A Escritura e os Doutores da Igreja dizem que Elias e Enoch virão no fim dos tempos na época do Anti-Cristo (parte 2)

S.Elias, o Tesbita
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Escritura e os Doutores da Igreja dizem que Elias e Enoch virão no fim dos tempos na época do Anti-Cristo (parte 1) 

Conforme a exegese da Escritura

"Eis que vos enviarei o profeta Elias". Segundo o Pe. Cornélio A Lápide, a profecia fala do juízo final, e Elias significa o mesmo profeta do antigo testamento. Acreditamos que em um plano de interpretação está correto, conforme demos nossa própria exegese em outros artigos, portanto em relação ao juízo final o jesuíta capta a verdade profetizada, embora ao se referir em prefigura a outros eventos apocalípticos há de ter outra interpretação. As razões que ele dá:

"1º) Porque os Setenta chamam a este Elias de Tesbita, assim como consta nos Códices do Vaticano e em outros, de modo que é de se admirar que falte o Tesbita nos livros dos Reis. Ver também a versão árabe, que diz: "Eis que vos enviarei Elias Tesbita, antes da vinda do dia terrível do Senhor". Portanto, aqui se fala do verdadeiro Elias. Aliás, João Batista não era tesbita.

2º) Porque Elias será então precursor da segunda vinda de Cristo, para o Juízo final; este será o "dia grande e horrível do Senhor". São João Batista, porém, precedeu o primeiro advento de Cristo ao mundo.

3º) Porque quando Elias vier, virá também Cristo para ferir a terra com anátemas, como indica o Profeta [Malaquias] no último versículo. Contudo isso se fará no segundo advento. Pois, no primeiro, veio para salvar o mundo e não para perdê-lo ou feri-lo.

4º) Aludindo a esta passagem, assim explica o Eclesiástico, cap. 48, 10, dizendo: "Tu, de quem está escrito que no tempo dos julgamentos virás para abrandar a ira do Senhor, para reconciliar o coração dos pais com os filhos, e para restabelecer as tribos de Jacó". E Nosso Senhor em Mat. 17, 11: "Elias certamente há-de vir (antes da minha segunda vinda) e restabelecerá todas as coisas (...).

Ao argumento tirado dos vers. 10 e ss. do cap. 17 de São Mateus, respondo dizendo que Elias e João Batista são e serão semelhantes na missão, no zelo, na pregação e na santidade. João foi precursor de Cristo na sua primeira vinda; Elias será precursor na segunda vinda de Nosso Senhor. Por isso, aquele toma o nome deste, a quem figura. Com efeito, João Batista é chamado Elias, não em pessoa, mas por causa da semelhança de virtude e de espírito, como diz o anjo Gabriel: "E ele o precederá com o espírito e a virtude de Elias" (Luc. I, 17).

Nosso Senhor Jesus Cristo distingue dois Elias. Um ao pé da letra, quando diz: "Elias verdadeiramente virá e restabelecerá todas as coisas". Outro, figurativamente, ou seja, São João Batista, do qual diz: 'Elias já veio' (...).

"E ele converterá o coração dos pais aos filhos". Em hebraico converterá é hosceb, fará retornar. O que significa que Elias fará retornar aos filhos o coração, a mentalidade, a fé e a devoção de seus pais. Hosceb refere-se a Tisbi, Tesbita. Com efeito, Elias em hebraico é o mesmo que meu Deus. Tisbi significa volta à penitência, emenda e restauração, como se se dissesse: Elias, de acordo com o seu nome e sua pátria, será o Tesbita, porque converterá a Deus o coração do seu povo. Por isso, restabelecerá e restaurará todas as coisas na sua integridade. É o que comenta São Jerônimo. É também o que diz Nosso Senhor: "Elias virá e restabelecerá todas as coisas" (Mt. 17). E no Eclesiástico: "Elias virá reconciliar o coração dos pais com os filhos, e para restabelecer as tribos de Jacó" (48, 10). Ou seja, virá restabelecer na pristina fidelidade de seus antepassados as doze tribos apóstatas da antiga e verdadeira fé dos patriarcas, as quais se espatifaram e se dispersaram por causa de sua cegueira e sua perfídia.

Contudo, poder-se-á apresentar contra o que foi exposto o seguinte [versículo de Malaquias]: "E o coração dos filhos a seus pais". Ademais, Elias não transferiu o coração, ou seja, a mentalidade e a devoção dos filhos aos seus pais, uma vez que estes já estavam mortos. Respondo dizendo que o sentido é: Elias "converterá o coração dos filhos ao de seus pais", ou seja, fará com que o coração - a mentalidade, a fé - dos judeus consone e adira ao coração - à mentalidade, à fé - de seus pais (...).

Portanto, quando Nosso Senhor diz "Elias restabelecerá todas as coisas", isso significa que haverá então uma ingente conversão. Para tal, Elias fará as pazes entre judeus e gentios, durante tanto tempo discordes, unindo-os numa única aliança na fé e na Igreja de Cristo. Ademais, Elias com seu zelo apostólico restaurará todas as coisas na alvura e no esplendor primevos, que aureolaram a Igreja no tempo dos Apóstolos, a fim de que a Religião católica e a santidade refuljam e corusquem maravilhosamente em todas as partes" [1].

