O Nazismo é de esquerda e Papas o condenaram. Refutação do suposto apoio de Pio XII ao nazismo

Recomendamos a leitura prévia de:

Artigos mostrando que a Igreja condenou o socialismo, o igualitarismo e a separação Estado-Igreja.

Dado a definição anterior de esquerda e direita no plano metafísico, o fato de que a Igreja condenou o socialismo, o igualitarismo e a separação Estado-Igreja, resta mostrar, a partir disso e de declarações diretas, que a Igreja condenou o fascismo e o nazismo, mais especificamente na figura de seus líderes, respectivamente, Benito Mussolini e Adolf Hitler.

Pelo próprio nome do partido

"Nazi" era uma abreviatura de "der Nationalsozialistische Deutsche Arbeiters Partei", Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.

Doutrina nazista claramente esquerdista tirada dos próprios ideólogos nazistas 

"Eu não sou apenas o vencedor do marxismo. Se se despoja desta doutrina seu dogmatismo judeu-talmúdico, para guardar dela apenas seu objetivo final, aquilo o que ela contém de vistas corretas e justas eu sou o realizador do marxismo" (Adolf Hitler, apud Hermann Rauschinning, Hitler m'a dit, Coopération, Paris 1939, pp 211. Rauschning foi Governador Nazista de Dantzig, e muito próximo de Hitler).

7. Nós exigimos que o Estado especialmente se encarregará de garantir que todos os cidadãos tenham a possibilidade de viver decentemente e recebam um sustento. Se não puder ser possível alimentar toda a população, então os estrangeiros (não-cidadãos) devem ser expulsos do Reich" (Programa do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães de 24 de fevereiro de 1920, Hofbrauhaus-Festsaal, Munique).

14. Nós exigimos participação nos lucros em grandes indústrias (Programa do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães de 24 de fevereiro de 1920, Hofbrauhaus-Festsaal, Munique).

16. Nós exigimos a criação e manutenção de uma classe média sadia, a imediata socialização de grandes depósitos que serão vendidos a baixo custo para pequenos varejistas, e a consideração mais forte deve ser dada para assegurar que pequenos vendedores entreguem os suprimentos necessários ao Estado, às províncias e municipalidades (Programa do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães de 24 de fevereiro de 1920, Hofbrauhaus-Festsaal, Munique).

17. Nós exigimos uma reforma agrária de acordo com nossas necessidades nacionais, e a oficialização de uma lei para expropriar os proprietários sem compensação de quaisquer terras necessárias para propósito comum. A abolição de arrendamentos de terra, e a proibição de toda especulação na terra (Programa do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães de 24 de fevereiro de 1920, Hofbrauhaus-Festsaal, Munique).

“Somos socialistas porque vemos a questão social como uma questão de necessidade e justiça para a própria existência de um estado para nosso povo e não como uma questão para piedade barata e sentimentalismo humilhante. O trabalhador tem direito a um padrão de vida que corresponda ao que produz” (“Die verfluchten Hakenkreuzler. Etwas zum Nachdenken”, 1932, Paul Joseph Goebbels, Chefe da propaganda nazista).

“Tal é nossa tarefa como Nacional-Socialistas. Nós fomos os primeiros a reconhecer as conexões, e os primeiros a começar a luta. Porque somos socialistas, sentimos primeiro as maiores bençãos da nação e porque somos nacionalistas quisemos promover a justiça socialista na nova Alemanha” (“Die verfluchten Hakenkreuzler. Etwas zum Nachdenken”, 1932, Paul Joseph Goebbels, Chefe da propaganda nazista).

Refutação da objeção: grandes empresas existiram no tempo do terceiro Reich

Sim, todas controladas em última instância pelo Governo Nazista.

A propriedade privada dos meios de produção existia apenas nominalmente. Era o governo alemão e não o proprietário privado nominal quem decidia o que deveria ser produzido, em qual quantidade, por quais métodos, e a quem seria distribuído, bem como quais preços seriam cobrados e quais salários seriam pagos, e quais dividendos ou outras rendas seria permitido ao proprietário privado nominal receber. 

Refutação da objeção: Hitler era contra o marxismo, logo, anti-esquerda

Primeiro, essa objeção em si é falsa, pois é possível ser socialista anti-marxista. Embora seja verdade que ele criticou o marxismo, principalmente no "Minha luta", Hitler era contra todos que não eram nazistas. O próprio diz: "Alguns de vocês podem não me perdoar por ter erradicado o partido marxista, mas meus amigos, eu erradiquei todos os outros partidos" (Discurso no dia 10 de Novembro 1933 na Indústria Seimens).

