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Sagrada Escritura e Santos sobre a modéstia dos pensamentos

Santo Afonso Maria de Ligório, rogai por nós!

Extraído de: "O Príncipe dos Cruzados (Volume II, 2a edição)".

Sagrada Escritura

"Fiz um pacto com meus olhos de nem sequer pensar numa virgem" Jó XXXI, 1.

S. João Clímaco

"Os santos padres assinanalados na graça da discrição dizem que uma coisa é o primeiro ímpeto do que tenta, outra a tardança no pensamento, outra o consentimento, outra a luta, outra o cativeiro, outra a paixão do ânimo. Primeiro ímpeto, dizem eles, é uma imagem que se representa em nosso coração e passa logo. Tardança é detença em mirar aquela imagem que se nos representa, ou com alguma alteração ou sem ela. Consentimento é movimento com que já nosso ânimo se inclina e se aplica àquela imagem com algum deleite. Luta é quando há porfia e peleja de parte a parte, e com igual virtude peleja o homem, por sua própria vontade vence ou é vencido. Cativeiro é um violento roubo de nosso coração, que se deixa levar por sua afeição, derrubando e tirando a alma de seu assento e estado. Paixão é propriamente aquela imagem que por largo tempo se assenta em nosso ânimo viciosamente, a qual, pela força do costume, se transforma em mau hábito, de sorte que, afinal, o vício é abraçado com toda a força da vontade.

Dentre esses graus, o primeiro, que é o ímpeto, não é pecado, porque não está nas mãos do homem impedir estes primeiros movimentos; o segundo, que é a tardança, já tem algum pecado, porque já se poderia impedir; o terceiro, que é o consentimento, é de maior ou menor culpa, conforme a maior ou menor do perfeição do tentado; o quarto, que é a luta, é causador, ou de coroas ou de penas, conforme formos ou vencedores ou vencidos; o quinto, que é o cativeiro do pensamento, é repreensível de um modo no tempo da oração e dos ofícios divinos, e de outro modo fora deles, de um modo nos pensamentos de coisas más, e de outro nos das que não o são; o sexto, que é a paixão, ou se há de purgar nesta vida com digna penitência, ou se há de castigar na outra. E, portanto, aquele que, com grande presteza e diligência, corta aquele primeiro movimento, isto é, o ímpeto, que é a raiz, de um golpe cortou cerce todos os outros" (A Escada do Céu, Cap. XV - Da castidade, III. Edição Typ. A Vapor, Espindola Siqueira & Co, S. Paulo. Traduzido do grego ao espanhol por Frei Luiz de Granada, e do espanhol ao português por João Mendes de Almeida Junior, irmão terceiro franciscano, 1902).

Santo Afonso Maria de Ligório citando a Sagrada Escritura, São Bernardo, Santo Anselmo e São Filipe Néri

§ II. Da vigilância sobre os pensamentos

1) A respeito dos maus pensamentos encontra-se, muitas vezes, um duplo engano:

a) Almas que temem a Deus e não possuem o dom do discernimento e são inclinadas aos escrúpulos, pensam que todo mau pensamento que lhes sobrevêm é já um pecado. Elas estão enganadas, porque os maus pensamentos em si não são pecados, mas só e unicamente o consentimento neles. A malícia do pecado mortal consiste toda e só na má vontade, que se entrega ao pecado com claro conhecimento de sua maldade e plena deliberação de sua parte. E, por isto, Santo Agostinho ensina que não pode haver pecado onde falta o consentimento da vontade.

Por mais que sejamos atormentados pelas tentações, pela rebelião de nossos sentidos, pelas comoções ou sensações desregradas de nossa natureza corpórea, não existe pecado algum enquanto faltar o consentimento, como ensina também São Bernardo, dizendo: "O sentimento não causa dano algum, contanto que não sobrevenha o consentimento".

