Teoria dos Três Animais Príncipes, resposta à objeções

Alegada réplica do tamanho original da Arca de Noé
Do livro O Príncipe dos Cruzados (2ed.)

Existem diversas objeções ao dilúvio bíblico que citam o tamanho da Arca de Noé como insuficiente para caber todos os animais. Embora estejam equivocadas pelo viés naturalista-materialista que possuem, pois duvidam do poder de Deus, existem teses teológicas de que não entraram todos os animais existentes, mas um casal de um tipo principal de cada ramificação, da onde surgiram, por algum meio milagroso ou não, todos os outros posteriores. 

Uma teoria que se enquadra nesta categoria de teses é a Teoria dos Três Animais Príncipes, que é original nossa, mas usa muito de dados teológicos e teses já defendidas. A seguir apresentamos o que consideramos as provas desta Teoria, tratando das objeções ao final.

Primeiro, resumamos quais animais entraram na Arca segundo a Teoria, antes de provar que foram estes. Entraram, das três classes bíblicas de animais, já que era desnecessário salvar os aquáticos, sete casais de animais puros (não especificados). Estes entraram para serem posteriormente sacrificados, e junto deles entrou um casal impuro dos terrestres e sete casais de aves (Gn 7:2-3). Sabemos que o corvo era um dos impuros e a pomba, um dos puros, já que ambos foram soltos por Noé antes do desembarque. A Vulgata diz que Noé sacrificou logo ao sair da Arca todos (do latim "cunctis") os animais, que se crê que eram os puros (exceto a pomba), porque se ofereciam a Deus, e porque a Bíblia diz que Noé tomou todos os animais e aves para seu sacrifício (Gn 9:20), portanto, sobrou somente o casal impuro, se crermos em nossa interpretação, o que não é um problema para existência posterior de animais puros no mundo, que é explicada por esta teoria dos três animais principais presidindo as três classes.

Toda a biodiversidade animal dos voadores e terrestres entrou na Arca segundo o seu gênero (in genere suo), isto é, entraram os animais principais que presidem ao gênero, dois deles, pois destes gêneros saíram todos as espécies de animais, já que estes animais pré-diluvianos principais tem em si o princípio dos outros animais posteriores, existentes aos milhares hoje, o que se harmoniza paralelamente com a própria história do primeiro homem, Adão, que tinha em si toda a humanidade. Sendo animais sobreviventes do paraíso terrestre, pode-se dizer que foram se afastando do homem a medida que o homem se afastava do domínio da natureza desde a queda, e conforme os desígnios misteriosos de Deus, vivem ocultos dos homens, embora tenham sido citados entre os autores católicos, além da própria Escritura. 

As ossadas dos dinossauros, animais extintos poderiam muito bem ser uma prova da existência de animais que os três principais geraram no começo do mundo e pouco depois de Noé, os quais eram bem parecidos a eles mesmos pela complexidade e tamanho, como veremos mais adiante. Assim, esses três animais principais, depois do dilúvio, geraram outros animais, obedecendo em certo grau ou não aos homens de seu tempo (resquícios do paraíso terrestre quando obedeciam Adão), e a capacidade destes animais é de tal maneira excepcional, que encheram a terra com os animais que existem hoje. Ambos estes animais eram impuros, por possuírem toda a capacidade de sua classe, tanto dos impuros, quanto dos puros, além de ter esta missão de gerar outros, por ordem de Deus, sendo impossível comê-los ou matá-los, entre outras coisas mencionadas na Escritura, tratadas abaixo, que dão a entender que é impossível capturá-los com toda e qualquer força humana.

Estes três animais príncipes são o Leviatã, Behemoth e Ziz, respectivamente os três que presidem os animais da água, da terra e do ar. 

Provas da existência e ofício do Leviatã, príncipe dos animais aquáticos

Ele é citado com detalhes na Sagrada Escritura (Livro de Jó, Cap. 41), e relacionado com o Diabo (Is 26:21), mas simbolicamente, por habitar o fundo do mar, próximo do centro da terra, onde tradicionalmente se entende como a localização do inferno, além de estar relacionado com o "monstro ou dragão" que nada nos mares (Sl 104:26, Ez 29:3, 32:2), o "dragão marinho" (Amós 9:3), o peixe grande que engoliu o profeta Jonas. 

