A imposição de mãos dos leigos carismáticos para abençoar e curar está de acordo com a Tradição Católica ?

Já refutamos o falso "dom de línguas" carismático no link abaixo. Hoje tratamos da imposição de mãos*. O trecho do vídeo acima (a partir de 23:50) representa a procissão em que Santa Teresa participou com o Arcebispo comentada nesse artigo.

"Dom de Línguas" dos "carismáticos" refutado pela Bíblia e os Santos. Refutação de objeções

Atualmente, vemos muitos meios "carismáticos" promoverem a imposição de mãos, e, tendo em vista os inúmeros erros, além do progressismo basilar, que ali existe, decidimos estudar a questão para dar uma resposta concreta para este assunto que envolve muitas falsas concepções até por parte de quem condena (corretamente) a prática como é feita nos movimentos dito carismáticos.

Para emitir um juízo correto sobre a imposição de mãos, se ela é lícita em algum caso, precisamos saber, com a ajuda da Enciclopédia Católica Americana, onde na Igreja a imposição de mãos existe: (1) No batismo do rito tradicional, quando o padre impõe as mãos durante a "preces nostras", e de novo depois do exorcismo. Tertuliano menciona a imposição no batismo nos seus dias (de Bap., VI, VII, &c.). (2) Na penitência o ministro meramente eleva a sua mão durante a absolvição. É um costume, não faz parte do sacramento dado que a forma da absolvição são as palavras da absolvição, e a matéria o pecado. (3) Na extrema unção tradicional não há imposição de mãos nas rubricas, apesar de que na prece imediatamente antes da unção as palavras "per impositionem manuum nostrarum" ocorrem. (4) É empregada em quase todos os tipos de bênçãos de pessoas e coisas. Abades e virgens são assim abençoados (cf. "Roman Pontifical and Ritual"). (5) Na reconciliação de penitentes públicos e na recepção de cismáticos, hereges, e apóstatas na Igreja, as mãos eram formalmente, e ainda são impostas (cf. Duchesne, "Christian Worship", pp. 328, 435, St. Cyprian, De Lapsis 16). (6) No exorcismo dos obsediados por maus espíritos (cf. Ritual Romano, Titus, x, cl). (7) Na missa tridentina em vários momentos o padre impõe as mãos sobre os objetos litúrgicos, oferendas, etc. (8) Na ordenação de sacerdotes. (9) No rito da crisma junto do óleo.

Portanto, primeiramente, um leigo não pode administrar sacramento algum, exceto em caso de necessidade ou delegação, se for possível, dado que o estado de leigo impede o poder de conferir alguns sacramentos. Por isso, fora dessas condições, não pode impor as mãos durante o batismo, penitência, extrema unção, nos objetos litúrgicos na missa, na reconciliação dos penitentes públicos, no exorcismo, na ordenação, no crisma

Mas aqui não falamos da intenção de abençoar fora destes atos, tirando o caso dos objetos litúrgicos, visto que abençoá-los faz parte da missa e o leigo não pode de maneira alguma tomar parte na função que compete somente ao sacerdote na missa. Assim, falta analisar agora o impor as mãos nas bênçãos várias e visando a cura. Antes, refutemos algumas falsas concepções.

Condenação de Pio XII da imposição de mãos por leigos ?

"Somente aos apóstolos e àqueles que, depois deles, receberam dos seus sucessores a imposição das mãos, é conferido o poder sacerdotal em virtude do qual, como representam diante do povo que lhes foi confiado a pessoa de Jesus Cristo, assim representam o povo diante de Deus (...)". (Encíclica "Mediator Dei").

Ora, qualquer um que não lê isso apressadamente vê que o Papa não fala da imposição como a dos "carismáticos", mas do poder sacerdotal que é passado somente por esse ato, matéria do sacramento da ordem. Um leigo só podia fingir ter o poder de ordenar sacerdotes, visto que isto é próprio do Bispo.

