Nossa Senhora dos Prazeres, a primeira pessoa que Jesus Cristo ressuscitado apareceu. Provas pela Escritura, Santos e tradições litúrgicas

Do livro "O Príncipe dos Cruzados (Vol. I, parte I, 3a edição, Cap. III)".

Maria, a Mãe de Jesus, ou no seu título próprio, 
Nossa Senhora dos Prazeres, foi a primeira pessoa a quem Jesus Cristo ressuscitado apareceu.

Provaremos através de uma interpretação das Sagradas Escrituras e, em seguida, pelas autoridades da Tradição.

Sagrada Escritura

Interpretaremos aqui cronologicamente os quatro evangelhos.

"Passado o sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana" (Mt 28), nos primeiros despontar dos raios de sol, "muito cedo" (Lc 24), de modo que era "ainda escuro" (Jo 20).

Tendo as mulheres, "que tinham ido da Galiléia com Jesus, indo atrás de José [de Arimatéia], observaram o sepulcro e de que modo o corpo de Jesus fora nele depositado" (Lc 23). Em seguida, voltaram, "prepararam aromas e bálsamos" (Lc 23). Eram as que estavam na cruz junto de Jesus, "sua Mãe, a irmã de sua Mãe, Maria, mulher de Cleófas e Maria Madalena" (Jo 19), "e Salomé, as quais já o seguiam e serviam quando ele estava na Galiléia, e muitas outras, que, juntamente com ele, tinham subido a Jerusalém" (Mc 15).

Então, "Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para irem embalsamar Jesus" (Mc 16). Compraram e preparam, porque algumas podem ter comprado, outras preparado, ou ainda podem ter comprado e achado que não era o suficiente, preparando algo, para que oferecessem o melhor para o Salvador.

Agora o Evangelista diz: "foi Maria Madalena e a outra Maria visitar o sepulcro" (Mt 28). Ora, por que não foram citadas as outras? Porque já estavam inclusas no contexto, e por causa do seguinte sentido místico: a outra Maria, não identificada, pode ser Maria, mãe de Tiago menor ou, como alguns dizem, Maria de Betânia, irmã de Marta, ou Maria, mãe de Jesus Cristo, ou até mesmo uma outra Maria que estava entre as mulheres. No entanto, não pode ser Nossa Senhora, porque o Livro Sagrado trata essa outra pessoa com menor importância dentre as duas, e é assim pelos seguintes motivos: Nosso Senhor apareceu especificamente e privadamente para Maria Madalena, e a "outra Maria" representava as outras Marias ali que, embora não tenham sido referidas no plural, estavam junto. Assim, Maria Madalena merecia ser mencionada primeiro e nominalmente. Também corrobora o fato do Evangelho tratar de "a outra", ou seja, não fazia diferença qual era, e elas, designadas por "outra", mereciam esse tratamento menos importante, pelo menos naquele momento, por não terem testemunhado as palavras do anjo no caminho, como veremos mais para frente. Não pode ser Nossa Senhora por causa de sua importância, na qual não cabe ser tratada como "a outra". Ademais, ela não é mencionada primeiro, como no caso dos momentos finais de Nosso Senhor na Cruz, narrado por São João. Aqui entra também a conveniência da ordem: nela não pode ter sido "assaltado o temor e o pavor" de modo a não dizer "nada a ninguém pelo caminho" (Mc 16). Assim, é conveniente ela não ser mencionada.

No mesmo raciocínio também é respondida a pergunta: "Por que a Virgem Maria não é mencionada nenhuma vez entre as testemunhas da ressurreição?". Quando as mulheres anunciaram aos apóstolos a mensagem do anjo sobre a ressurreição, "estas palavras pareciam-lhes como que um delírio. Não lhes deram crédito" (Lc 24). O crédito que a Virgem Mãe de Deus tinha era enorme, portanto, é muito improvável que ela não tenha recebido crédito ao falar. Por isso, ela não é mencionada, talvez porque não disse nada mesmo, ou porque, não podendo discordar de Nossa Senhora, os apóstolos limitaram-se a desacreditar só as outras mulheres.