A Escritura duvida de quem possa pescá-lo, prendê-lo, fala que ele solta fogo pela boca (daí "dragão"), habita até os mares profundos, e pode fervê-lo com suas bufadas, além de fazer vários elogios no sentido de declarar que é um animal aquático colossal diferente de qualquer outro existente terra. Isto porque, como dissemos, ele é o príncipe dos animais aquáticos, ou como diz o livro Sagrado: "é o rei de todos os animais soberbos", isto é, os aquáticos, tipo de animal incapaz de ser domado, por isso "soberbos", além de que, no simbolismo duplo, os "soberbos" são os demônios, porque esses animais principais também representam chefes do inferno, como mostraremos adiante.

Provas da existência e ofício do Behemot, príncipe dos animais terrestres

Behemot, descrito no livro de Jó (40:15-24) seria o jumento citado no livro do Gênesis, porque entrou todo jumento, segundo seu gênero. A Bíblia logo ao mencionar este animal, diz que foi feito com o homem, o que prova a criação do homem por Deus, e a criação deste animal no sexto dia, antes do homem, aonde é mencionado que foram feitos os jumentos, os répteis e as bestas segundo o seu gênero (Dixit quoque Deus: Producat terra animam viventem in genere suo), e este gênero, como dissemos, preside as espécies, logo, foram feitos segundo ele, e o jumento é o primeiro por ser mais próximo dele, Behemot, sendo um mediano entre besta e réptil, um animal doméstico no sentido de ser mais amigo dos homens, não tão selvagem como uma fera, nem tão baixo como um réptil. Por causa deste simbolismo, no sexto dia da criação, ele é o primeiro dos animais terrestres citados (se não consideramos jumento meramente como significado de animal doméstico), e quando Deus manda construir a Arca e fala dos animais terrestres, o cita primeiro. 

Além disso, Nosso Senhor entrou triunfante em Jerusalém em cima de um Jumento ou burrinho, porque significava esse animal príncipe, a vitória sobre ele, sobre o vício da avareza que abaixo provamos estar relacionado com este animal rei, porque Nosso Senhor não quis um animal valioso para sua entrada, Ele entrou como um Rei humilde. Ademais, essa parte do Evangelho (Lc 19) diz que "nunca ninguém sentou sobre ele", o que não é mais tão misterioso, se entendermos que de fato só Behemot não pode ser domado por qualquer um. 

Esse animal, segundo o livro de Jó, é "o principal dentre todos os animais", afirmando mais uma vez nossa teoria, já que dizer isto de um animal qualquer só por ser grande não é verdadeiro, além de que o leão o deveria ser, caso fosse meramente simbólico, porque representa Nosso Senhor Jesus Cristo, e não há maior dignidade a um animal do que simbolizar o Filho de Deus. O próprio nome vem do plural do hebraico “Bəhēma” (animal), e significa “bestas”, “animal grande”, “animal por excelência”, e sendo plural indica sua característica geradora, de possuir em si os outros.

Provas da existência e ofício de Ziz, príncipe dos animais voadores

Alguns autores disputam sobre seu nome estar na Bíblia, mas certamente pode ser relacionado com a "serpente voadora" (Is 30:6). Ziz também é, segundo sustentamos, o corvo solto por Noé e os avestruzes segundo o profeta Isaías, os quais estão entre as maiores aves do mundo, uma das razões para serem mencionadas simbolizando Ziz, porque ela seria a maior ave do mundo para poder presidir todas as outras. E se o livro do Gênesis diz que a serpente era o animal mais astuto, embora falasse do Diabo, cremos que era para designar uma das facetas do inimigo de Deus, a da astúcia, ao mesmo tempo relacionando com o animal principal que presidia a classe das aves, Ziz, a "serpente voadora", e que era o mais astuto dos três, coisa que vemos hoje com os estudos científicos, os quais dizem que o animal mais astuto é o próprio corvo, o qual é capaz de emitir sons quase-humanos, usar ferramentas, lembrar de rostos de pessoas que possam ser perigosas, avisar outros sobre isso, etc. Isso corrobora o simbolismo das aves como representantes da alma racional do homem, enquanto os aquáticos a vegetativa, e os terrestres a sensitiva. 