A imposição de mãos carismática por leigos é Bíblica ?

Alguns poderiam alegar alguns versículos para embasar a normalidade da imposição de mãos "carismática", mas dar esta interpretação é dar uma interpretação neo-pentecostal protestante, e negar a correta interpretação da Igreja desde os tempos antigos, oriunda da Tradição Apostólica, que é a seguinte: ordenação de diáconos (Atos 6:1-6), rito da crisma, pois "somente tinham sido batizados" (Atos 8:14-17), rito do batismo, seguido de crisma, e depois de milagre (Atos 19:1-7), referência à graça vinda do sacramento da ordem (1 Tim 4:14, 2 Tim 1:6), referência à doutrina da imposição de mãos (Hb 6:2).

A imposição de mãos de leigos para curar a pessoa

Nosso Senhor curava as pessoas com a imposição de mãos (Mc 5:23, 6:5, 7:32, 8:22-25, Mt 9:18, Lc 6:19, 4:40, 13:13). Os discípulos faziam o mesmo (Atos 9:12-17, 28:8). O Salvador próprio falou que a cura viria com a imposição de mãos aos que crerem:

“Disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o Evangelho a toda a criatura. O que crer e for batizado, será salvo, o que, porém, não crer, será condenado. Eis os milagres que acompanharão os que crerem: Expulsarão os demônios, em meu nome, falarão novas línguas, manusearão as serpentes, e, se beberem alguma mortífera, não lhes fará mal; imporão as mãos sobres os enfermos e serão curados” (Mc 16:15-19).

A cura pela imposição de mãos Nosso Senhor prometeu aos que crerem, não há restrição de pessoas aqui, é verdade. Mas ele prometeu a cura, logo, se não há cura em uma imposição de mãos é uma falsa imposição, falta fé por parte do crente, e ele não deve repetir o ato, ficando a rezar pelo doente sem tocá-lo.

Há, também, a questão da chamada cura pela "energização" da pessoa, através da imposição das mãos. Apesar de não conhecermos uma condenação clara de algum Papa sobre o Reiki, só pela filosofia pagã por trás da prática, inventada por um budista, não é lícito aos católicos promoverem, ou irem em uma sessão de Reiki. Se a imposição de mãos, através do campo bio-magnético do homem, beneficia fisiologicamente o homem sofrendo a imposição, é tarefa da ciência experimental avaliar sem ferir as regras da moralidade com toques indevidos. Se confirmada, não poderia esta terapia ser misturada com nenhum tipo de misticismo, católico ou não, e ainda mais por uma filosofia pagã, dado que seria puramente médica.

A imposição de mãos de leigos para rezar pela pessoa ou abençoar

Antes, precisamos mostrar, que ao contrário do que muitos pensam, os leigos podem abençoar, até mesmo sacerdotes. No entanto, a análise minuciosa mostra como isso é diferente da prática "carismática".

Santa Teresa de Jesus (1515-1582) abençoou até um Arcebispo, que se colocou de joelhos para tal: “Como nada se opunha à abertura da nova casa, as Irmãs tomaram posse dela no dia 1 de Maio de 1576. Havia sido seu desejo fazê-lo no silêncio, às escondidas, mas o Padre Garcia Alvarez insistiu em que se devia fazer uma celebração pública, a qual se realizou, com grande pompa e regozijo, no dia 3 de Junho. Nela o venerável Arcebispo levou o Santíssimo Sacramento pelas ruas antigas, desse uma das igrejas paroquiais, seguido da maioria do clero da cidade e de grande número de confrarias, formando assim uma brilhante procissão, enquanto acorriam as multidões para aplaudir e admirar, davam-se salvas de artilharia. Foi uma grande festa de justificação e desagravo para a madre Teresa de Jesus (a Santa havia sido duramente caluniada anteriormente). Para que tudo alcançasse seu ponto culminante, quando ela pediu a bênção ao Arcebispo, este, ajoelhando-se diante da freira, pediu que ela lhe desse a sua bênção, o que ela fez diante de toda a multidão” [1]