Pio XI (1922-1939) condenando o nazismo

A Encíclica "Mit brennender Sorge", de 10 de Março de 1937, escrita em alemão, foi lida no púlpito de todas as paróquias alemãs no domingo de ramos, dia 21 de Março daquele ano. O Pontífice começa falando da concordata com o governo nazista em 1933 que queria salvar os direitos da Igreja, e condena a quebra desse acordo, bem como a perseguição aos católicos que ela resultou.

"3 (...) no verão de 1933, a pedidos do Governo do Reich, aceitamos a retomar os esforços para uma concordata, tomando por base um projeto elaborado já vários anos antes, e chegamos assim a um acordo solene que satisfaz a todos vós, moviso pela obrigada solicitude de guardar a liberdade da missão salvadora da Igreja na Alemanha e de assegurar a salvação das almas a ela confiadas, e, ao mesmo tempo, o sincero desejo de prestar um serviço capital ao pacífico desenvolvimento e ao bem-estar do povo alemão. 

7 (...) Todavia hoje, quando a luta aberta contra as escolas confessionais, tuteladas pela Concordata, e a supressão da liberdade de voto para aqueles que tem direito à educação católica, manifestam, em um campo particularmente vital para a Igreja, a trágica gravidade da situação e a angústia, sem exemplo, das consciências cristãs, a solicitude paternal pelo bem das almas nos aconselha não deixar de considerar as possibilidades, por escassas que sejam, que ainda podem subsistir, de uma volta à fidelidade dos pactos (...).

8 (...) nos dirigimos a vós [bispos], e por vossa conduta, aos fiéis católicos da Alemanha, os quais, como todos os filhos que sofrem e são perseguidos, estão muito próximo do coração do Padre comum. Nesta hora em que sua fé está sendo provada, como ouro, no fogo da tribulação e da perseguição, insidiosa ou manifesta, e em que estão rodeados por mil formas de uma opressão organizada da liberdade religiosa, vivendo angustiados pela impossibilidade de ter notícias fidedignas e de poder defender-se com meios normais (...)".

Doutrina nazista condenada: paganismo germânico, racismo, culto de personalidade, etc:

"10. Quem, com uma confusão panteísta, identifica a Deus com o universo, materializando a Deus no mundo ou deificando o mundo em Deus, não pertence aos verdaderos crentes.

11. Nem tampouco o é quem, seguindo uma pretensa concepção precristã do antigo germanismo, põe em lugar de Deus pessoal o destino sombrio e impessoal, negando a sabedoria divina e sua providência, a qual se estende poderosa de um a outro extremo (Sab 8,1) e o dirige a um bom fim. Esse homem não pode pretender que seja contado entre os verdadeiros crentes.

12. Se a raça ou o povo, se o Estado ou uma forma determinada do mesmo, se os representantes do poder estatal ou outros elementos fundamentais da sociedade humana tem na ordem natural um posto essencial e digno de respeito, contudo, quem os arranca desta escala de valores terrenos elevando-lhes a suprema norma de tudo, ainda dos valores religiosos, e, divinizando-lhes com culto idolátrico, perverte e falsifica a ordem criada e imposta por Deus, está longe da verdadeira fé e de uma concepção da vida conforme a esta.

13. Vigiai, veneráveis irmãos, com cuidado contra o abuso crescente, que se manifesta em palavras e por escrito, de empregar o nome três vezes santo de Deus como uma etiqueta vazia de sentido para um produto mais ou menos arbitrário de uma especulação ou aspiração humana (...).

20 (...) Em consequência, aquele que com sacrílego desconhecimento da diferença essencial entre Deus e a criatura, entre o Homem-Deus e o simples homem, ousasse por ao nível de Cristo, ou pior ainda, sobre Ele ou contra Ele, a um simples mortal, ainda que fosse o mais grande de todos os tempos, saiba que é um profeta de fantasias (...)".

Pio XII (1939-1958) condenando a invasão nazista à Polônia, o regime totalitário que era usado pelos nazistas, e seu paganismo

"22 (...) A tão decantada laicização da sociedade, que tem feito progressos cada vez mais rápidos, subtraindo o homem, a família e o Estado ao benéfico e regenerador influxo da idéia de Deus e do ensino da Igreja, fez ressurgir, em regiões onde por espaço de tantos séculos brilharam os fulgores da civilização cristã, indícios, cada vez mais claros, mais distintos e angustiosos de um paganismo corrompido e corruptor: "Quando crucificaram Jesus obscureceu-se toda a terra" (...).

