Prática indispensável para a interpretação das profecias. Regras de interpretação de S. Agostinho e outros

Profeta de Aleijadinho
S. Agostinho, rogai por nós!
 
Doutrina católica sobre as revelações públicas e particulares (parte útil para a interpretação das mesmas)


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Extraído de: "O Príncipe dos Cruzados (Vol. I, parte I, 3a edição, Cap. I)".

Prática indispensável para a interpretação das profecias


Sempre levar em conta a Tradição Apostólica, os Padres, Doutores e Teólogos da Igreja.

Por causa da falta de análise profunda e trabalhosa, muitos, que consideram fácil uma passagem, acabam caindo em erro. Assim explica S. Agostinho: "Não duvido de que a obscuridade dos Livros santos seja por disposição particular da Providência Divina, para vencer o orgulho do homem pelo esforço e para premunir seu espírito do fastio, que não poucas vezes sobrevém aos que trabalham com demasiada facilidade" [1].

Pelo que diz o Livro Sagrado: "Disse-lhes: A vós é concedido conhecer o mistério do reino de Deus, porém aos que são de fora, tudo se lhes propõe em parábolas, para que, "olhando, olhem e não vejam, ouvindo, ouçam e não entendam, de sorte que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados" S. Marcos IV, 11-12. "Todas estas coisas disse Jesus ao povo em parábolas, e não lhes falava sem parábolas, a fim de que se cumprisse o que estava anunciado pelo profeta, que diz: "Abrirei em parábolas a minha boca, publicarei os enigmas dos antigos tempos"(Sl. 77, 2). S. Mateus XIII, 35. "Temos ainda a palavra mais firme dos profetas, à qual fazeis bem em prestar atenção, como a lucerna que alumia num lugar escuro, até que venha o dia, e a estrela da manhã nasça em vossos corações, atendendo antes de tudo a isso: que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular. Com efeito, a profecia nunca foi dada pela vontade dos homens, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo" II S. Pedro I, 19-21.

E pela própria Tradição Apostólica, da qual é guardiã a Santa Igreja Católica. Esta indica o significado das passagens, a conduta de vida a seguir, as verdades sobre o universo, sobre as coisas superiores ao homem, a história, o começo e o fim do mundo. Tudo isso é preciso tomar em conta para não sustentar teses contra a fé, moral, costumes, ou outras afirmações que a Igreja sustenta. No entanto, se um versículo da Escritura é explicado pela Tradição, não quer dizer que é proibida qualquer outra interpretação sobre aquele versículo, a não ser que contradiga o sentido dado primeiramente. Mais adiante, mostraremos como as profecias falam muitas vezes de vários eventos ao mesmo tempo.

Decorre dessa prática, e da verdadeira piedade, dar preferência, em matéria de profecia, ao espírito católico com odor de santidade, considerado pela Igreja como um mensageiro Divina em seu tempo. Isso evita não só confusões e possíveis erros, mas mantém a noção de que o profeta é alguém todo de Deus. Falaremos disso mais adiante, ao tratarmos dos erros e acertos do grande Padre Vieira.

Regras do nosso método de interpretação das profecias

Compilamos aqui, em ordem aleatória, um conjunto de regras que julgamos as melhores e mais importantes, e que usamos muitas vezes sem mencioná-las ao longo do volume I, por motivos de praticidade. Cremos que valem tanto para profecias particulares, quanto para privadas. Só enfatizamos que o melhor é usar sempre todas as regras.

1. Analisar as profecias em conjunto

S. Agostinho: "Quando se chega a um sentido, cuja certeza não pode ser apoiada por outras passagens seguras das santas Escrituras, resta-nos esclarecê-la por provas racionais, ainda que o autor, cujas palavras procuramos compreender, talvez não tivera essa intenção em seu pensamento. Mas essa prática é perigosa. Com efeito, caminha-se com muito mais segurança ao seguir as divinas Escrituras. Quando elas estão obscurecidas por expressões metafóricas, que intentamos escrutar, é preciso ou fazer uma interpretação que não leve à controvérsia ou bem, se ela se prestar a isso, limitar a explicação a testemunhos reconhecidos e provados, tirados de outras passagens da mesma Escritura" [2].