Santa Rosa de Lima (1586-1617), terceira dominicana, abençoava os presentes e ausentes: “E depois, pedindo-lhe Dona Maria de Uzátegui, a rogo de algumas pessoas que estavam presentes, que lhes desse sua bênção, reparou um instante e levantou-se, por fim virou-se e disse erguendo o braço: “A bênção do Padre, do Filho e do Espírito Santo, com todos os seus dons e graças desça sobre estas senhoras e sobre todas as demais amigas e conhecidas que estão presentes e ausentes, e as cumule de seus bens, para que os gozem eternamente, depois pediu que chamassem as filhas do Contador e fez para elas uma prática espiritual, exortando-as à virtude (...) deu-lhes também sua bênção [2].

Outros casos podiam ser contados, como o de São João Berchmans (1599-1621), São Luís Gonzaga (1568-1591), etc.

O teólogo Padre Royo Marín explica isso: “Resposta: Trata-se de simples bênçãos invocativas, a modo de oração, mas não constitutivas, como a dos Sacerdotes. A diferença consiste em que as bênçãos meramente invocativas não deixam benta a coisa mesma, mas se limitam a invocar sobre ela o favor ou a bênção de Deus ou da Santíssima Virgem. Pelo contrário, a bênção constitutiva, dada pelo Sacerdote, deixa benta a coisa mesma (por exemplo, um crucifixo, um terço, uma medalha, a comida, etc.). O leigo pede a Deus ou a Nossa Senhora que abençoe o que ele abençoa, o Sacerdote abençoa por si mesmo, em virtude de seus poderes sacerdotais. A bênção do Sacerdote é um sacramental, a do leigo ou do simples religioso não o é.

2ª pergunta: É lícito que simples leigos deem a bênção a outras pessoas, invocando o nome de Deus ou de sua Santíssima Mãe ?

Resposta: Sim, no sentido que acabamos de explicar.

3ª pergunta: Em caso afirmativo, quais as condições para que o leigo possa dar essa bênção ?

Resposta: Faça-o com humildade e devoção, sem se dar nenhuma importância.

4ª pergunta: Em que consiste propriamente essa bênção, do ponto de vista teológico e canônico ?

Resposta: É uma simples deprecação, não um sacramental, como a do Sacerdote.

5ª pergunta: Em que se diferencia essa bênção, da bênção litúrgica dada pelo Sacerdote ou por um Superior Religioso, em nome da Igreja ?

Resposta: Já está dito. Tome-se em consideração que o Superior Religioso, se não é Sacerdote, não abençoa em forma de sacramental. Somente os Sacerdotes e Diáconos gozam deste poder sagrado.

6ª pergunta: E, por outro lado, qual é a diferença entre a bênção dada por leigos e a que costumam dar, em certos lugares, os pais a seus filhos, os padrinhos a seus afilhados, os tios a seus sobrinhos, e até pessoas mais idosas a crianças ou jovens ?

Resposta: Nenhuma diferença. Todos são leigos.

Antonio Royo Marín OP, Madrid, 14 de Fevereiro de 1984” [3].

Sabe-se, pela Escritura, que Jacó impõs as mãos sobre seus netos, Efraim e Manassés, para abençoá-los (Gn 48:14). Moisés foi ordenado por Deus para impor as mãos sobre Josué (Nm 27:18, 27:23) para fazê-lo líder e sucessor de Moisés. 

Logo, a imposição de mãos para abençoar não é si ruim, tendo em vista o que ela realmente significa. Uma imposição nos filhos, como fez Jacó, não poderia ser repreendida.

