Corpo Místico de Cristo forma uma só com Nosso Senhor Jesus Cristo, e que abrange todos nós. Desse modo, aquilo que em nós se passa, de algum modo toca nessa realidade concreta, histórica, que é o Corpo Místico de Cristo, a Comunhão dos Santos e Deus Nosso Senhor.

A trans-esfera não se confunde com o Corpo Místico de Cristo, mas é uma concepção, uma "vue de l'esprit" banhada pela graça, e que é o melhor reflexo de Deus para cada um" [15]. Em vários artigos nossos aplicamos este princípio na exegese, coisa que já era feita pelo Dr.Plinio Corrêa.

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Fontes:
[1] A Doutrina Cristã, Ed.Paulus, Livro II, cap.6, 7.
[2] Idem. Cap.28, 39.
[3] Confissões, Ed. Nova Cultural, Livro XII, 18.
[4] Idem. 31.
[5] A Doutrina Cristã, Ed.Paulus, cap.17, 26.
[6] Idem. Cap.17, 25.
[7] Idem. Cap.17, 24.
[8] Idem. Cap.11, 16.
[9] Idem. Cap.34, 47.
[10] S. João da Cruz, "Subida do Monte Carmelo", "Obras Completas", Editora Vozes, Livro II, Cap.XIX, 5.
[11] Idem. Cap.XX, 4 e 5.
[12] Regis Jolivet, Vocabulaire de la Philosophie, Emmanuel Vitte Éditeur, Lyon-Paris, 1946, 2.ed., verbete "être".
[13] A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, 2008, cap.10, no.1
[14] Idem. Cap.10, no.11 
[15] Idem. Cap.10, no.17