2. Não considerar que as profecias têm sentido único, mas também não considerar que tenham sentidos variados que podem se contradizer


A profecia sobre a destruição de Jerusalém é um exemplo disso, pois mistura esta destruição, o calvário, e a segunda vinda, ou seja, é um claro exemplo de que as profecias podem ter diversos planos ou dimensões de interpretação, ou seja, podem simbolizar eventos próximos e longínquos. Mas não podemos considerar que a palavra de Deus tem sentidos variados que se contradizem porque a palavra de Deus não é contraditória.

S. Agostinho: "Nós todos os que o lemos esforçamo-nos por indagar e compreender o pensamento do autor. Quando o temos por verídico, não ousamos imputar-lhe, como dito por ele, nada do que sabemos ou julgamos ser falso. Contanto que cada um se esforce por interpretar bem as passagens da Sagrada Escritura conforme a idéia daquele que as escreveu, que mal há em interpretá-las em outro sentido, se Vós, ó Luz de todas as mentes sinceras, lho mostrais como verdadeiro? Que mal há nisso, se o autor que lemos só teve em vista a verdade, apesar de não ter dado ao texto este segundo sentido?" [3]. "Se alguém encontrar um terceiro e um quarto ou mais sentidos verdadeiros, por que não acreditaremos que todas estas interpretações as viu Moisés, por meio do qual o Único Deus acomodou a Escritura Sagrada à inteligência de muitos que haviam de descobrir nela coisas verdadeiras e diferentes?" [4].

3. Avaliar o conjunto das opiniões dos Padres, Doutores e Teólogos da Igreja sobre a profecia

Esta regra e a próxima seguem da prática indispensável. Agora, se a interpretação é nova, será difícil ou impossível usar esta regra, mas as várias interpretações sobre outras profecias sempre ajudam a iluminar qualquer interpretação nova, às vezes porque esta as contradiz, obrigando o exegeta a se retificar, às vezes porque confirmam o método exegético, pois são feitas em plano de interpretação análogo.

4. Avaliar o conjunto das opiniões dos Padres, Doutores e Teólogos da Igreja sobre os sinais do fim dos tempos

5. Não considerar a profecia separadamente, mas o conjunto das profecias, isto é, no que são discordantes e concordantes entre si

Por causa da visão de conjunto que excluem certas interpretações e, pela unanimidade, reforçam outras. Assim, se interpretações forem dadas a uma profecia tomada separadamente, essas poderão estar erradas, bem como suas novidades. Além disso, conforme dito no número 3, pode haver contradição. Cremos que isso disse S. Pedro em II S. Pedro I, 19-21"nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular".

6. Tentar captar o sentido das harmonias (música)

"A ignorância de certas noções musicais é, em numerosas passagens das Escrituras, barreira e véu", diz S. Agostinho [5]. Assim, tomamos não só as noções de música, mas as harmonias dos Evangelhos, isto é, a relação com outras passagens da Escritura que têm algum sentido misterioso, seja por coincidência de lugar, número ou ação mencionada. As profecias, ao serem cumpridas, também mantêm paralelo com todo Salmo profético (como no caso do Salmo rezado por Nosso Senhor na cruz) ou todo contexto do livro Sagrado, com o qual se liga o cumprimento da profecia analisada, por diversas razões.

7. Tentar captar o simbolismo dos números nas passagens

"A ignorância dos números também impede compreender quantidade de expressões empregadas nas Escrituras sob uma forma figurada e simbólica" [6]. Em seguida, o próprio S. Agostinho mostra alguns simbolismos dos números, os quais consideramos válidos. Também pensamos poder usar outras interpretações dos números na Escritura vindas de outros exegetas, santos, ou pessoas com autoridade para podermos entender melhor as passagens analisadas. O importante é notar a necessidade de uma ou mais "numerologias" visando a exegese.

8. Tentar captar a noção de prefiguras, tal como os santos profetas faziam

Em sua I Epístola, S. João diz: "todo espírito que divide Jesus, não é de Deus, mas é o Anticristo, de cuja vinda tendes ouvido, e já está agora no mundo. [et omnis spiritus qui solvit Jesum, ex Deo non est, et hic est antichristus, de quo audistis quoniam venit, et nunc jam in mundo est.]" (IV, 3). Obviamente, o anti-Cristo não estava no mundo naquele tempo, mas só em prefigura, isto é, os então perseguidores da Igreja.