Ademais, o corvo solto por Noé não volta à Arca (Gn 8:7), pois, podemos dizer, é muito mais independente que os outros, por ser mais capaz que a pomba, libertada depois. Podemos até falar que ela foi solta porque então estaria sob a ajuda de Ziz. O corvo é o primeiro animal mencionado especificamente e com papel particular na ordem da Revelação, o que demonstra sua importância e nobreza como símbolo, é o primeiro a sair da Arca também. Ele é mencionado pelo profeta Isaías (34:11) como habitante de lugares desertos, o que se entende melhor no sentido de Ziz, já que esses lugares são próprios deste animal principal, que vive longe da vista dos homens, no entanto é mais provável que signifique também ou meramente os insetos e animais com asas que ele gera. O corvo possui um significado de que alimenta os outros, como no caso de Elias, o profeta (1 Reis 17), e quando Nosso Senhor disse, espelhando os versículos de Jó (38:41), dos Salmos (147:9), que Aquele que cuida destas aves e do alimento de seus filhotes providenciará o alimento de seus servos, os quais são mais importantes que estas aves. Ora, de fato os filhotes do Corvo são todas as aves, pois todas tem princípio em Ziz, chamado aí de Corvo, e Nosso Senhor escolhe o Corvo para seu dito Sagrado por causa disso.

Pela análise do nome hebraico do Corvo, segundo Evaristo de Miranda (Animais Interiores - Voadores, Ed.Loyola, 2003, pg.75), "em hebraico, garantia, fiança ou caução é eravon (ain-reish-beit-vav-nun), e responsabilidade erevun (ain-reish-beit-vav-tav). Ambas tem a mesma raiz da palavra corvo. Ao soltar um primeiro Corvo, após o caos do dilúvio (mabul), Noé, Noah, quer uma garantia, uma prova, uma segurança, nas vésperas de recolonizar a terra". Portanto, como se dá esta garantia de povoamento dos animais voláteis pela terra fica evidente pelo nome do Corvo, o Ziz. 

Prova pela semelhança Adão-Noé

Corroborando isso tudo, temos que as semelhanças de Noé com Adão são evidentes e abundantes: patriarca de toda a humanidade, recebe uma bênção para se multiplicar sobre a terra, uma autorização para dominar sobre todos os animais, teve três filhos, um de seus filhos comete um pecado grande, era lavrador. Até a diferença entre eles tinha correlação, já que Adão come do fruto da árvore, com culpa, e peca, e Noé, sem culpa (por não saber o que sucederia), toma do fruto da vinha, e se embriaga. Adão precisa colocar roupas por causa de seu gesto, Noé perde as suas. Ora, estas correlações corroboram a interpretação de que Noé saiu com todos os animais da Arca, quando saiu com os animais príncipes que geraram toda a biodiversidade dali em diante, assim como aconteceu com Adão, visto que estes animais geraram a biodiversidade até Noé. É certo que Adão também, pelo estado de inocência e conforme a tradição da Igreja conta, possuía poder sobre os três animais principais mencionados, do mesmo modo que Noé possuía também este poder em certo sentido, embora menor por conta do pecado original, e por isso os fez adentrar a Arca, mesmo que não fosse necessário, pois Deus podia fazê-lo.

Outra coisa digna de nota é que antes de Noé não se comia carne, e depois do desembarque da Arca, Deus passa a dar os animais como alimento, com a ressalva que não comessem sangue (Gn 9:3-4). A própria letra Sagrada diz "assim como dei a vegetação verde", fazendo o paralelo. Isto prova também como a partir daí se aumenta a animosidade entre homem e animal, se pode dizer, já que um passa a poder comer o outro, o que é feito por concessão de Deus, que o faz por saber que chegou a hora da mudança de Era em que o homem já não tem aquela relação anterior, muito semelhante à Adâmica, com o animal. Daí foram se afastando os animais príncipes do homem.