Maria Santíssima mantinha a fé das mulheres, dizia que o Filho dEla estava ressuscitado, mas não repreendia os aromas que elas traziam para embalsamar o Corpo Dele, por considerar aquilo um ato de piedade, mesmo sabendo que nenhum aroma era melhor do que o de Cristo ressuscitado. Apesar de garantidas por Nossa Senhora que encontrariam Nosso Senhor, "diziam entre si: Quem nos há de revolver a pedra da boca do sepulcro?" (Mc 16). Eis mais um motivo pelo qual Nossa Senhora não é mencionada entre as mulheres: ela já sabia como se daria, e não podia estar entre as mulheres que se perguntavam.

"Eis que se deu um grande terremoto. Porque um anjo do Senhor desceu do céu, e, aproximando-se, revolveu a pedra e sentou-se sobre ela. O seu aspecto era como um relâmpago. A sua veste branca como a neve. Pelo temor dele, aterraram-se os guardas e ficaram como mortos" (Mt 28).

Este anjo mais provavelmente era o Arcanjo S. Miguel, por ter vindo em grande força, por ter removido o obstáculo para que a glória de Deus aparecesse, por ter aterrorizado os guardas, que eram militares, mas não da milícia celeste como S. Miguel. É este Arcanjo que abre o caminho para que os outros vejam a ressurreição, como também se fará no fim do mundo, quando jogará Satanás, novamente, e o anti-Cristo no inferno, abrindo caminho para a ressurreição geral.

O Evangelho diz que, logo ao saírem as mulheres para o sepulcro, "eis que se deu um grande terremoto" (Mt 28), porque foi logo em seguida à saída das mulheres, e não quando estavam de frente ao sepulcro, pois ao chegarem lá "encontram revolvida a pedra do sepulcro" (Lc 24 e Mc 16), "a qual era muito grande" (Mc 16)Talvez o terremoto na saída as tenha tranquilizado sobre como conseguiriam encontrar o Corpo do Senhor, conforme Nossa Senhora dizia.

Ora, Maria Madalena "viu a pedra tirada do sepulcro. Correu, pois, foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo, a quem Jesus amava, e disse-lhes: Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram" (Jo 20). Não sabia, porque não tinha ouvido o anjo dentro do sepulcro, visto que nem ela, nem as outras mulheres (exceto Nossa Senhora) reconheceram o anjo sentado na pedra. Maria Madalena, ao ver a pedra removida, sem entrar no sepulcro, foi precipitadamente contar aos discípulos que "levaram o Senhor", embora o tenha feito por zelo, e Nossa Senhora, sabendo disso, deixou-a ir.

As mulheres, "entrando, não encontraram o corpo do Senhor Jesus. Aconteceu que, estando consternadas por isso, eis que apareceram junto delas dois homens com vestidos resplandecentes" (Lc 24), mas só "viram um jovem sentado do lado direito, vestido de uma túnica branca, e ficaram assustadas" (Mc 16), e "estando elas medrosas e com os olhos no chão" (Lc 24), talvez porque acharam que eles O tinham levado, pois tinham uma aparência "como um relâmpago" (Mt 28), assustando quem os encontrasse. Aqui temos mais um motivo para a não citação da Virgem Santíssima, pois sua fé inabalável não a deixava aflita por essas coisas. 

S. Marcos diz que elas viram o jovem sentado do lado direito. Isso porque não o reconheceram como anjo, se assustaram, e não se inclinaram, portanto só viram o anjo do lado direito, isto é, aquele que estava onde ficava os pés de Nosso Senhor no sepulcro. Já Maria Madalena, quando voltou, "inclinou-se e olhou para o sepulcro" (Jo 20), e por isso "viu dois anjos vestidos de branco, sentados no lugar onde fora posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés" (Jo 20).

