Educação católica dos filhos: como agir perante concubinos, adúlteros, gente que coabita dizendo manter a castidade e pai/mãe solteiro

Do livro "O Príncipe dos Cruzados" (inédito).

Infelizmente, não conseguimos encontrar uma fonte segura, isto é, um livro de teólogo ou algo semelhante, para repetir algumas afirmações colocadas a seguir. No entanto, todas elas são baseadas na experiência de gente que viveu na época da Igreja quando ela era toda tradicionalista, além de serem conclusões tiradas da doutrina católica e do senso-comum que procede dela. Pessoas mais velhas e de longa estrada na tradição poderiam confirmar a doutrina que expomos.

- Erro: receber em sua casa ou ir à casa de alguém, mesmo parente, que vive em concubinato/adultério, seja só, seja junto da pessoa com a qual este(a) comete o pecado

Um católico não deve receber na sua casa, no íntimo de seu lar, alguém que vive em estado de pecado escandaloso junto do parceiro(a), pois enfraquece o rechaço ao pecado na Igreja, na sociedade, para a pessoa, no exemplo aos filhos, e na própria pessoa que recebe. Vejamos esses motivos antes de avaliarmos se há uma situação na qual se pode encontrar com este pecador (a):

1) Na Igreja, pois é dar um exemplo de que os católicos podem ter qualquer tipo de companhia, qualquer tipo de amigo, e que o pecado escandaloso não merece rechaço público por parte dos católicos. "Quando vos escrevi que não tratassem com tais sujeitos, quis dizer que se aquele que é do número de vossos irmãos, é desonesto ou avarento (...), com tal, nem deveis comer" (I Cor 5).

2) Para a pessoa pecadora, pois o rechaço seria um incentivo para ela não pecar ou continuar no seu estado, e a aceitação, um modo de dizer que não há nada de grave.

3) Na sociedade, pois esta deveria refletir a moral da Santa Igreja, e os infiéis ali também veriam que os católicos não acreditam seriamente nas verdades que pregam.

4) Aos filhos, pois precisam ser educados de acordo com a doutrina cristã, e se não for o caso, em alguma idade podem trazer problemas grandes aos seus pais pela imoralidade da vida, o que seria uma espécie de castigo aos pais, permitido por Deus, pelo relaxamento do ensino da moral.

5) Na própria pessoa anfitriã, pois assim, gradualmente, se vai perdendo todo o sentido do que é pecado e das más companhias.  

Há casos em que é inevitável receber? Pensemos no caso de ser o patrão que por algum motivo virá à sua casa ou esse pecador público se prontificou para ajudar em determinada tarefa em casa que só ele saber fazer, etc. No entanto, a relação nestes casos normalmente caem em relações profissionais, ou de favor, ou seja, já fogem do âmbito social em que falamos. É preciso o dono da casa tomar cuidado que não seja isso uma brecha para uma familiaridade dentro da casa, como se não viesse só para esta relação não-social.

Não se deveria receber nem a pessoa sozinha? Essa é uma questão que depende do contexto, do tipo de relação. No caso de uma relação puramente profissional, como um enfermeiro, é lícito. Dentro de uma relação social, vale o que dizia Dr.Plinio, alegando estar ensinando o que moralistas católicos sempre ensinaram: "receber em casa, de maneira a significar apreço, confiança, paridade de situações, igualdade de condições morais, não pode", "ainda que fossem parentes muito íntimos, ou muito chegados, como por exemplo, irmão ou irmã do pai ou da mãe de família (...) porque o estado de concubinato é um estado de infâmia" [1]. Por isso, muitos menos se pode receber em sua casa junto do(a) pecador(a), ou ir à casa desta pessoa, onde ambos estão e cometem este pecado, fora destes casos de relação profissional e equivalentes.

Não se deveria mais falar com estas pessoas? Se poderia encontrar em um lugar público, se for uma amizade que somente existe ao redor de um assunto específico, como dois maestros que gostam de conversar sobre música uma vez a cada quinze dias. Novamente, tenha-se cuidado para a amizade não ultrapassar os limites desta relação. É preciso saber que nunca se terá uma amizade no sentido pleno com os que são do mundo: "não trateis com os desonestos (...) Claro que não digo dos desonestos deste mundo (...) do contrário seria necessário que saíssem do mundo" (I Cor 5).

