Hipótese Teológica sobre a eleição do Papa Santo

Estevão IV coroando um rei
Este artigo, para ser entendido, requer algumas leituras prévias: 

A Teologia da História prova a vinda do Reino de Maria, por Plinio Corrêa de Oliveira em 1971.

A vinda do Reino de Maria provada por Teologia da História, segundo o Pe. Antonio Vieira


A Teologia da História prova que virá uma grande graça para a humanidade no começo e no fim do Castigo, por Plinio Corrêa de Oliveira

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Do livro "O Príncipe dos Cruzados (Vol. I, parte I, 3a edição, Cap. III)".


Antes de qualquer cogitação sobre a eleição desse futuro Papa, é preciso conhecer a doutrina sobre tais eleições. Assim, é preciso saber o que é necessário para a legitimidade de um Pontífice, isto é, as condições para que esse não seja um Papa dúbio ou Papa nulo. Para isso, tiramos alguns excertos do livro de Arnaldo Xavier da Silveira [1].

A aceitação pacífica de um Papa por toda a Igreja é um sinal e um efeito infalível [2] da eleição válida. É esse o ensinamento comum dos autores.

Assim se manifestam, por exemplo os teólogos: Suarez ("De Fide", disp. X, sect. V, especialmente n.º 6-8, pp. 314-315), Ferraris ("Prompta Bibl.", verbete Papa, col. 1846, n.º 69), Bouix ("Tract. de Papa", tom. II, pp. 683 ss.), Wernz-Vidal ("Ius Can.", tom. II, pp. 520-521), Billot ("Tract. De Eccl. Christi", tom. I, pp. 620-621), Journet ("L’Eglise...", vol. I, p. 624).

Escreve Santo Afonso Maria de Ligório: "Em nada importa que nos séculos passados algum Pontífice tenha sido ilegitimamente eleito ou se tenha fraudulentamente apoderado do Pontificado; basta que depois tenha sido aceito por toda a Igreja como Papa, uma vez que por tal aceitação ele se terá tornado verdadeiro Pontífice. Mas se durante certo tempo não houvesse sido verdadeira e universalmente aceito pela Igreja, durante esse tempo a Sé pontifícia teria estado vacante, como vaga na morte do Pontífice" [3].

A história também apoia essa tese: no cisma do ocidente, resolvido no começo do século XV, falsos cardeais, feitos durante o cisma por anti-Papas, entraram em acordo com outros falsos cardeais e cardeais verdadeiros e todos elegeram um Papa válido. Havia uma lei de eleição que foi desrespeitada, mas o princípio da aceitação foi o que validou.

Outra história apoia: o Papa Estevão III presidiu o sínodo de 769 que decretou que somente um cardeal-padre ou cardeal-diácono poderia ser eleito especificamente excluindo aqueles que já eram bispos [4]. Um tempo depois, aquele que seria o futuro Estevão IV foi criado, em terna idade, no Palácio Laterano durante o Pontificado de Adriano I. Foi sob o sucessor deste, Leão III, que ele foi primeiramente ordenado Sub-diácono antes de ser feito Diácono. Muito popular entre o povo Romano, após dez dias da morte de Leão III, ele foi escoltado para a Basílica de São Pedro e consagrado Bispo de Roma em 22 de Junho de 816 [5]. Portanto, em contrário ao resolvido no sínodo de 769.
 
Quem elege um Papa é o povo, no caso, o povo romano, aclamando-o, seguindo a orientação do colégio dos Cardeais. No entanto, não é impossível o povo eleger um Papa fora das cogitações e até das decisões do colégio cardinalício. A aceitação pacífica e universal fará do escolhido o Papa legítimo se ele aceitar o cargo, tornando-se bispo, se não já o for.