Então "disseram-lhes:" (Lc 24), e os que disseram eram os dois anjos, embora S. Mateus diga que foi aquele que removeu a pedra, e S. Marcos, aquele que estava sentado do lado direito do sepulcro. Esses Evangelistas colocam assim para que, na harmonia dos textos, saibamos quais eram os dois. No entanto, elas ouviram como se fosse de um só, porque ambos tinham a voz com caráter angélico idêntico (embora não se possa se dizer absolutamente igual): disso também compreende-se o espanto das mulheres. Também é S. Marcos, sempre focado no lado mais palpável ou sensível do Evangelho, que fala do anjo que elas viram (túnica branca, etc) e ouviram, por isso S. Marcos coloca o medo delas em foco: "não disseram nada a ninguém pelo caminho, tal era o medo que tinham" (Mc 16). Já S. Mateus diz "foram correndo dar a nova aos discípulos" (Mt 28), porque esse se foca no que não foi visto, mas ouvido, isto é, o testemunho daquele anjo, crido com fé. Eis o sentido místico da ordem desses versículos, conforme acreditamos.

Então disseram-lhes: "Vós não temais" (Mt 28 e Mc 16), "buscais a Jesus Nazareno que foi crucificado" (Mt 28 e Mc 16). "Por que buscais entre os mortos o que está vivo?" (Lc 24). "Ele não está aqui, ressuscitou" (Lc 24), "como tinha dito" (Mt 28): "Lembrai-vos do que ele vos disse, quando estava na Galiléia: Importa que o Filho do homem seja entregue nas mãos dos homens pecadores, seja crucificado, ressuscite ao terceiro dia" (Lc 24). "Vinde e vede o lugar, onde o Senhor esteve depositado" (Mt 28 e Mc 16). "Mas ide, dizei a seus discípulos" (Mt 28 e Mc 16) "e a Pedro" (Mc 16), "que ele ressuscitou" (Mt 28), "que ele vai adiante de vós para a Galiléia" (Mt 28 e Mc 16), "lá o vereis, como ele vos disse" (Mc 16). "Eis que eu vo-lo disse antes" (Mt 28). A Virgem Maria não deveria estar inclusa nesse citado grupo de mulheres que precisavam ouvir isto como consolo, porque ela já sabia, embora tenha ouvido, por estar junto do grupo. Eis mais um motivo para a falta de menção ao seu nome.

Acreditamos que Nossa Senhora não precisou entrar no sepulcro para confirmar a ausência do Corpo do Senhor lá, pelas seguintes razões: 1- A menção às mulheres aflitas e medrosas ao ouvir o anjo lá dentro. Maria Santíssima, por ser quem é, não poderia ser uma dessas. 2 - A piedade angélica do anjo sentado na pedra: vendo Aquela que é a Rainha dos anjos, sua superiora, esse anjo não poderia deixar de fazer uma genuflexão perto dEla, por isso, ela deveria estar atrás das mulheres mais próximas do sepulcro, uma vez que sabia que haveria confusão na genuflexão do Anjo (Adendo da 3a edição: além disso, é razoável crer que o conhecimento de seu primado, aliado à sua humildade profunda, fez com que se mantivesse distante, não permitindo que isso se desse). 3 - Ela estava por último porque era queria confirmar os outros na fé, portanto, era quem estava "empurrando" as outras ao local do sepulcro. 4 - A fé inabalável de Nossa Senhora não precisava ouvir aquelas palavras dos anjos no sepulcro, porque, por ser quem é, já sabia destas coisas e acreditava.

Cremos também que foi ali, na entrada do local do sepulcro, que Nosso Senhor apareceu ressuscitado para Nossa Senhora, no momento em que o anjo removedor da pedra, o Arcanjo S. Miguel, lhe fez uma genuflexão, e assim apareceram os patriarcas, profetas e todos os santos de outrora, mais os outros dois anjos que estavam ali (provavelmente eram S. Gabriel na direita e S. Rafael na outra ponta, vindos por bilocação), o querubim com a espada de fogo que guarda a entrada do paraíso, outros possíveis anjos, e todos ajoelharam-se diante dEla, e Nosso Senhor só ficou de pé, e a Virgem Santíssima ajoelhou-se diante Dele, adorou-O. Nosso Senhor a levantou e trocaram um olhar indescritível, e nesse momento a Mãe de Deus já estava com "grande gáudio" (Mt 28), querendo anunciar isto às mulheres e aos apóstolos, e ficou em uma espécie de impasse, porque diante dela estava Deus, mais importante, e logo ali as mulheres que Nossa Senhora queria consolar. Sabendo disso, Nosso Senhor desapareceu, e Maria Santíssima entrou no sepulcro, na hora em que acaba o anúncio dos anjos.