Nosso Senhor Jesus Cristo, homem-Deus, também fez uso de prefiguras, quando falava de S. João Batista como prefigura de S. Elias: "Elias certamente há de vir e restabelecerá todas as coisas. Digo-vos, porém, que Elias já veio e não o reconheceram, antes fizeram dele o que quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer às suas mãos. Então os discípulos compreenderam que lhes tinha falado de João Batista", S. Mateus XVII, 11-13.

9. Tentar captar o sentido em que é mencionado uma coisa pela sua natureza

Explica o já citado Santo Doutor da Igreja: "A ignorância da natureza das coisas dificulta a interpretação das expressões figuradas, quando estas se referem aos animais, pedras, plantas ou outros seres citados frequentemente nas Escrituras e servindo como objeto de comparações.

Assim, é fato notório que a serpente, para preservar a cabeça, expõe seu corpo todo aos que a espancam. O quanto esse gesto nos esclarece sobre o sentido das palavras do Senhor ao nos mandar ser prudentes como a serpente! (S. Mateus X, 16). Isto é, devemos saber apresentar nosso corpo aos que nos perseguem, de preferência a expor nossa cabeça que é Cristo. Assim, não deixar morrer em nós a fé cristã, renegando a Deus, ao poupar o nosso corpo" [7].

10. Conferir os versículos nas diversas traduções e línguas para melhor compreensão

"Para combater a ignorância dos signos próprios, o grande remédio é o conhecimento das línguas" [8]. Claro, pois uma noção etimológica amplia o significado das palavras, abre possibilidade a outras interpretações, etc. As línguas bíblicas principais são: latim, grego, hebraico.

11. Interpretar segundo a espécie e o gênero

Fala dessa regra, útil para este trabalho, S. Agostinho: "A quarta regra de Ticônio trata sobre a espécie e o gênero. Ele denomina desse modo na intenção que se entenda por "espécie" a parte, e porá "gênero", o todo, do qual é parte a espécie. Por exemplo, cada cidade é certamente uma parte do conjunto das nações. Ticônio chama, pois, a cidade de espécie e o conjunto das nações, de gênero (...).

Há de valer a mesma regra ao se encontrar nas palavras divinas algo parecido, relativo, por exemplo, não somente a uma cidade, mas a cada província, nação ou reino. Assim, não é só a propósito de Jerusalém ou de alguma cidade dos gentios como Tiro, Babilônia ou qualquer outra nomeada nas santas Escrituras, que encontramos uma questão que ultrapassa as suas fronteiras e convenha antes a todas as nações" [9].

12. Tomar cuidado com a interpretação literal

S. João da Cruz, tratando de outros temas, explica: "Deste modo e de outros muitos, sobrevêm vários enganos às almas, em relação às palavras e revelações da parte de Deus, pelo motivo de se prenderem à letra e à forma exterior, porque, como já demos a entender, o principal desígnio de Deus nessas coisas é declarar e comunicar o espírito ali encerrado e, sem dúvida, difícil de entender. Tal espírito é muito mais abundante que a letra, muito extraordinário e fora dos limites dela. Assim, o que se prender à expressão literal ou à figura ou à forma aparente da visão não poderá deixar de errar muito, achando-se depois bem confuso e desprovido, por se haver guiado em tal assunto, segundo o sentido (...)" [10].

"Não se deve, pois, acreditar que as palavras e as revelações da parte de Deus sejam sempre infalíveis segundo o sentido literal de sua significação, principalmente quando estiverem essas predições ligadas a causas humanas, sujeitas por sua natureza a se modificarem e alterarem.

Na verdade, só Deus possui o segredo desta dependência que nem sempre é explícita: às vezes, faz revelação, dissimulando as circunstâncias condicionais, como fez com os ninivitas quando lhes anunciou em termos absolutos a destruição da sua cidade após quarenta dias (Jn 3, 4). Outras vezes, declara expressamente a condição, como fez Roboão, dizendo-lhe "Se andares pelos meus caminhos, guardando as minhas ordenações e os meus preceitos, como David meu servo, serei contigo, e te edificarei uma casa que seja estável, bem como a que fiz a meu servo David" (1 Rs 11, 38). Todavia, quer Deus nos declare ou não a condição de suas revelações, jamais devemos ter a segurança quanto à nossa interpretação pessoal, porque não podemos compreender as verdades ocultas sob as palavras de Deus, nem a multiplicidade de sentidos que encerram" [11].