Para consolar tais almas timoratas e escrupulosas, quero oferecer-lhes aqui uma regra prática, aceita por quase todos os teólogos: Quando uma alma que teme a Deus e detesta o pecado, duvida se consentiu ou não em um mau pensamento, não está obrigada a confessar-se disso, porque, em tal caso, se tivesse realmente cometido um pecado mortal, não estaria em dúvida a esse respeito, porque o pecado mortal, para uma alma que teme a Deus, é um monstro tão horrendo, que não poderá ter entrada em seu coração sem o perceber.

b) Outros, que possuem uma consciência mais relaxada e são mal instruídos, julgam, pelo contrário, que os maus pensamentos nunca são pecados, mesmo havendo consentimento neles, contanto que não se chegue a praticar. Este erro é muito mais pernicioso que o primeiro. O que se não pode fazer, não se pode também desejar; por isso, o mau pensamento em si contêm toda a malícia do ato. Assim como as más obras nos separam de Deus, também os maus pensamentos nos afastam d'Ele e nos privam de Sua graça. "Pensamentos perversos nos separam de Deus" (Sab 1:3). Como as más obras estão patentes aos olhos de Deus, também Sua vista alcança todos os nossos maus pensamentos para condená-los e puni-los, pois "um Deus de ciência é o Senhor, e diante d'Ele estão patentes todos os pensamentos" (I Rs 2:3).

2) Logo, nem todos os maus pensamentos são pecados, e nem todos os que são pecados trazem em si o mesmo cunho de malícia. Devemos considerar três coisas quando se trata de um pecado de pensamento, a saber: a sugestão, a deliberação e o consentimento. Alguns esclarecimentos a esse respeito:

a) Sob a palavra sugestão entende-se o primeiro pensamento que nos incita a praticar o mal que nos vem à mente. Esta instigação ou incitamento ainda não é pecado; se a vontade a repele imediatamente, é mesmo uma fonte de merecimentos. "Para cada tentação a que opuseres resistência, se te deverá uma coroa", diz Santo Antão. Até os Santos foram perseguidos por tais pensamentos. São Bento revolveu-se sobre os espinhos para vencer uma tentação impura, e São Pedro de Alcântara lançou-se em poço de água gelada. São Paulo nos informa que também ele foi tentado contra a pureza: "E para que a grandeza das revelações não me ensoberbesse, foi-me dado um espinho em minha carne, um anjo de satanás para me esbofetear" (2 Cor 12:7). O Apóstolo suplicou várias vezes ao Senhor que o livrasse desse inimigo: "Por essa causa roguei ao Senhor três vezes que o afastasse de mim". O Senhor não quis, porém, dispensá-lo do combate, e respondeu-lhe: "Basta-te a minha graça". E por que não queria o Senhor livrá-lo? Para que adquirisse maiores méritos por sua resistência à tentação: "Porque a virtude se aperfeiçoa na fraqueza". São Francisco de Sales diz que quando um ladrão procura arrombar uma porta, é porque não está ainda dentro da casa; assim também, quando o demônio tenta uma alma, é porque se acha ela ainda na graça de Deus.

Santa Catarina de Sena foi uma vez horrivelmente atormentada pelo demônio, durante três dias, com fortes tentações impuras. Apareceu-lhe então o Senhor para consolá-la, e ela perguntou-lhe: -Mas onde estivestes, Senhor meu, durante estes três dias? Jesus respondeu-lhe: Dentro do teu coração, dando-te força para resistires à tentação. E o Senhor deu-lhe a conhecer que o seu coração estava, depois da tentação, mais puro que antes.

b) À sugestão segue-se a deleitação. Quando não nos damos ao trabalho de repelir imediatamente a tentação, sentimos nela uma certa complacência ou prazer, que nos vai arrastando ao consentimento. Mesmo então, se a vontade não dá seu assentimento, não há pecado mortal; quando muito, poderá haver pecado venial. Se, porém, não recorrermos então a Deus e não nos esforçarmos por resistir à tentação, facilmente nos sentiremos arrastados ao consentimento e perdidos, segundo as palavras de Santo Anselmo (De similit., c. 40): "Se não procuramos impedir a deleitação, ela se transformará em consentimento e matará a alma".

Uma senhora, que tinha fama de santa, teve, um dia, um mau pensamento, que não repeliu imediatamente, e pecou por pensamento. Por vergonha deixou de confessar esse pensamento criminoso e morreu, pouco depois, em estado de pecado. Porque morreu com fama de santidade, mandou o bispo que fosse sepultada em sua própria capela. No dia seguinte, porém, apareceu-lhe ela, toda circundada de fogo, e confessou-­lhe, infelizmente já tarde demais, que estava condenada por ter consentido num mau pensamento.

c) Toda a malícia do mau pensamento está, porém, no consentimento. Havendo pleno consentimento, perde-se a graça de Deus e chama-se sobre si a condenação eterna, quer se tenha o desejo de cometer um pecado determinado, quer se pense ou reflita com prazer no pecado como se o estivesse cometendo. Esta última espécie de pecado chama-se uma deleitação deliberada ou morosa, e deve-se distinguir bem da primeira, isto é, do pecado de desejo. 