"Saíram logo do sepulcro com medo e grande gáudio e foram correndo dar a nova aos discípulos" (Mt 28). O "grande gáudio" era o de Maria Santíssima, que tinha mais motivos para afirmar a ressurreição do Senhor, e o "medo" era das mulheres, por isso a distinção do Evangelista. A "nova" aqui também tem vários sentidos, dependendo de qual mulher falamos.

Mas, por causa do medo, e por não terem visto o que a Virgem Maria viu, "fugiram; porque as tinha assaltado o temor e o pavor, e não disseram nada a ninguém pelo caminho, tal era o medo que tinham" (Mc 16). Ora, para quem não falaram nada? Para S. Pedro que corria ao sepulcro, citado nominalmente, e a S. João, que "corria mais do que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro" (Jo 20), e a Maria Madalena, que vinha atrás. Por isso S. Marcos cita que não disseram nada a ninguém pelo caminho, quando deveriam ter dito.

Como as mulheres fugiam e, em sentido inverso, corriam os dois apóstolos, o encontro entre ambos foi rápido, ou pelo menos o foi o encontro visual. Provavelmente Nossa Senhora estava mais para trás, porque as mulheres "fugiram" (Mc 16), no sentido de que fugiram também de Nossa Senhora. É mais provável que as mulheres viram os apóstolos, e os apóstolos, vendo-as correr, acharam melhor ir direto ao sepulcro porque lá acontecia algo de perigoso ou urgente. Eles, vendo a Mãe de Deus, não pararam também, porque ela provavelmente estava indo atrás das mulheres, tentando acalmá-las, e com isso provavelmente entenderam a urgência de ir direto ao sepulcro. 

No momento em que ambos se cruzaram, e esse entendimento se deu, e as mulheres não cumpriram o pedido do anjo, e Nossa Senhora não pôde dizer aos apóstolos por estar ali tentando acalmar as mulheres. Portanto, há um sentido místico nisso tudo: Maria Santíssima esgota suas forças para alcançar a ressurreição (representado pela aparição de Cristo) aos homens (representado pelas mulheres), do mesmo modo em que se esgotará todo conhecimento que se tem sobre ela no fim dos tempos e então, virá a ressurreição. Assim, nesse momento, "eis que Jesus lhe saiu ao encontro, dizendo: Deus vos salve. Elas aproximaram-se, abraçaram os seus pés e prostraram-se diante dele. Então disse-lhes Jesus: Não temais; ide, avisai meus irmãos, para que vão à Galiléia, lá me verão" (Mt 28). "Então lembraram-se elas das suas palavras" (Lc 24).

Enquanto isso, S. Pedro e S. João examinavam o sepulcro, tendo Maria Madalena chegado um pouco atrás deles. Mas não viram ninguém, nem os anjos, nem Nosso Senhor "Com efeito, ainda não entendiam a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos. Voltaram, pois, outra vez os discípulos para sua casa" (Jo 20).

Saíram, mas "Maria Madalena conservava-se da parte de fora do sepulcro, chorando. Enquanto chorava, inclinou-se e olhou para o sepulcro, e viu dois anjos vestidos de branco, sentados no lugar onde fora posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Eles disseram-lhe: Mulher, por que choras? Respondeu-lhes: Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram. Ditas estas palavras, voltou-se para trás e viu Jesus: de pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Ela julgando que era o hortelão, disse-lhe: Se tu o levaste, dize-me onde o puseste: eu irei buscá-lo. Disse-he Jesus: Maria! Ela, voltando-se, disse-lhe em hebraico: Rabouni! (que quer dizer Mestre). Disse-lhe Jesus: Não me toques, porque ainda não subi para meu Pai; mas vai a meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. Foi Maria Madalena dar a nova aos discípulos" (Jo 20).