- Erro: aceitar ou não repudiar "ex-concubinos" que vivem juntos alegando seguir a castidade, ou que frequentam a casa de um e de outro, ou que fazem outras coisas que dão aparência de pecado

Pelo simples fato de que a aparência de pecado é pecado. Se alguém entra em uma casa de perdição, mesmo que não faça nada lá dentro, ou só entre para sair, esta pessoa deu a impressão de pecado e escandalizou.

Além deste detalhe, já falamos em outro artigo sobre a questão dos que vivem juntos poderem manter a castidade, primeiramente inventada pelo Papa João Paulo II:

"Não se deve negar que tais pessoas podem ser recebidas, dando-se as condições, ao Sacramento da penitência e depois à Comunhão eucarística. Dá-se isto quando sinceramente abraçam uma forma de vida que não se opõe à indissolubilidade do matrimônio — isto é, quando o homem e a mulher, que não podem cumprir a obrigação de separação, tomam o compromisso de viver em perfeita continência, ou seja, abstendo-se dos atos só próprios dos cônjuges —  e quando não há motivo de escândalo" [2]

Trata-se aqui de um casal em que ambos, ou pelo menos uma das partes, já tem casamento indissolúvel com outra pessoa. Este casal se juntou pecaminosamente, e teve filhos, ou se juntou para poder criar os filhos do casamento anterior, e não teve ou teve filhos nesta união pecaminosa. João Paulo II, também em uma exortação apostólica, afirma a razão para eles morarem juntos: "por motivos sérios - quais, por exemplo, a educação dos filhos" [3]. Mas, segundo este Papa, não viverão em pecado se manterem a continência, e assim podem continuar, "quando não há motivo de escândalo".

Daí perguntamos: como fica a ocasião de pecado próxima entre ambos que moram juntos? Dividirão a mesma cama? Ou terão quartos ou camas separadas? E mesmo se for separados dentro da casa, como fica a ocasião próxima de pecado, ensinada por tantos doutores e teólogos da Igreja, como S.Afonso Maria de Ligório? 

Quem garante que, um casal vivendo e se apresentando assim em público, poderá convencer os outros da continência praticada por eles, e com isso não criar "motivo de escândalo"? 

Como os filhos, criados neste ambiente, entenderão que não se trata de um "casamento", visto as crianças pequenas não entenderem a questão da continência ainda? Como eles podem crer, não tendo conhecido o genitor ausente (e não morto), que a outra pessoa vivendo com seu genitor presente não é seu genitor real? E se, tendo conhecido, essa criança por acaso deixará de pensar que aquela pessoa veio para substituir seu genitor ausente (e não morto), e que agora ela tem dois pais ou mães? A figura do genitor ausente dentro de casa, mas que ainda encontra com seu filho, na educação da criança, não estará confusa? 

Por que não são apresentadas alternativas melhores para sanar qualquer deficiência que a separação dos corpos possa trazer à educação da prole: familiares, colégios internos católicos, casais amigos, etc?

Estas perguntas são todas retóricas, a tradição católica permanece: dar aparência de pecado é pecar, é escandalizar.

Diz o Papa Francisco em trecho que podemos usar como objeção ao que defendemos:

"298 (...) Há também o caso daqueles que fizeram grandes esforços para salvar o primeiro matrimônio e sofreram um abandono injusto, ou o caso daqueles que "contraíram uma segunda união em vista da educação dos filhos, e, às vezes, estão subjetivamente certos em consciência de que o precedente matrimônio, irremediavelmente destruído, nunca tinha sido válido" [4].

Resposta: O Código de Direito Canônico promulgado pelo próprio João Paulo II deixa claro: “Não se pode contrair validamente matrimônio sob condição de um fato futuro” (CDC, Cân. 1102 §1). O matrimônio, sob condição de futuro, não pode ser realizado (se for realizado ele é nulo, inválido). Por exemplo, se a pessoa coloca seu consentimento como dependente de um fato futuro não houve consentimento, porque esse consentimento, indispensável ao sacramento, não é real, mas virtual. 