Prova pelo Livro do Apocalipse

Nele o dragão aparece sobre três formas (cap.12): caindo do céu, expelindo água pela boca e guerreando contra a mulher do Apocalipse, e nestes três momentos está sempre perseguindo essa mulher e sua linhagem, que é Nossa Senhora, pela óbvia relação com o dar à luz ao varão, Nosso Senhor Jesus Cristo. A linhagem são os verdadeiros devotos dela, filhos da Santa Igreja Católica. Ora, esses animais principais sempre foram relacionados com o diabo, que é chefe dos demônios, assim como eles presidem cada classe de animal, e por isso a relação da queda do céu (aves), o expelir água (peixes), e a guerra (terrestre como os animais terrestres). 

Prova pela relação da alma vegetativa-sensitiva-intelectiva

Santo Tomás de Aquino diz que "a alma sensitiva, intelectiva e nutritiva é, no homem, uma só alma" (Suma Teológica, I Parte, q.76, Art.3, Resp), referindo-se à antiga concepção dos filósofos gregos, entre os quais se inclui Aristóteles. Pode-se ver que Leviatã, Behemot e Ziz respectivamente representam no ser humano, o que seria a alma vegetativa (água ou peixes), alma sensitiva (terra ou animais terrestres), alma racional (ar ou aves), e por isso possuem relação com os três demônios sujeitos ao Diabo, segundo as revelações de Santa Francisca Romana: Asmodeu (relacionado ao pecado da carne, alma vegetativa, instinto), Mamon (pecado da avareza, alma sensitiva, desejo), e Belzebu (pecado da idolatria, alma racional, inteligência). 

Prova pela estrutura da Arca evocativa da relação anterior

Em relação à divisão da alma, acima mencionada, se pode traçar um paralelo com a estrutura da Arca. Ora, ela tinha três pisos, segundo as Escrituras. Podemos afirmar que isso se coaduna com os animais aquáticos abaixo de todos, os terrestres no primeiro piso, as aves no segundo, e os oito da família de Noé no terceiro, segundo também a hierarquia do mais nobre, de baixo para cima. 


Abaixo do primeiro estava o mar, logo, a classe dos animais aquáticos estava ali, com Leviatã mais provavelmente ali perto, não só para provar a beleza dessa relação, mas porque seria arquitetônico dado seu poder de afastar as ondas como descrito no Livro de Jó, o que seria útil no Dilúvio. Até mesmo cremos que esse poder tenha sido citado pelas Sagradas Letras visando indicar principalmente sua relação com o Dilúvio.

Prova pela história das nações

Em muitos povos, histórias e lendas se fala de monstros, de animais enormes, etc, muitos dos quais são considerados fora do comum, nunca vistos. Em alguns casos, pode se dizer que realmente eram animais do passado, como o caso do unicórnio, visto que uma ossada de um animal com um orifício na testa, aonde estaria o corno, já foi descoberta, coadunando com várias histórias medievais e de outros povos, como dos tártaros (HuffpostBrasil, 30/03/2016 16:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:52 -02, "Lenda? Ciência encontra provas que unicórnios conviveram com humanos", Denis Russo Burgierman, Revista Superinteressante). Em outros casos, se pode melhor atribuir a estes três animais. Não cabe aqui fazer esta análise exaustiva de cada caso, mas o leitor saberá por si só analisar com tudo que foi exposto.

Prova pelo simbolismo dos animais que os significam, segundo as múltiplas culturas

Por mais que tenha ocorrido a dispersão dos povos e variedades das línguas e perda da cultura primordial passada por Noé, que recebeu dos antepassados, muitos povos e culturas, mesmo pagãs, mantém umas tantas doses de verdade que só podem ser devidamente apreciadas de acordo com a Tradição Católica, única verdadeira e pura. É É neste sentido que Santo Agostinho fala da necessidade generalizada dos povos de fazer um sacrifício como para aplacar a Ira de um deus ou deuses, sacrifício este que só podia ser feito por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Assim, é útil um dicionário de símbolos, incluindo o simbolismo no âmbito Cristão, para verificar o simbolismo do corvo e da jumenta ou asno, ambos que respectivamente dissemos significar Ziz e Behemot. Aliás, um método interessante para entender diversas coisas misteriosas da Bíblia. Vamos usar o "Dicionário de Símbolos (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números)", Jean Chevalier, Alain Gheerbrant, 1906.