3) Se fores, pois, molestada por tais tentações, alma cristã, não deves perder a coragem, antes, animosamente combater, empregando os meios que te vou indicar, e não sucumbirás:

a) O primeiro é humilhar-se continuamente diante de Deus. O Senhor castiga muitas vezes os espíritos soberbos, permitindo que caiam em qualquer pecado impuro. Sê, pois, humilde, e não confies em tuas próprias forças. Davi confessa que caiu no pecado por não ter se humilhado e ter confiado demais em si mesmo: "Antes de me haver humilhado, eu pequei" (Sl 118:67). Devemos temer sempre a nossa própria fraqueza e colocar em Deus toda a nossa confiança, esperando firmemente que nos preserve desse vício.

b) O segundo meio é recorrer imediatamente a Deus, sem entrar em diálogo com a tentação. Logo que se apresentar ao nosso espírito um pensamento impuro, devemos elevar a Deus imediatamente o nosso pensamento ou dirigi-lo a qualquer objeto indiferente. A coisa melhor será invocar imediatamente os Santíssimos Nomes de Jesus e Maria, e não cessar de repeti-los até desaparecer a tentação. Se ela for muito forte, será bom repetir muitas vezes o seguinte propósito: Ó meu Deus, prefiro morrer a Vos ofender. Peça-se socorro, dizendo: Ó meu Jesus, socorrei-me. Maria, assisti-me. Os Nomes de Jesus, Maria e José possuem uma força especial para afugentar as tentações do demônio.

c) O terceiro meio é a recepção assídua dos Santos Sacramentos da Confissão e da Comunhão. É de suma importância revelar quanto antes ao confessor as tentações impuras. "Uma tentação revelada já está meio vencida", diz São Filipe Néri. E se alguém teve a infelicidade de consentir em uma tentação, não se demore nenhum instante em se confessar disso. São Filipe Néri livrou um rapaz desse vício, induzindo-o a confessar-se logo depois de cada queda.

A Santa Comunhão, está fora de dúvida, confere uma grande força na resistência às tentações desonestas. O Sangue de Jesus Cristo, que recebemos na Sagrada Comunhão, é chamado pelos Santos de 'Vinho gerador de Virgens' (Zac 9:17). O vinho natural é um perigo para a castidade; este Vinho Celestial é o seu conservador.

d) O quarto meio é a devoção à Imaculada Mãe de Deus, que é chamada a Virgem das Virgens. Quantos jovens não se conservaram puros e castos como Anjos, devido à devoção à Santíssima Virgem!

e) O quinto meio é a fuga da ociosidade. O Espírito Santo diz (Ecli 33:21): "A ociosidade ensina muita coisa má", isto é, ensina a cometer muitos pecados. E o profeta Ezequiel (Ez 16:49), assevera que foi a ociosidade a causa das abominações e ruína final dos habitantes de Sodoma. Conforme São Bernardo, a ociosidade motivou a queda de Salomão. Por isso São Jerônimo exorta a Rústico (Ep. ad Rust., 2) que esteja sempre ocupado, para que o demônio não o preocupe com suas tentações. "Quem trabalha é tentado por um demônio só; quem vive ocioso, é atacado por uma multidão deles", diz São Boaventura.

f) O sexto meio consiste no emprego de todas as precauções exigidas pela prudência, tais como a modéstia dos olhos, a vigilância sobre as inclinações do coração, a fugida das ocasiões perigosas, etc [1].

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[1] Escola da Perfeição Cristã, Parte II, Cap.VI

Santos e a tradição sobre a vocação sacerdotal, o encargo terrível, a necessidade de santificação

 Excertos do livro "A Selva" de Santo Afonso Maria de Ligório reunidos em quatro itens.

