A Escritura, os Papas e os Santos falaram contra a cremação dos mortos ? Razões para evitá-la

Tobias e o Arcanjo Rafael
Resumo:

"A cremação não é boa nem má, podendo mesmo ser utilizada como necessidade em casos de peste, de catástrofes, nas quais a corrupção lenta de um grande número de cadáveres pode ser perigosa para a saúde (exalações pestilenciais, contágio, etc.)" [1]. Apesar de não ser intrinsecamente má, a prática deve ser repudiada pelos fiéis católicos fora dos casos acima, assim como a Igreja a repudiou durante séculos, porque mesmo se os motivos dados não forem contra a doutrina, vão contra o costume antigo, e também pode favorecer um mau hábito na região. 


1 - A Escritura a coloca como uma prática pagã, enquanto a inumação (enterro em um túmulo) está baseada na crença da ressurreição

Hábito pagão:

"Isto diz o Senhor: Depois das maldades que Moab cometeu três e quatro vezes, eu não mudarei o meu decreto, pois que queimou os ossos do rei da Iduméia até os reduzir a cinza" Am 2, 1.

"Não farás assim com o Senhor, teu Deus. Porque elas dizeram pelos seus deuses todas as abominações, que o Senhor aborrece, oferecendo-lhes seus filhos e filhas, e queimando-os no fogo" Dt 12, 31.

"Edificaram os (altares ou) altos de Tofete, que está no vale do filho de Enom, para queimarem no fogo os seus filhos e as suas filhas; o que nunca ordenei, nem me passou pela mente" Jr 7, 31.

Considerado castigo:

"Mas, três meses depois, foi dito a Judá: Tamar, tua nora, fornicou, e vê-se que está grávida. Então, disse Judá: Tirai-a para fora para ser queimada" Gn 38, 24.

"Aquele que toma por mulheres a filha e a mãe, cometeu um crime, será queimado vivo com elas" Lv 20, 14.

"Se a filha de um sacerdote for apanhada em estupro, e desonrar o nome de seu pai, será queimada no fogo" Lv 21, 9.

"Matou todos os sacerdotes dos lugares altos que neles estavam encarregados dos altares, queimou sobre estes altares ossos humanos, e voltou para Jerusalém" 2 Re 23, 20.

O costume era sepultar:

Foram sepultados: Abraão (Gn 25, 8-10), Sara (Gn 23, 1-4), Raquel (Gn 35, 19-20), Isaac (Gn 35, 29), Jacó (Gn 49, 33; 50, 1-13), José (Gn 50, 26), Josué (Js 24, 29-30), Eleazar (Js 24, 33), Samuel (I Sam 25, 1), Davi (I Reis 2, 10, At 2, 29), S.João Batista (Mt 14, 10-12), Ananias e Safira (Atos 5, 5-10), Estevão (Atos 8, 2), Lázaro antes de ser ressuscitado (Jo 11, 17), além do próprio Cristo e Nosso Senhor (Lc 23, 53).

O sepultamento está ligado aos mistérios cristãos:

"tendo sido sepultados com ele no batismo, no qual vós também ressuscitastes mediante a fé na ação de Deus, que o ressuscitou dos mortos" Cl 2, 12.

Diz o Pe. António Leite S. J: "Os cristãos, logo desde o início, só admitiram a inumação. Aduziram-se várias razões: a imitação da sepultura de Jesus, o respeito pelos corpos dos mortos, e sobretudo porque a morte era considerada um simples sono, à espera do dia da ressurreição. Por este último motivo, os cristãos substituíram o nome pagão necrópole (cidade dos mortos) pelo de cemitério (dormitório) (Mt. 27:52)" [2].