Sobre o asno, ele comenta que quase universalmente é considerado "emblema de obscuridade e até mesmo de tendências satânicas", e serve de montaria para divindades funestas na Índia, no Egito é uma entidade perigosa a ser encontrada no post-mortem, no romance de Apuleio está relacionado com sensualismo. Em suma, "o asno, como Satã, ou como a Besta, significa o sexo, a libido, o elemento instintivo do homem, uma vida que se desenrola inteiramente no plano terrestre e sensual". Ora, todo este simbolismo confirma o que temos dito do significado de Behemot como representante da potência sensitiva do homem, e por isso a relação com os espíritos infernais, que usam a sensibilidade, a libido do homem, para levá-lo à perdição.

Poderia parecer que para Nosso Senhor Jesus Cristo e sua montaria no jumento este simbolismo não se encontra, no entanto, o Dicionário diz que Nosso Senhor sentou em cima de uma jumenta, que possui um significado diferente. Na China, ele comenta, "o asno branco é por vezes a montaria dos Imortais". A jumenta teria, neste caso, "símbolo de paz, de pobreza, de humildade, de paciência e de coragem e, em geral, é apresentada sob luz favorável na Bíblia". Por outro lado, para nós, não é dificuldade conciliar os dois simbolismos, se se entende que o asno ou jumento, tomado como símbolo, precisa ser contextualizado para que se entenda seu sentido no contexto. Montado pelos espíritos das trevas, significa o uso das potências sensíveis para o mal, já montado pelos justos, é o domínio sob a sensibilidade, o que Nosso Senhor demonstrou ali como homem perfeito.

O corvo, segundo o Dicionário, só recebeu acepção negativa modernamente. "Quase por toda parte, no entanto, no Oriente como no Ocidente, o simbolismo do corvo é construído sobre as suas virtudes positivas". Alguns dos significados são: gratidão filial, mensageiro divino, sinal de virtudes, funções proféticas, princípio da criação, demiurgo, renovação. Tudo isto corresponde ao que temos falado de Ziz como representante da parte intelectiva do homem, e uma comparação com o Asno é interessante: enquanto a sensibilidade do homem, pelo pecado original, ordinariamente se volta contra ele, a parte intelectiva do homem por si só ela não faz mal, mas precisa ser guiada. Daí entende-se o corvo somente com aspectos positivos. Mais ainda, quando se relaciona ele com mensageiro do além, pois não podemos dizer que faz a ponte entre o espírito do homem e sua manifestação material, mas também podemos falar do papel de Ziz de gerar, por ordem de Deus, outros animais, e então nos fica claro os significado de renovação, criação, demiurgo, etc.  

Conclusão do argumento

Em suma, existiam dois animais principais na Arca de Noé: Behemot e Ziz, já que Leviatã estava à salvo no mar junto com todos os outros animais aquáticos. Ambos eram impuros. Além desses dois, havia sete puros, e sete dos voadores. Noé sacrificou todos depois de sair da Arca, exceto os dois impuros principais e a pomba (pura) que soltou, ou seja, sacrificou treze. 

Não nos parece por acaso que treze seja o número de Eras que viriam a partir daquele momento, segundo as teorias de Santo Agostinho e outras de teólogos que dividem a história em sete Eras antes de Cristo Nosso Senhor, e sete Eras cristãs, sendo a segunda Era antiga a que começa após o Dilúvio. Muito menos nos parece por acaso que a pomba seja o símbolo do Espírito Santo, que não foi sacrificado por Noé, homem justo que não abandonou a Deus naquele tempo de impiedade, sendo escolhido para sua missão. Esta pomba era um animal puro, que estava na Arca, e é símbolo de pureza, com razão, por ser o único animal puro com origem pré-diluviana, pois os outros puros foram sacrificados. Logo, o mais puro dos puros, por ser de pureza que remonta a uma época de muito mais pureza. Essa mesma pomba é solta duas vezes, indicando a segunda Era, em um intervalo de sete mais sete dias, ou seja, quatorze dias, quando ela não volta, o que nos leva a dizer que o quatorze que não retorna representa as quatorze Eras faltantes que acabam e dão lugar às treze faltantes.