13. Aplicar o princípio da máxima beleza

O princípio da máxima beleza, ou somente princípio da beleza, é um método de interpretar nosso que visa pensar na beleza máxima dos acontecimentos previstos biblicamente através da consideração dos cenários mais belos possíveis, tanto do ponto de vista da maior beleza na letra Sagrada analisada, quanto pela maior beleza nessa mesma letra Sagrada, enquanto esta exibe uma faceta perfeita de Deus.

Esse exercício é uma espécie de transcendência, pela qual o homem tenta contemplar os desígnios de Deus para a história, para poder mudá-la, melhorá-la, e precaver as almas quanto aos possíveis erros do futuro. Isso seria um "ens rationis", isto é, um ser ou ente que é concebível, porém não realizável fora do espírito [12]. O prof. Plinio Corrêa de Oliveira usa esta terminologia para aprofundar a idéia de trans-esfera, que utilizaremos aqui para deixar claro o nosso princípio.

"Uma pessoa olhando determinada coisa, pode formar 'em seu espírito uma idéia de como essa coisa seria se fosse de uma excelência que está nos confins do imaginável'" [13]. É claro, os desígnios de Deus e a ordem estipulada para a história da salvação extrapolam a capacidade imaginativa do homem. Só o próprio Cristo pode desvendar os segredos relativos aos rumos de Seu Corpo Místico, a Igreja, como fez para S. João Evangelista, conforme diz o livro do Apocalipse.

Mas esse tipo de contemplação permite ao homem estipular a trans-esfera. "O que é esta esfera? Não é uma esfera nova da realidade, mas algo que o espírito humano concebe como um produto do espírito (...). De maneira que a trans-esfera é um possível em Deus, não criado, porém um possível virtualmente já criado, do qual nós temos certa noção a partir de seres criados ou de obras feitas pelos homens" [14].

É através dessa contemplação que visamos chegar perto de conhecer a ordem dos acontecimentos futuros mediante hipóteses e o confronto destas, sempre norteados pelas regras de exegese anteriores. "Assim, por detrás e acima da idéia de trans-esfera, para falar numa linguagem teológica mais precisa, existe uma idéia do Corpo Místico de Cristo e das repercussões que nele se produzem, partindo do princípio de que o Corpo Místico de Cristo forma uma só com Nosso Senhor Jesus Cristo, e que abrange todos nós. Desse modo, aquilo que em nós se passa, de algum modo toca nessa realidade concreta, histórica, que é o Corpo Místico de Cristo, a Comunhão dos Santos e Deus Nosso Senhor.

A trans-esfera não se confunde com o Corpo Místico de Cristo, mas é uma concepção, uma "vue de l'esprit" banhada pela graça, e que é o melhor reflexo de Deus para cada um" [15]. Em vários artigos nossos aplicamos esse princípio na exegese, coisa que nos parece que já era feita pelo Prof. Plinio.

O ministério profético dentro da Igreja após o tempo dos apóstolos não acabou

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[1] A Doutrina Cristã, Ed.Paulus, Livro II, cap.6, 7.
[2] Idem. Cap.28, 39.
[3] Confissões, Ed. Nova Cultural, Livro XII, 18.
[4] Idem. 31.
[5] A Doutrina Cristã, Ed.Paulus, cap.17, 26.
[6] Idem. Cap.17, 25.
[7] Idem. Cap.17, 24.
[8] Idem. Cap.11, 16.
[9] Idem. Cap.34, 47.
[10] S. João da Cruz, "Subida do Monte Carmelo", "Obras Completas", Editora Vozes, Livro II, Cap.XIX, 5.
[11] Idem. Cap.XX, 4 e 5.
[12] Regis Jolivet, Vocabulaire de la Philosophie, Emmanuel Vitte Éditeur, Lyon-Paris, 1946, 2.ed., verbete "être".
[13] A Inocência Primeva e a Contemplação Sacral do Universo, 2008, cap.10, no.1
[14] Idem. Cap.10, no.11 
[15] Idem. Cap.10, no.17