1. O Sacerdócio, aos olhos dos santos, é um encargo terrível.
 

Para entrar em qualquer estado de vida, é necessário ser chamado por Deus, porque, sem vocação, se não é impossível, é pelo menos muito difícil satisfazer às obrigações desse estado e salvar-se.
Mas, se para todos é necessária a vocação, sobretudo é indispensável para abraçar o estado eclesiástico. É a porta única para se entrar na Igreja; quem lá se introduzir doutro modo é um bandido e um ladrão, diz o Senhor(...). S. Cirilo de Alexandria conclui que o que recebe as Ordens sacras, sem a elas ser chamado por Deus, se torna culpado de roubo, porque arrebata uma graça que Deus lhe não quer confiar. Também S. Paulo declarou que a vocação divina é necessariamente requerida para se ser elevado ao sacerdócio, e cita o exemplo de Aarão e do próprio Jesus Cristo. Ninguém por si mesmo assume esta honra, que não se confere senão a quem é chamado por Deus, como Aarão. Foi assim que nem o próprio Jesus Cristo se arrogou a função de Pontífice, que lhe conferiu Aquele que lhe disse: Tu és o meu Filho.
Ninguém pois, por mais inteligente, sábio e santo que seja, pode entrar no santuário, por iniciativa próprio; é necessário que seja chamado e introduzido lá por Deus. O próprio Jesus Cristo, que foi em verdade o mais santo e sábio dos homens, por isso que é cheio de graça e de verdade, e nele estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência, o próprio Jesus Cristo, digo, para se revestir da dignidade de sacerdote, quis ser chamado a ela por Deus.
Ainda mesmo quando estavam certos da sua vocação divina, tremiam os santos de assumir o sacerdócio. (...) 

Dizia S. Clemente de Alexandria que os que estavam verdadeiramente animados do Espírito de Deus, se encontravam possuídos de temor ao receberem o sacerdócio, como um homem que treme à vista dum fardo enorme, que lhe vão lançar sobre os ombros, com perigo de ele ficar esmagado. Santo Efrém nos diz que não encontrava ninguém que quisesse ser ordenado de presbítero (Ep. ad Joan. hieros.). Um concílio de Cartago decretou que os que fossem julgados dignos do sacerdócio e o recusassem, podiam ser obrigados a deixar-se ordenar. “Ninguém, dizia S. Gregório de Nazianzo, recebe de boa vontade o sacerdócio”. Refere o diácono Pôncio que S. Cipriano, ao saber que o queriam ordenar sacerdote, correra a esconder-se por umildade: Humiliter secessit (Vita S. Cypr.). O mesmo fez, por igual motivo, S.Fulgêncio. Prevendo que ia ser eleito, correu a esconder-se num lugar desconhecido. Refere Sozomeno que também Sto. Atanásio fugira para não ser elevado ao sacerdócio. Santo Ambrósio fez grandes resistências, como ele próprio afirma. S. Gregório procurou disfarçar-se em trajo de negociante para escapar à ordenação, apesar de Deus ter mostrado por milagres que o chamava à ordenação. Para não ser ordenado, Sto. Efrém se apresentou como insensato e S. Marco cortou o dedo polegar. O mesmo motivo levou Sto. Amon a cortar as orelhas e o nariz; e, como apesar disso o povo insistia em o fazer ordenar, fez-lhe a ameaça de cortar também a língua; então cessaram de o perseguir. 
É sabido que S. Francisco, ordenado diácono, não quis receber o presbiterato, porque uma visão lhe tinha revelado que a alma do padre deve ser pura como a água, que lhe fôra mostrada num vaso de cristal. Do mesmo modo o abade Teodoro não era senão diácono, e todavia nunca quis exercer as funções da sua Ordem, porque um dia ao fazer a oração viu uma coluna de fogo e foi-lhe dito: “Se tens o coração inflamado como esta chama, então exerce a tua Ordem”. O abade Motuès era sacerdote, mas não quis celebrar, porque se julgava indigno disso.

Antigamente, entre os monges, cuja vida era tão austera, poucos se encontravam que fossem sacerdotes. Aos olhos deles, aspirar ao sacerdócio era presunção. Por isso S. Basílio, querendo experimentar a obediência dum monge, mandou-lhe que pedisse publicamente o presbiterato; o que foi olhado como um ato de obediência; porque, fazendo um tal pedido, o religioso expunha-se a passar por um grande orgulhoso. Mas, enquanto os santos, que só vivem para Deus, têm tanta repugnância em receber as Ordens e se crêem indignos delas, — como é que tantos correm às cegas para o sacerdócio e não descansam até que lá cheguem, por caminhos direitos ou tortos? Ai, exclama S. Bernardo, esses são para lamentar; porque, para eles, o estarem no número dos sacerdotes será o mesmo que estarem inscritos na lista dos condenados! Porquê? Porque de todos esses padres apenas haverá algum que tenha sido chamado por Deus. O que os impediu para o santuário foi o interesse, a ambição, a influência dos pais, e assim não se ordenam para o fim que o sacerdote deve ter em vista, mas para os fins perversos do mundo. Por isso os povos permanecem ao abandono e a Igreja desonrada. Tantas almas se perdem, ao mesmo tempo que tais padres se afundam na ignomínia!