Objeções

Obj 1: A Escritura diz que Deus mandou tomar as aves, "para serem conservadas na terra" (Gn 7:3), logo, não foram estas sacrificadas, e não foram geradas por animais príncipes.

Como dito acima, foram sacrificadas "todas as aves" (Gn 8:20) por Noé, logo, elas foram sacrificadas, e p "salvar sua semente sob a terra" (Gn 7:3) não deixa de se cumprir, dado que esta semente está nos animais principais. Aliás, falar de semente e não dos animais parece indicar que é a semente que se quer salvar, não eles.

Obj.2: Deus manda entrar na Arca, além do jumento, os répteis, feras e bestas, os quais são excluídos desta análise. 

Responde-se dizendo que não estão excluídos, pois podiam estar entre os animais limpos sacrificados, já que algumas bestas e feras podem estar, desde que não usem as mãos para caminhar, se são quadrúpedes (Lev 11:27), e tenham unha fendida em duas e ruminem (Lev 11:3). Já o réptil, sempre impuro (Lev 11:41), é citado uma vez (Gen 8:19) junto de jumento e animais em geral, ou seja, as três características do animal principal terrestre. Antes, na saída da Arca (Gen 8:17) ele é citado com os três tipos de animais na Arca: aves, bestas ou puros, e répteis, e de modo idêntico na ordem de Deus para a finalidade da Arca (Gn 6:20). Daí pode se entender como o próprio Behemot, sendo ele também impuro, e um réptil, por ter a característica de todos os terrestres de todos os tipos. Além disso, eles todos podem ter sido simbolicamente mencionados por algum motivo misterioso da Escritura, por serem parte do gene deste animal príncipe.

Obj 3: Se fala em casal quando se fala de animais impuros, e os principais não são casais.

Por tudo que explicamos sobre a característica geradora dos animais principais, eles são andróginos, e eram um casal sendo um só animal, por isso não é errado. 

Obj 4: Muitos teólogos sustentam que Behemot e Leviatã são o hipopótamo e o crocodilo, existentes perto do lugar onde Jó vivia.

Equivocam-se porque as descrições que as Sagradas Letras fazem são extremamente exageradas para aplicá-las ao hipopótamo e ao crocodilo. Tivessem noção desta Teoria, talvez mudassem de idéia.

Obj 5: Estes animais não poderiam gerar outros animais, pois isto implica que a obra de Deus não é perfeita, "boa" como diz o Gênesis, e que Deus precisa corrigir o que fez, que é um Deus das lacunas.

Como estes animais foram feitos no princípio do mundo, podemos dizer que neste momento foi posto neles já tudo que era necessário para que percebessem a necessidade da biodiversidade, etc. Deus não precisaria, portanto, usá-lo para corrigir ou fazer mais coisas, como um demiurgo, mas eles já teriam isto desde o princípio como algo natural, pelo próprio papel deles de reger cada animal de sua classe. No entanto, Deus Nosso Senhor pode se servir deles e já se serviu, como foi no caso do profeta Jonas, em domingo de Ramos, etc. Mas estes episódios não fazem parte da missão ou papel principal destes animais príncipes, mas se harmonizam perfeitamente com eles.

Obj 6: A Salamandra falta como um animal príncipe, dominante sobre o fogo, como atestam muitas fontes históricas e católicas.

Esta seria o símbolo do domínio sobre o elemento clássico do fogo, ou o que ele significa, isto é, a reação química entre combustível e oxigênio, possibilitada pela temperatura. Logo, seria um elemento que representa o mundo dos seres invisíveis ou microscópios, já que essa reação se dá no âmbito invisível a olho nu, mas que se manifesta quando em certa quantidade, assim como alguns micro-organismos se manifestam nos efeitos ou quando estão em grande quantidade juntos. 