2 - O Código de Direito Canônico de 1917, e outros decretos antigos a proibia

Continua o Padre: "Só com a Revolução Francesa se haveria de tentar reintroduzir a cremação com o desígnio de destruir no povo a crença na imortalidade. Com este fim declarado, foi apresentado ao Conselho dos Quinhentos, a 11 de Novembro de 1796, um projecto de lei a favor da cremação, mas que não teve seguimento. A ideia só viria de novo a ser defendida um século depois, pelo mesmo motivo anti-religioso, ainda que geralmente se apresentassem outros argumentos, como os higiénicos e os da falta de espaço nos cemitérios públicos, etc. Dado o carácter anti-religioso dessa campanha, iniciada em Itália, em 1869, o Santo Ofício, por decreto de 19 de Maio de 1886, proibiu aos católicos a cremação, sob pena de lhes ser negada a sepultura eclesiástica" [3]. 

"As determinações proibitivas da Igreja datam já do III Concílio de Toledo (589 d. C.) e do Decreto de Graciano, parte 3ª cap. I: “De sepultura”. Quando o Santo Ofício publicou, em 1892, as instruções já referidas, tinha em vista sobretudo condenar a prática, inspirada num sectarismo inimigo dos costumes cristãos e das tradições eclesiásticas, que se propunha substituir a inumação pela incineração, em sinal de evidente negação dos dogmas cristãos, especialmente o da ressurreição dos mortos e o da imortalidade da alma" [4].

A legislação canônica sobre a incineração constava do Código de Direito Canónico de 1917, nos cânones 1203, 1240 e 2339, negando a sepultura eclesiástica a quem tivesse ordenado a cremação do próprio cadáver, isto é, punia negando a Exéquia, ou seja a Encomendação do corpo, e a celebração das Missas de corpo presente, de sétimo e trigésimo dia àqueles que postulassem a cremação de seu cadáver. Declarava não expressas todas as disposições testamentárias ou contratuais nesse sentido e proibia toda a cooperação formal nos actos de incineração. 

Estas disposições canónicas foram mitigadas por uma instrução do Santo Ofício de 8 de Maio de 1963 [5], ao mesmo tempo que se reafirmava e determinava que se devia cuidar diligentemente de manter com firmeza o costume de inumar os cadáveres dos cristãos.

O novo Código de Direito Canônico diz: "A Igreja aconselha vivamente que se conserve o piedoso costume de sepultar o cadáver dos defuntos; sem embargo, não proíbe a cremação, a não ser que haja sido eleita por razões contrárias à doutrina cristã" [6]. Fica ambíguo o sentido do cânon, tendo em vista que uma pessoa pode querer a cremação por motivos não contrários à doutrina cristã, mas o próprio ato acaba indo contra o costume antigo da Igreja, e também pode favorecer um mau hábito na região, se, por exemplo, muitos ali fazem visando negar o dogma da ressurreição. Então, indiretamente, razões fora dos casos de necessidade citados no começo, acabam por prejudicarem a doutrina.

3 - Santo Agostinho dá razões contra pela piedade cristã

"De acordo com o testemunho do anjo, Tobias atrai sobre si as bênçãos de Deus devido a seu cuidado para com os mortos. O próprio Nosso Senhor, que ressuscitará no terceiro dia, divulga a boa ação da santa mulher que lhe unge com precioso perfume, como que para sepultá-lo antecipadamente. Também o Evangelho recorda com louvores aqueles que receberam piedosamente o Corpo, à descida da cruz, cobrindo-o com o sudário e depositando-o no sepulcro.

De forma alguma, tais exemplos não provam que os cadáveres conservam algum tipo de sensibilidade. Mas provam que a Providência de Deus vela os despojos dos falecidos e esses deveres de piedade lhe são agradáveis, por demonstrarem a fé na ressurreição" [7].

"Portanto, é certo que se tenha pelo corpo do próximo o cuidado que ele próprio não pode mais se dar por ter deixado esta vida. E, já que esse cuidado é tido até mesmo por aqueles que negam a ressurreição da carne, nada mais justo que aqueles que crêem [na ressurreição] o façam ainda com maior solicitude. Assim, que o cuidado tributado a esse corpo sem vida - mas que haverá de ressuscitar e permanecer por toda a eternidade - se constitua no testemunho claro dessa mesma fé" [8].