Mas Maria Madalena chegou depois das outras mulheres, que viram o sepulcro vazio, porque correu para avisar os apóstolos logo ao ver a pedra removida, e chegou depois de S. Pedro e S. João, que há pouco tempo estavam com ela, viram o sepulcro vazio e voltaram. Ora, as outras mulheres, "tendo voltado do sepulcro, contaram todas estas coisas aos onze e a todos os outros. As que referiam aos apóstolos estas coisas eram Maria Madalena, Joana, Maria mãe de Tiago, e as outras, que estavam com elas. Mas estas palavras pareciam-lhes como que um delírio. Não lhes deram crédito" (Lc 24). Não lhe deram crédito porque há pouco ouviram que o Corpo de Cristo havia sido levado, não lhe deram crédito, porque antes o chefe São Pedro tinha chegado, e disse que não havia ninguém por lá, nem o Corpo de Nosso Senhor, e que tinha passado pelas mulheres no caminho ao sepulcro e elas nada disseram. Por fim, não lhe deram crédito porque, eles, "os quais estavam aflitos e chorosos" (Mt 28), tinham pouca fé. Ora, se Nossa Senhora estava entre essas mulheres, como eles não puderam dar crédito? É possível que tenham rejeitado o testemunho dEla (Adendo da 3a edição: hoje cremos que ela não disse nada, por causa de sua humildade profunda e vontade que Nosso Senhor lhes aparecesse), mas é possível que tenham só rejeitado o das mulheres, e de Maria Madalena, por ter sido pecadora no passado, por isso, "tendo eles ouvido que ele estava vivo, e que fora visto por ela, não acreditaram" (Mt 28)ou simplesmente porque elas eram todas mulheres. De fato, quando chegaram os discípulos de Emaús testemunhando a ressurreição, eles, "que nem a estes deram crédito" (Mc 16) disseram, após S. Pedro dar seu testemunho: "na verdade o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão" (Lc 24), o que mostra que só creram por causa de S. Pedro: aqui mais vale o sentido místico de S. Pedro ser o Chefe, àquele que Nosso Senhor falou: "uma vez convertido, confirma teus irmãos" (Lc 22).

"Todavia Pedro, levantando-se" (Lc 24), porque provavelmente estava cansado por ter corrido até lá e voltado, "correu ao sepulcro, e, inclinando-se, viu só os lençóis por terra" (Lc 24). Aqui se prova que ele foi sozinho desta vez, visto que da primeira vez, não viu só os lençóis, mas "viu os lençóis postos no chão, e o sudário que estivera sobre a cabeça de Jesus, o qual não estava com os lençóis, mas dobrado num lugar à parte" (Jo 20). Foi assim que passou a ter fé, "e retirou-se, admirando consigo mesmo o que sucedera" (Lc 24). Ora, que ele teve fé nessa vez, e não na primeira, é provado por essa frase em contraste ao Evangelho de S. João: "Com efeito, ainda não entendiam a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos". Nesse momento, ao se retirar, no mesmo lugar onde Ele apareceu primeiro para Sua Mãe, depois a Maria Madalena, hipotetizamos que lhe apareceu Nosso Senhor. Talvez ali tenha ouvido as mesmas palavras divinas antes ouvidas: "confirma teus irmãos" (Lc 22).

Pode se fazer a objeção: visto que o Espírito Santo diz no Evangelho: "Jesus, tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demônios" (Mc 16), como dizer que foi Nossa Senhora a primeira que Ele apareceu tendo em vista este versículo?
Porque foi a primeira, dentre os pecadores, a ver Nosso Senhor. Não era contada como a primeira dentre as mulheres, porque havia uma que nunca pecou, a Imaculada Mãe de Deus. São Beda diz que era preciso citá-la primeiro por causa que foi pela mulher a primeira transgressão, o primeiro pecado, e Maria Madalena, citada como pecadora da qual saiu sete demônios (sete pecados segundo os exegetas, ou um grande número deles), representava a mulher em geral, que vendo Nosso Senhor primeiramente ressuscitado, não carregaria mais o fardo perpétuo da culpa da transgressão entre os homens. Esse sentido de não carregar o fardo tem relação óbvia também com a Mãe de Deus.