Desde S. Isidoro de Sevilha, a tradição dos santos que mencionaram a Salamandra, assim como antigos filósofos desde Aristóteles, colocam ela sempre como um ser maléfico, capaz de envenenar água, apodrecer coisas, causar doenças, e outros efeitos que são causados pelos micro-organismos, por isso essa interpretação. Ora, o símbolo do fogo é o de queimar, trazer a destruição, e a Salamandra vive no fogo sem se destruir, como é considerado, do mesmo modo alguns dos micróbios vivem na destruição de um organismo sem se destruir, quando não vivem desta destruição, como parasitas. O fogo tem também o simbolismo de purificação, e muitos destes micro-organismos são decompositores, recicladores. 

Na Bíblia não há citação direta da Salamandra, mas se pode dizer que quando a Sagrada Escritura fala de dragões, se refere às filhas da Salamandra principal, ou salamandras, já que estes "dragões" são sempre relacionados com habitantes de lugares abandonados (Is 13:20, 34:12, Jer 9:11, 10:22, 49:33), ou seja, apodrecidos, ou ainda como algo ruim (Dt 32:33, Jó 30:29) ou que sofre derrota do justo (Sl 74:13, 91:13), o qual, podemos dizer, Deus poupou das epidemias e doenças. Todas essas coisas que encaixam perfeitamente com a ação de micróbios, vírus, parasitas, etc. 

Entretanto, não cremos ser a Salamandra um dos animais principais, porque não é mencionada na Criação, e sua classe não é de animais, mas de seres microscópios normalmente relacionados com doenças, decomposição (como certos fungos), reciclagem, e coisas que em geral mais parecem ser próprias do mundo depois da queda de Adão, quando veio o tempo da morte. Daí o Querubim na porta do paraíso terrestre depois da expulsão de Adão e Eva, com uma espada de fogo, isto é, para mostrar o poder sobre o fogo das salamandras, que são os micróbios, doenças, decomposição, todas estas coisas tomadas simbolicamente que significam a decomposição à qual o homem a partir da expulsão ficou sujeito, porque ali entra quem não é passível dela (do mesmo modo podemos pensar na ida de Santo Elias ao paraíso terrestre em um carro de fogo). Nesse momento da expulsão de Adão e Eva do paraíso terrestre se pode dizer que começou a vida das "salamandras", sendo a Salamandra principal, a geradora das outras, não um animal em específico, mas o próprio Diabo, o eterno lixeiro e lixo do mundo, o qual age segundo as leis destas "salamandras", tanto as físicas que a ciência médica e biológica estuda, tanto quanto as leis mais misteriosas não estudadas por estas ciências que indicam a razão espiritual de doenças, pragas, etc, no curso das épocas e povos.

Além disso, o que foi dito da relação com alma vegetativa, sensitiva e racional justifica que a Salamandra não é um animal principal, pois não se encaixa nesta relação numerológica.

Hipóteses sobre outras características dos animais príncipes e seus papéis na história da Igreja e eventos futuros

Conforme algumas histórias dos santos, podemos hipotetizar que estes dois animais príncipes, da terra e do ar, Behemot e Ziz, possuem a capacidade de transformar-se em qualquer outro tipo de animal da sua espécie. Isto pode ser estendido ao Leviatã também.

Ora, um cachorro misterioso ajudou São João Bosco, uma irmã morta em odor de santidade, Sor Patrocínio, segundo sua biógrafa, foi levada por um leão pacífico a um caverna, quando "faziam séculos que não se criavam leões na Espanha", Santo Elias e São Bento foram alimentados por corvos, São Columbano expulsou com a cruz um monstro marinho que queria devorar uma pessoa. Estes são só alguns exemplos de animais com atitudes incomuns na história dos santos.

Estes animais podem ter sido enviados e guiados por Deus (exceto no último caso), que rege todas as coisas, ou mesmo serem anjos em forma de animais, segundo sustentam alguns autores que é possível (S. Afonso de Ligório, Escola da Perfeição Cristão, Tratado da Castidade, por exemplo). Mas o mais de acordo com a natureza angélica não é tomar forma de animal, por ser um ser mais baixo, e, por outro lado, se existem os animais príncipes, é muito mais sensato dizer que eles seriam usados nestes episódios. Mais coerente com a sapiência Divina seria estar decidido, desde a criação, que os animais príncipes teriam estas atuações, do que Deus ter que, para estas ações, tirar um cachorro de algum lugar, deslocar um leão da África para a Europa ou criá-lo, etc.