"E darei às minhas duas testemunhas o poder de profetizar, revestidos de saco, durante mil, duzentos e sessenta dias (Ap 11, 3) (...) serão duas as testemunhas, quanto porque, pelo direito divino e dos povos "não valerá contra alguém uma só testemunha; tudo será verificado sobre o depoimento de duas ou três testemunhas" (Deut. 19, 15),  quanto porque Cristo enviou os Apóstolos, de dois em dois, a pregarem. E estas testemunhas serão apóstolos de Cristo. Ademais, elas fazem alusão aos dois querubins postados junto da arca do testemunho, sustentando o propiciatório. De mesmo modo, estes dois, com seu testemunho, sustentarão a arca - a Igreja - e o propiciatório - a fé em Cristo, propiciador e redentor do mundo. Finalmente, porque Enoch representa a vocação dos Patriarcas e a lei natural, e Elias a vocação dos Profetas e a lei mosaica, e por meio deles estarão representadas, no Juízo final, a lei e a profecia, assim todos os patriarcas e profetas dos séculos passados darão testemunho de Cristo contra o Anticristo" [2].

Confirmam os Doutores e Padres da Igreja

"5º) Porque assim interpretam esta passagem de Malaquias os Padres gregos e latinos: São Cirilo, Teodoreto, Remígio, Haymo, Santo Alberto, Hugo,  Lyrano e outros. Também São João Crisóstomo, Eutímio, São Beda, Santo Anselmo, Santo Tomás, ao comentarem o cap. 17 de São Mateus. E ainda São Cipriano (De Sina et Sion); Santo Efrém (trad. De Antichristo); São Próspero (in Dimid. temp., cap. 13); Tertuliano (De Anima, cap. 35); São Justino (Dialog. Contra Triphon); São Gregório de Nissa (Testimon. contra Iudæos); Santo Agostinho (De Civitas Dei, lib. 20, cap. 10); e Andrés, Ambrósio,  Ruperto e Aretas, quando comentam o cap. 11 do Apocalipse. Aliás, esta sempre foi a sentença comum dos judeus, como se vê em Mateus, 17, 11.

Dir-se-á: São Jerônimo entende por Elias o coro dos profetas, que antecederá a segunda vinda de Cristo. Respondo dizendo que São Jerônimo explica o Elias místico, como em breve mostrarei, e não o literal. Pois que Elias virá em pessoa é o que o próprio S. Jerônimo ensina claramente, ao comentar os caps. 11 e 17 de São Mateus.

Poder-se-á ainda objetar: Por que então São Jerônimo diz aqui: "Os judeus e os hereges judaizantes consideram que Elias precederá o seu  eleimménon (ungido)"? Respondo, explicando que os judeus ainda esperam o seu Messias em sua primeira vinda ao mundo, cujo precursor, julgam, será Elias. Refutou-os São Jerônimo. E com razão, pois aqui erram eles duplamente. Primeiro, quando pensam que Cristo ainda não veio. Segundo, porque consideram que Elias será precursor do primeiro advento de Cristo, quando, pelo contrário, sê-lo-á da segunda vinda (...).

"E ele converterá o coração dos pais aos filhos" (...) Desta passagem fica patente, portanto, que no fim do mundo quase todos os judeus se converterão a Cristo, através de Elias. É o que defende São João Crisóstomo (Hom. 58, in Matthaei): "Elias restabelecerá todas as coisas, ele converterá à fé os judeus incrédulos, então remanescentes". E adiante: "Perguntarás, de que modo eles acreditarão? Elias restabelecerá todas as coisas, não certamente por ser apenas conhecido, mas porque, naqueles dias, ele estará mais refulgente com a glória do Senhor do que se estivesse envolto em raios de sol. E assim atrairá a todos com sua pregação, conduzindo-os à fé de Cristo.

O mesmo ensinam Santo Agostinho (De Civitate Dei, lib. V, cap. 29); Teodoreto (in cap. 12 Daniel.); São Gregório Magno (hom. 12 in Ezech.); São J. Damasceno (De Fide, lib. V, cap. 27); São Beda (in Marc., lib III, cap. 27); Teofilato (in cap. 17 S. Matthei); Santo Ambrósio, Vitorino e Ansberto (in cap. 11 Apoc.), e esta é a tradição comum dos Padres e da Igreja" [3].

"E darei às minhas duas testemunhas o poder de profetizar, revestidos de saco, durante mil, duzentos e sessenta dias (Ap 11, 3) (...) todos os demais asseveram a uma voz que, no fim do mundo, o companheiro de Elias será Enoch. Com efeito, consta que Moisés está morto. Enoch, porém, não morreu; foi arrebatado por Deus (Gen. 5, 24; Hebr. 11, 5), para que "exorte as nações à penitência" (Eccl. 44, 16).  Neste sentido interpretam Santo Ambrósio, Aretas, Ansberto, Haymo, Ricardo, Hugo, Santo Tomás, São Dionísio, Vatablo, citados e seguidos por Suarez (3 part. tomo 2, disp. LV, sec. 2, e mais largamente em De Antichristo, lib. V, cap. 11), Viegas e Ribera" [4].

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Fontes:
[1] Comentário ao livro de Malaquias, Cap.IV, Pe.Cornélio A Lápide, S.J. Traduzido por Renato M. Vasconcellos.
[2] Comentário ao livro do Apocalipse, Cap.11, Pe.Cornélio A Lápide, S.J. Traduzido por Renato M. Vasconcellos.
[3] Idem. Malaquias, Cap.IV.
[4] Idem. Apocalipse, Cap.11.