Adiciona o Pe.Bigotte, já referido: "A crueldade da incineração opõe-se à piedade e ao sentimento cristãos. O corpo do homem merece mais respeito do que qualquer outra coisa, por sua estreita união com a alma, que é imortal. Estes sentimentos melhor se compreendem na inumação, do que na cremação. É inato no homem o sentimento de não destruir violentamente as coisas. E quando se contempla o espectáculo da incineração há um sentimento de horror. Dizia um académico: quem manda incinerar-se, veja primeiro a cremação dos outros" [9].

4 - A história da cremação sempre esteve ligada à negação do dogma da ressurreição dos mortos

Diz o conhecido historiador Oliveira Marques (1933-2007), grão-mestre do Grande Oriente Lusitano: "Entre os maçons portugueses, contaram-se, pelo menos desde começos do século XX, estrénuos defensores da cremação de cadáveres (...). O primeiro forno crematório existente em Portugal deveu-se à iniciativa da Maçonaria. Construído no cemitério do Alto de São João, em Lisboa. Foi inaugurado em 1924" [10].

Falavam os primeiros historiadores da Igreja: Tertuliano, no século III, qualificava de "atrocíssimo" o costume de queimar os cadáveres [11]. No princípio do século IV, escrevia Eusébio de Cesaréia: "Os gentios desafogam com frequência a ferocidade contra os cristãos reduzindo a cinzas os seus cadáveres, como se por este meio pudessem despojá-los da gloriosa ressurreição que esperavam; mas os cristãos respondem que a onipotência de Deus os ressuscitará com glória" [12].

5 - Povos antigos praticavam a inumação, podemos dizer, pela mesma esperança da ressurreição, que está na raiz dos povos vindos de Noé

A inumação era praticada outrora por cananeus, fenícios, cartagineses, medos e persas; os babilónios embalsamavam os corpos; os caldeus praticavam a inumação; os egípcios embalsamavam-nos ou enterravam-nos simplesmente, conservando-se ainda hoje múmias de 4000 anos ou mais. Na Grécia e em Roma praticou-se inicialmente a inumação. Parece ser que a cremação de cadáveres se introduziu em Roma tardiamente por influência dos povos orientais. Com efeito, a cremação terá tido a sua origem na Índia, onde ainda hoje se pratica entre os hindus.

6 - Motivos racionais vão contra a prática

Primeiro, o poder de encontrar registros de sepulturas, o que facilita a pesquisa histórica. Segundo, o hábito da cremação favorece um cemitério menos humano, por causa da possibilidade de com isso não fazer túmulos mas urnas pequenas, fazendo parecer um depósito de restos qualquer, dando um sentido de que o que passou é descartável o que favorece uma mentalidade materialista, etc. Terceiro, não faz sentido querer ser cremado pelo medo de ser enterrado vivo por algum erro médico, quando se pode ser cremado vivo da mesma forma.

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Fontes:
[1] Cônego José Luiz Villac, em artigo na Revista Catolicismo de Fevereiro de 1998
[2] Enciclopédia Verbo, Entrada: cremação
[3] Idem 
[4] Revista Lumen, Lisboa, 1966, artigo do Revdo. Padre José Quelhas Bigotte
[5] A.A.S. 24/10/64
[6] CDC, cânon 1176, par. 3
[7] Do Cuidado devido aos Mortos, Cap. III
[8] Idem, Cap. XVIII
[9] Op.cit
[10] A.H.Oliveira Marques, Dicionário da Maçonaria Portuguesa, Vol. I, págs. 438-439
[11] Tertulianus, De anima, cap. 51 LII pag 737
[12] Eusebius, Historia Eclesiástica, 15 cap. I p. 20 e 407