Do mesmo modo, não se pode viver matrimonialmente estando "subjetivamente certos em consciência de que o precedente matrimônio nunca tinha sido válido". Isso porque depende da confirmação (futura) de nulidade pela autoridade eclesiástica competente, e desta depende o casamento de fato do casal que já coabita. Viver matrimonialmente antes disso, além de ser coabitação porque a Igreja não reconheceu o casamento ali, seria condicionar uma situação a uma decisão futura porque é essa decisão que autoriza, não a subjetividade do casal. Assim, se um padre não pode celebrar o casamento de um casal onde pelo menos um espera o futuro reconhecimento de nulidade do matrimônio anterior, muito menos o casal pode viver junto. O mesmo se diga da licitude de uma pessoa na mesma situação começar um namoro ou noivado, que é um preparo ao casamento.

- Erro: tratar mãe ou pai solteiro como se não o fossem, isto é, promover uma vida social normal, dar posições de prestígio na Igreja e em grupos católicos

A atitude correta, nestes casos, é apoiar a prole, mostrando censura ao pai ou mãe solteiro. Assim, não se deve ir à nenhum chá de bebê da mãe solteira, ou mostrar de algum modo que o estado desta mãe ou pai é normal. Não significa olhar com ódio, mas manter uma distância que deixe claro, com educação, o motivo desta mesma distância. Os 4 motivos acima para o primeiro item se aplicam para este caso também.

E se a pessoa tiver se arrependido? Melhora a imagem e a situação dela perante a vida social católica, mas só isso não muda a situação de que ela é mãe e solteira, então continua um exemplo do que não é normal, mesmo fora do pecado. Sua situação seria muito mais aceitável do que a do concubinato ou adultério acima referida, mas pela marca que fica na pessoa, não se deve favorecer uma vida social normal para ela, mas uma pequena, com a companhia e até visita de pessoas maduras e mais velhas que possam criar um convívio moralmente são que talvez faltasse antes levando a pessoa ao pecado. E o clero deve favorecer de todo modo a vida espiritual desta pessoa, e ela pode e deve ouvir de palestras da Igreja, mas nunca ter o papel ou status semelhante ao das antigas viúvas que fala S. Paulo que o ajudavam no mantimento da Igreja e da recepção das mulheres, porque estas viúvas necessitavam ter "praticado todo tipo de virtude" (1 Tim 5).

Como nos conta o Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, católico que viveu a época da Igreja que seguia a moral integralmente, e influenciava a civilização com ela, "se se fazia um ato sexual fora do casamento com uma moça, o pai ou o irmão iam na polícia pedir o casamento". Ora, se entendia que ambos os pecadores eram católicos também, porque casamento misto nunca foi visto com bons olhos pela Santa Igreja, mas o mais importante é notar como a posição era de desonra, não só para a moça, para a família, e uma posição de desonra na sociedade é uma posição inferior, igual à que mostramos ser necessária dado a situação da mãe ou pai solteiro. Quer dizer, uma posição desonra devia ser inferior numa sociedade anti-igualitária, com senso da hierarquia e do pecado, uma sociedade que deveria ser promovida por todo católico [5].

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[1] Reunião sobre seu livro "Nobreza...nas alocuções de Pio XII", 2 de Janeiro de 1993. Link: https://www.youtube.com/watch?v=YErQIm-5VlU
[2] Capela Sistina, 25 de Outubro de 1980, Missa no encerramento da V Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos. Link: http://w2.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/homilies/1980/documents/hf_jp-ii_hom_19801025_conclusione-sinodo.html
[3] Exortação Apostólica Familiaris Consortio, 22 de Novembro de 1981, No.84. Alguns, como Dom Athanasius Schneider, em declaração ao site “Rorate Coeli”, 3-11-2015, endorsam esta posição dizendo: "Esta prática da Igreja baseia-se na Revelação divina da Palavra de Deus, tanto aquela contida nas Sagradas Escrituras quanto a transmitida através Tradição".
[4] João Paulo II, Exort. ap. Familiaris consortio, Idem, sendo citado pela Exortação Apostólica de 19 de Março de 2016, "Amoris laetitia: Sobre o amor na família"
[5] Palavrinha aos baianos da TFP, 30 de junho de 1987. Link: https://www.youtube.com/watch?v=b1DxgQaGB-E