52. A concepção que atribui ao Estado uma autoridade ilimitada, veneráveis irmãos, não é somente um erro pernicioso à vida interna das nações, à sua prosperidade e ao maior incremento do seu bem-estar, mas prejudica também as relações entre os povos, rompendo a unidade da sociedade supernacional, tirando a base e o valor ao direito das gentes, abrindo caminho à violação dos direitos alheios e tornando difícil o acordo para a convivência pacífica (...).

72. (...) Os povos arrastados para essa trágica voragem, que é a guerra, estão ainda, por assim dizer, no "princípio das dores" (Mt 24, 8), mas reinam já, em milhares de famílias, morte e desolação, pranto e miséria. Do sangue de inúmeros seres humanos, mesmo de não combatentes, desprende-se lancinante brado, especialmente nessa dileta nação como a Polônia que, pela sua fidelidade à Igreja, pelos seus grandes méritos na defesa da civilização cristã, gravados em caracteres indeléveis nos fatos da história, tem direito à simpatia humana e fraterna do mundo (...)" [1].

Respondendo calúnias sobre sua suposta ajuda aos nazistas.

Sendo Eugenio Pacelli, quando Cardeal, secretário de Estado, nunca contradisse, antes colaborava junto de Pio XI. No tempo de sua eleição, já era conhecido pelos mesmos esforços contra o nazismo e o fascismo.

Em 1937, quando Pio XI foi felicitado na publicação de sua Encíclica denunciando o Nazismo, "Mit brennender Sorge", sua resposta foi apontar para o seu Secretário de Estado e dizer desajeitamente: "O crédito é dele" [2].

Dimitri Cavalli, escrevendo para o "Inside the Vatican" [3], nos conta como os próprios judeus ficaram felizes com a eleição de Pio XII, quando a Itália estava implementando as leis raciais nazistas. Esses mesmos judeus agradeceram os esforços do Papa contra estas ideologias no fim da guerra:

"Aplaudindo a eleição do Cardeal Pacelli, o "Jewish Chronicle" (Crônica Judaica) de Londres, 10 de Março, citou um discruso anti-Nazista que ele fez em Lourdes, em Abril de 1935, e também citu as hostis declarações contra ele na imprensa Nazista. "É interessante lembrar (...) no dia 22 de Janeiro [1939], o "Voelkischer Beobachter" publicou fotos do Cardeal Pacelli e outros dignatários da Igreja sob o título de "Agitadores no Vaticano contra o Fascismo e o Nacional Socialismo"', citou o "Jewish Chronicle".

Também no dia 10 de Março, o "Canadian Jewish Chronicle" (Crônica Judaica Canadense) elogiou o Cole´gio de Cardeais por resistirem às tentativas nazistas de influenciar a eleição e impedir o Cardeal Pacelli de se tornar Papa. "O plano para abafar o anel do pescador foi embora com a fumaça branca" o editorial brincou.

Muitas organizações judaicas também expressaram seu entusiasmo pela novo Papa. De acordo com "Jewish Chronicle" de Londres (10 de Março), o Vaticano recebeu mensagens parabenizadoras da "Comunidade Anglo-Judaica, da "Sinagogue Council of America", do Congresso Judaico Canadense, e do Conselho Rabínico Polonês."

A decisão de Pio XII de nomear Luigi Cardeal Maglione como o novo Secretário de Estado do Vaticano também trouxe reações favoráveis. O "Zionist Review" no dia 16 de Março de 1939 em Londres disse que a nomeaçaõ do Cardeal "confirma a visão que o novo Papa pretende conduzir uma política anti-Nazista e anti-Fascista (...).

No dia 11 de Outubro, o "World Jewish Congress" (Congresso Mundial Judaico) doou $20,000 para os centros de caridade do Vaticano. De acordo com o "New York Times" (12 de Outubro de 1945), o presente foi "feito em reconhecimento do trabalho da Santa Sé em salvar judeus das perseguições dos nazistas e fascistas". 

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[1] Encíclica "Summi Pontificatus", 20 de Outubro de 1939
[2] Pham, John Peter. 2006. Heirs of the Fisherman: Behind the Scenes of Papal Death and Succession. Oxford University Press, p. 45
[3] The Good Samaritan: Jewish praise for Pope Pius XII, Dimitri Cavalli, Inside the Vatican © 2000, Urbi et Orbi Communications, October 2000, pages 72-77