Problema do igualitarismo na prática carismática que a diferencia do tradicional

Os movimentos ditos "carismáticos" ao promoverem uma total liberdade para impor as mãos, sem que o que impõe seja nem padrinho do outro, nem um dos pais, nem diretor espiritual, nem um profeta ou profetisa, mas seja um semelhante ou inferior à ele, promove um igualitarismo, uma dissolução da hierarquia, e um falso misticismo, oriundo de uma mentalidade que trata a religião como atos externos ou sensibilidade, como explica São Pio X sobre este tipo de crente:

“Se, porém, procurarmos saber que fundamento tem esta asserção do crente, respondem os modernistas: é a experiência individual. — Com esta afirmação, enquanto na verdade discordam dos racionalistas, caem na opinião dos protestantes e dos pseudo-místicos. Eis como eles o declaram: no sentimento religioso deve reconhecer-se uma espécie de intuição do coração (...)" [4].

Também erram ao fazerem tais práticas na frente de todos, promovendo até uma espécie de vaidade e se aproximando do neo-pentecostalismo. Se o Arcebispo de Sevilha pediu a bênção de Santa Teresa na frente da multidão, após a procissão, foi para reconhê-la como profetisa e desagravar as perseguições que ela havia sofrido, ao contrário da prática carismática, que faz perante a multidão para reconher um igualitarismo entre todos, e não para rezar pela pessoa, o que poderia ser feito sem isso.

Conclusão

Nenhum leigo pode impor as mãos como se participasse ou fizesse parte de algum modo da investidura do batismo, penitência, extrema unção, bênção dos objetos litúrgicos na missa, reconciliação dos penitentes públicos, exorcismo, ordenação, crisma, quando não estivesse administrando tais sacramentos, se isso for possível dado o tipo de sacramento que inviabiliza o leigo de administrar, e dado o estado de necessidade ou delegação. Quem faz isso promove um igualitarismo entre leigo e sacerdote, ofende a hierarquia da Igreja feita por Nosso Senhor, e está imbuído da mentalidade modernista progressista niveladora.

Um leigo que impõe as mãos para abençoar ou rezar pela pessoa, sem que seja nem padrinho do outro, nem um dos pais, nem diretor espiritual, nem um profeta ou profetisa, mas seja só um semelhante ou inferior à ele, promove um igualitarismo entre leigo e sacerdote, ofende a hierarquia da Igreja feita por Nosso Senhor, e está imbuído da mentalidade modernista progressista niveladora, ainda mais quando faz na frente de uma multidão.

O leigo que impõe a mão para curar baseado na promessa de Nosso Senhor (Mc 16:15-19), mas sem uma revelação particular, ou algo como uma atração fortíssima para a confiança na providência de que vai curar, já age por um tipo de superstição. Ainda mais se faltando estas condições sobrenaturais, ele achar que tem de fazer na frente de todos. Mas se, enganado por qualquer falsa impressão, vier a fazer e não obter sucesso, Deus e o confessor saberão se agiu por ignorância ou não, mas cabe aos outros terem um cuidado com tal pessoa a partir disso, mantendo-a longe da prática para repelir o começo de qualquer falso misticismo. A pessoa deve continuar a rezar pelo doente sem tocá-lo.

Vidas de Santos: davam bênçãos mesmo sendo leigos, as pessoas ajoelhavam-se diante deles e osculavam-lhes os pés

Clique aqui para ver mais Doutrina Católica contra erros em relação à vida católica ou sensus fidei

-----------------------
*Do livro "O Príncipe dos Cruzados" (volume 2)
[1] William Thomas Walsh, Santa Teresa de Ávila, Espasa-Calpe, Madrid, 1951, pgs.486-487.
[2] Fray Pedro de Loayza OP, Vida de Santa Rosa de Lima, Iberia, Lima, 1965, p. 100. Pode reimprimir-se: Mario Cornejo, Obispo Auxiliar e Vicario General.
[3] Refutação da TFP a uma investida Frustra Volume II, pg.346-349.
[4] Encíclica Pascendi Dominici Gregis, 8 de setembro de 1907, no.2.