2. Qual deve ser a santidade do padre como ministro do altar 


Quer Sto. Tomás que se exija aos padres maios santidade que aos simples religiosos, em razão das funções sublimes que exercem, especialmente da celebração do sacrifício da missa. A razão é que recebendo uma Ordem sacra, dedica-se o homem ao mais alto ministério, que consiste em servir a Jesus Cristo até no Sacramento do altar; o que exige uma santidade interior mais elevada que a que se requer para o estado religioso. Em igualdade de circunstâncias pois, um clérigo de Ordens sacras, obrando contra a santidade, peca mais gravemente que um religioso, que não esteja revestido de nenhuma Ordem sacra. É muito conhecida a sentença de Sto. Agostinho: “Dificilmente um bom monge dá um bom clérigo”. Deste modo, nenhum clérigo pode ser olhado como bom, se não exceder em virtude um bom religioso.“Um verdadeiro ministro do altar forma-se para Deus, e não para si”. Significam estas palavras de Sto. Ambrósio que um padre deve esquecer as suas comodidades, as suas vantagens e os seus gostos; deve persuadir-se que, desde o dia em que recebeu o sacerdócio, não é seu, mas de Deus.
Assim fala o profeta Malaquias; e no Levítico lê-se: Serão santos no serviço do seu Deus, e não desonrarão o seu nome; porque hão de oferecer incenso do Senhor e os pães do seu Deus, e por conseqüência serão santos. Se deviam pois ser santos os sacerdotes da Lei antiga, porque ofereciam a Deus apenas o incenso, e os pães de proposição, que eram uma simples figura do adorável Sacramento dos nossos altares, quanto mais devem ser puros e santos os sacerdotes da lei nova, que oferecem a Deus o Cordeiro sem mancha, o seu próprio Filho! Nós oferecemos, observa Estio, não novilhos ou incenso, como os sacerdotes antigos, mas o próprio Jesus Cristo; oferecemos o corpo mesmo do Senhor, que foi suspenso no altar da cruz.

3. Bondade positiva de vida

O terceiro sinal de vocação, para o estado eclesiástico, é a bondade positiva de vida. Primeiro que tudo, deve o ordinando ter uma vida inocente, não manchada de pecados. O Apóstolo exige que aquele que aspira ao sacerdócio seja irrepreensível, conforme o escrevia ao seu discípulo Tito. Nos primeiros séculos da Igreja, quem tivesse cometido um só pecado mortal não podia ser ordenado; prova-o uma decisão do 1.º Concílio de Nicéia. Segundo S. Jerônimo, para ser admitido ao sacerdócio, não bastava estar sem pecado ao tempo da ordenação, era necessário não ter cometido nenhuma falta grave depois do batismo. Verdade é que depois a disciplina a disciplina da Igreja cessou de ser tão rigorosa; mas dos aspirantes a Ordens sacras sempre tem exigido ao menos que, depois das suas quedas graves, tenham conservado a sua consciência bem purificada, durante um período considerável de tempo. É o que vemos numa carta de Alexandre III ao arcebispo de Reims, a propósito dum diácono que tinha ferido outro diácono: o Papa decidiu que, se o culpado estava verdadeiramente arrependido do seu crime, depois de recebida a absolvição e cumprida a penitência, que lhe fosse imposta, poderia ser reintegrado nas funções da sua Ordem, e até, se depois desse exemplo duma vida perfeita, lhe poderia ser conferido o sacerdócio.


4. Ao que se expõe quem entra nas ordens sem vocação

Do que levamos dito resulta que não se poderia escusar de falta grave quem entrasse nas Ordens, sem consciência de possuir os sinais da vocação divina. É o sentir dum grande número de teólogos, tais como Habert, Natal Alexandre, Juenino, e o Continuador de Tournely; e é o que antes deles claramente ensinou Santo Agostinho quando ao falar do castigo infligido pelo Senhor a Coré, Datan e Abiron, — que se haviam ingerido nas funções sacerdotais, sem a elas serem chamados, — afirma que esse exemplo é uma advertência para os que sem vocação aspiram às Ordens sacras.