Esse elemento primordial nos deixa entrever como se reconhecerá um legítimo Papa, caso do Papa Santo. Nos resta saber de que modo se dará este reconhecimento. Ou o povo passará a aclamá-lo, apesar do Sacro Colégio, ou o Sacro Colégio o escolherá e será aclamado. A segunda opção é a mais provável, pelos seguintes motivos:

1. Considerando a graça do Grand-Retour na primeira parte da Bagarre, da qual já tratamos no capítulo II, é pouco provável que ocorra qualquer agitação popular antes da eleição desse Pontífice, que já é um motivo para o Grand-Retour. Além disso, para a aclamação de alguém pelo povo é preciso que este se destaque, o que na presente situação é muito difícil, dado que os fiéis, neste mundo permeado de progressismo, seguem ao padre que lhe agradam e não ao padre que agrada a Deus. Para mudar tal mentalidade será preciso uma grande graça, o que não é conveniente até que fique evidente a todos que Deus está interferindo na história, isto é, na aclamação desse Pontífice, ponto que se adequa melhor ao princípio da beleza, em que muitos verão uma cena profética e histórica, e daí virá essa graça, e a relação entre as coisas ficará óbvia, ou seja, o milagre do Grand-Retour será patente.

2. A vingança de Deus é mais plena com a escolha do Papa pelo Sacro Colégio, já que será uma situação de "troco da providência" aos que pensavam ter escolhido outro que continuaria a não resolver a crise na Igreja.

3. Pio IX era uma espécie de prefigura desse Papa, pois foi ruim no começo do Pontificado, mas se converteu posteriormente. Assim, o Papa Santo poderá ser alguém escolhido pelo colégio cardinalício, que se converterá de modo impressionante (isto, se acontecer, deverá ser muito rapidamente, para se harmonizar com os artigos precedentes).
Adendo da 3a edição: Nas edições passadas, não conhecíamos a hipótese que São João Evangelista pode sagrar ao então futuro Papa, que incluímos agora. Por isso, parecia que esse Papa deveria ser um bispo já sagrado pela hierarquia católica atual. Entretanto, um bom observador verá que só o "3" não se harmoniza com a hipótese relacionada a São João Evangelista. Além disso, enfatizamos que a "agitação popular" mencionada em "1" se refere a uma agitação popular contra o modo como a Igreja é gerida atualmente, e não uma agitação social qualquer. Na época da 1a edição era mais difícil de ocorrer que hoje, por isso incluímos aqui a hipótese de que essa agitação possa levar a uma renúncia Papal, como alguns bispos já pediram ao Papa Francisco, ainda que por outros motivos.

Em harmonia com a profecia da eleição extraordinária desse Papa, feita pela Beata Taigi, também é possível que não seja um Cardeal, mas um Bispo, padre, ou até leigo. Isto basta como exemplo de hipótese que, dentro do sentido de "eleição extraordinária", sustente uma eleição direta pelo povo sem Cardeais como intermediários. No entanto, essa área é muito nebulosa, cheia de alternativas, por isso, não ousamos cogitar mais acerca disso.

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[1] Considerações sobre o "Ordo Missae" de Paulo VI, Arnaldo Xavier da Silveira, 1970, pg.40-41
[2] Wernz-Vidal, "Ius Can.", II, p. 520, nota 171. A expressão "efeito infalível" não indica aqui um efeito que infalivelmente decorra de sua causa. Mas indica algo que, se se der, só poderá ter sido produzido por tal causa, da qual portanto será, sem sombra de dúvida, um efeito, isto é, um "efeito infalível". Ver exposição sobre esse ponto específico em Suarez, "De Fide", disp. X, sect. V, n.º 8, p. 315.
[3] Santo Afonso de Ligório, "Verità della Fede", em "Opere...", vol. VIII, p. 720, n.º 9. 
[4] Baumgartner, Frederic J. (2003). Behind Locked Doors: A History of the Papal Elections. Palgrave Macmillan, 2003, p. 13.
[5] Mann, Horace K., The Lives of the Popes in the Early Middle Ages, Vol. II: The Popes During the Carolingian Empire, 795–858 (1906), pg. 112