Adendo da 3a edição: a seguir, um resumo dessa interpretação.
As santas mulheres foram ao sepulcro ao raiar do sol, ainda escuro, e a Virgem Maria seguia atrás. Ouviram o terremoto. Chegando perto, Maria Madalena, ao ver a pedra removida, voltou correndo para noticiar o sumiço do Corpo do Senhor aos dois Apóstolos. Então, São Pedro e São João correram ao sepulcro. Enquanto isso, Nosso Senhor apareceu ressuscitado à Virgem Maria na entrada do sepulcro, enquanto as outras viram e ouviram o anjo no sepulcro. No momento em que fugiam dali, com medo, Nosso Senhor desapareceu e Maria Santíssima tentava acalmá-las, correndo atrás. Elas iam em direção ao lugar dos apóstolos e cruzaram com São João, na frente, São Pedro, e S. Maria Madalena, atrás por causa da natureza feminina menos ágil. Esses, vendo o medo e confusão nas mulheres, correram mais diretamente ao sepulcro. Chegando lá, viram o sepulcro vazio e voltaram, mas Maria Madalena ficou do lado de fora, chorando, e viu Nosso Senhor ressuscitado. Em seguida, Ele apareceu para às Santas mulheres, quando essas ainda estavam voltando. Voltaram os dois apóstolos do sepulcro para junto dos outros. As Santas Mulheres chegaram e testemunharam a ressurreição, seguidas por S. Maria Madalena, que voltou do sepulcro testemunhando também. Por causa do testemunho anterior de São Pedro e São João que, chegando do sepulcro, disseram que não viram nada, não lhes davam crédito. Mas São Pedro foi conferir o sepulcro novamente. Nosso Senhor apareceu-lhe nessa ocasião. Assim, a quinta aparição foi ao discípulos de Emaús, mas estes não receberam crédito primeiramente, porque São Pedro, por alguma razão, ainda não tinha contado aos discípulos que o Senhor lhe havia aparecido.

- Tradição Católica

S. Ambrósio, S. Anselmo e outros citados pelo Pe. Cornélio A Lapide, S.J.

"Primeiro, Ele apareceu para Sua mãe, segundo S. Ambrósio, S. Anselmo, e outros ensinam, e esta é a opinião comum dos Doutores e dos fiéis" [1].

Santo Afonso Maria de Ligório

"Era de justiça que Maria Santíssima, que mais do que qualquer outro tomou parte na Paixão de Jesus Cristo, fosse também a primeira a gozar da alegria da sua ressurreição. Imaginemos vê-la no momento em que lhe aparece o divino Redentor glorificado, acompanhado de grande multidão de Santos, entre os quais São José, São Joaquim e Santa Ana. Oh! Que ternos abraços! Que doces colóquios! Alegremo-nos com a nossa querida Mãe e digamos-lhe: Regina coeli, laetare, alleluia. “Rainha dos céus, alegrai-vos, aleluia!”.

I. Entre as muitas coisas que Jesus Cristo fez e os Evangelistas passaram em silêncio, deve, com certeza, ser contada a sua aparição a Maria Santíssima logo em seguida à sua ressurreição. Nem necessidade havia de referi-la, porquanto é evidente que o Senhor, que mandou honrar pais e mães, foi o primeiro a dar o exemplo, honrando sua Mãe com a sua presença visível. Demais, era de inteira justiça que o divino Redentor glorificado fosse, antes de mais ninguém, visitar a Santíssima Virgem; a fim de que, antes dos outros e mais do que estes, participasse da alegria da ressurreição quem mais do que os outros participara da paixão" [2].

Santo Inácio de Loyola

“A primeira contemplação. Como Cristo Nosso Senhor apareceu a Nossa Senhora” [3].


Liturgias Orientais

Entre os tropários da Ressurreição que a Liturgia Bizantina canta todos os domingos, o do sexto tom conservou também uma breve recordação do encontro de Jesus com Sua Mãe:

"Enquanto Maria estava diante do sepulcro
a procura de teu imaculado corpo,
os anjos apareceram em teu túmulo
e as sentinelas desfaleceram.
Sem ser vencido pela morte,
submeteste ao teu domínio o reino dos mortos,
e vieste ao encontro da Virgem revelando a Vida.
Senhor, que ressurgiste dos mortos, glória a Ti! "

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[1] Comentário nas Escrituras, Evangelho de S.Mateus, Cap.28, 10
[2] Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 17-19.
[3] Exercícios Espirituais, 218