A capacidade de metamorfose se harmoniza com a natureza deles, que é reger e, em casos excepcionais, gerar novas espécies. Ora, sendo criaturas feitas no paraíso terrestre, onde a corrupção não existe, e portanto, há uma espécie de poder misterioso sobre a matéria dos que ali foram feitos ou ali habitam, é fácil relacionar este poder com esta capacidade extraordinária destes animais.  

Admitir a existência atual destes animais é admitir que as Sagradas Escrituras não falaram por acaso deles, pois teriam até hoje uma importância, e um papel futuro desconhecido. Portanto, não são meros animais grandes como o crocodilo e hipopótamo, ou mesmo dinossauros desaparecidos, com os quais o sentido da Letra Sagrada seria meramente histórico, embora uma prova de sua perfeição histórica, mas evocam uma coisa e outra ao mesmo tempo.

Ademais, o que é possível e arquitetônico, entrando bem na escala dos seres, Deus mais certamente o faria, já que estes animais seriam uma categoria de animal incorruptível, pelo menos até o fim do mundo. Assim, haveria uma alma vegetativa incorruptível, a árvore do paraíso, uma alma sensitiva incorruptível, presente nos três animais príncipes, e uma alma racional incorruptível, a do homem. Ora, o aquático estaria mais próximo do vegetativo, já o terrestre, do próprio terrestre ou alma sensitiva, e o volátil, da alma racional, conforme foi relacionado acima. Deus teria deixado não só distintamente nos homens uma clara marca de Sua ação, mas nestes tipos de animais, e na árvore do paraíso. Se poderia pensar que desta árvore Ziz tira as sementes para frutificar todas as outras novas sementes da terra, e que o Corvo que alimentou o profeta Elias era Ziz trazendo o fruto místico da árvore do paraíso (não aquele que causou a queda de Adão, mas um outro ali que fosse possível comer, ou mesmo uma outra árvore do paraíso), como que para prepará-lo à sua vida no paraíso terrestre esperando o fim do mundo, quando voltará.

Uma harmonia desta Teoria existe com o fato de que assim como são três os que esperam para combaterem o anti-Cristo e morrerem no fim dos tempos, a saber, Elias, Enoch (e São João Evangelista, segundo alguns teólogos), igualmente estes animais poderiam durar até lá justamente para servir a estes, além de só ter seus encargos habituais. Podem até mesmo ter algum protagonismo antes. Afinal, a aparição e ajuda deles de algum modo aos que combaterão a Revolução e o Anti-Cristo seria mais uma prova incontestável da perfeição da Bíblia, e da verdade da Santa Igreja Católica. Mas estas são hipóteses baseada na Teoria.

Por fim, é preciso notar o que disseram santos e autores católicos sobre estes animais. Em geral, o Leviatã é relacionado com o diabo, mas parece que não há qualquer alegação de que seria o único significado. São Jerônimo diz que o mundo gerou muitos monstros, dentro os quais Leviatã e Behemot (Carta Contra Vigilantius). Já Plinio Corrêa de Oliveira sobre Leviatã e Behemot, diz: "são dois animais diferentes. Mas eu não vejo qual é o papel da alteridade desses animais aí. Precisaria ir ao Cornélio [A Lapide]. Um dia chegará em que eu vou estudar o Leviatã" (Almoço ESB 1.7.87) e segue para avaliá-los enquanto símbolos da Revolução. Infelizmente, existem dois problemas: este dia parece não ter chegado, e um dos poucos livros sagrados que o grande exegeta jesuíta Cornélio A Lapide não comentou foi o livro de Jó, onde está descrito este animal, e o exegeta não se atêm neles em outros versículos comentados onde são citados. De qualquer forma tentamos fazer desta Teoria o atendimento dos desejos de ambos estes estudiosos sobre o tema, porque cremos que com este artigo se pode contemplar muito claramente que "os céus e a terra proclamam a glória de Deus", e abrir espaços para outras investigações teológicas.