Profeta Ageu diz que "cada um será passado pela espada do seu irmão", e profetiza a vinda de um Rei tal como Zorobabel

Santo profeta Ageu, rogai por nós!

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Extraído de: "O Príncipe dos Cruzados (Vol. I, parte I, 3a edição, Cap. IV)".

Profeta Ageu, na tradução do Pe. Matos Soares.

Ao longo deste capítulo, temos sustentado que os profetas do Antigo Testamento não só profetizaram a vinda de Nosso Salvador Jesus Cristo, mas a vinda de muitas coisas posteriores, dentre as quais a mais comumente aceita é a segunda e derradeira vinda de Nosso Senhor no fim do mundo. Neste artigo, expomos melhor como o Salvador foi previsto como Rei em algumas profecias, fazendo com que muitos cressem, como os essênios que vimos no capítulo III, que viriam um Rei, um Sacerdote e um Profeta. 

Deus Filho Nosso Salvador de fato veio como Rei, mas também como Sacerdote e Profeta. Mas não nos parece certo dizer que os profetas antigos tornaram-se meros objetos históricos. Antes, parece mais correto dizer que os essênios e antigos exegetas que falavam da vinda de um Rei estavam corretos, e as profecias se referem a Cristo Rei e a um futuro Rei ao mesmo tempo, assim como a profecia evangélica de Nosso Senhor falou do fim do mundo e a destruição de Jerusalém, ao mesmo tempo.

Apresentado o contexto no qual iremos expor a seguinte profecia, transcrevemos uma nota tirada do Pe. Matos Soares: Dario, filho de Istaspes, foi rei da Pérsia de 521 A.C. a 486 A.C., depois de Ciro, que promulgou o edito de regresso e a permissão para construir o templo, que foi iniciado em 536 A.C. O primeiro templo havia sido destruído em 586 A.C., quase 70 anos antes desta profecia, que ocorre no segundo ano do reinado de Dario, portanto, poucos eram os que tinham visto o antigo templo.

Cap. I, 1-4:"No segundo ano do reinado de Dario, no sexto mês, no primeiro dia do mês, foi dirigida a palavra do Senhor, por intermédio do profeta Ageu, a Zorobabel, filho de Salatiel, chefe de Judá, e a Jesus, sumo sacerdote, filho de Josedec, a qual dizia: Assim fala o Senhor dos exércitos: Este povo diz: Ainda não é chegado o tempo de reedificar a casa do Senhor. E foi dirigida a palavra do Senhor, por intermédio do profeta Ageu, a qual dizia: Então é tempo oportuno para vós habitardes em casas forradas, enquanto esta (do Senhor) há de estar em ruína?"

É importante notar três símbolos históricos citados nestes versículos: o profeta, que é Ageu, o sacerdote, que é Jesus, e o chefe de Judá, que é Zorobabel. A esfera temporal, espiritual e política, que bem representam o Profeta, Sacerdote e Rei que foi Cristo Deus.


O Senhor se queixa de que o povo pensa mais na própria casa do que na de Deus.

II, 7-10: "Porque isto diz o Senhor dos exércitos: ainda falta um pouco, e eu comoverei o céu e a terra, o mar e todo o universo. Abalarei todas as nações e virá o desejado de todas as gentes; e encherei de glória esta casa, diz o Senhor dos exércitos. Minha é a prata, meu é o ouro, diz o Senhor dos exércitos. A glória desta última casa será maior que a da primeira, diz o Senhor dos exércitos; e eu darei a paz neste lugar, diz o Senhor dos exércitos".


"Ainda falta um pouco, e eu comoverei o céu e a terra, o mar e todo o universo. Abalarei todas as nações e virá o desejado de todas as gentes": de fato, a tradição conta que muitos efeitos extraordinários aconteceram no nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.
 
"
Abalarei todas as nações e virá o desejado de todas as gentes; e encherei de glória esta casa, diz o Senhor dos exércitos": a mistura da vinda do Salvador com Sua volta no fim do mundo é porque, obviamente, Nosso Senhor também virá para instalar Seu Reino eterno, Sua casa de glória eterna no fim do mundo, quando vier para julgar os vivos e os mortos, e será visto por todas as gentes, que o desejaram.

Assim como a glória do segundo templo será maior do que a do primeiro, também a glória Eterna de Cristo será maior que Sua glória em vida. Assim como a segunda decadência do templo fez aparecer o terceiro vitorioso e eterno templo, Nosso Senhor Jesus Cristo, e Seu Corpo Místico, a Santa Igreja, assim também a
segunda decadência do terceiro templo, isto é, a Santa Igreja, fará com que venha o Salvador Nosso no fim do mundo para fundar Seu vitorioso e eterno templo, o Céu.  

Mas qual foi a primeira decadência da Santa Igreja? É o período de crise na Santa Igreja em que vivemos.

Qual é o significado de decadência aqui? É quando a esfera espiritual, então significada pelo templo e seus administradores, decai enormemente. Assim, não é o tempo do arianismo, pois nesse tempo houve santos bispos, como S. Atanásio (que o Papa Libério não condenou, ao contrário do que alguns disseram [1]). Também não é o período do Renascimento, quando alguns Papas deram espaço a uma revolução cultural que voltava ao paganismo, pois não foi o tempo quando eles mesmos foram os arautos desta decadência. Ademais, aquele distanciamento da Civilização Cristã, começado pela Renascença, é continuado pelo tempo atual, assim como a Revolução Protestante deu origem à Revolução Francesa, e assim seguidamente até os nossos tempos, quando vivemos uma quarta Revolução, de caráter tribalista e eclesiástica, que dará origem a uma Revolução Satânica.



Mais adiante, a profecia fala do futuro.

II, 21-24: "E, aos vinte e quatro dias do mês, foi dirigida pela segunda vez a palavra do Senhor a Ageu, a qual dizia: Fala a Zorobabel, chefe de Judá, dizendo-lhe: Eu abalarei juntamente o céu e a terra, farei cair o trono dos reinos, quebrarei a fortaleza do reino das gentes, destruirei os carros de guerra e os que vão sobre eles; os cavalos e os seus cavaleiros cairão; cada um será passado pela espada do seu irmão. Naquele dia, diz o Senhor dos exércitos, eu te tomarei debaixo da minha proteção, ó Zorobabel, meu servo, filho de Salatiel, diz o Senhor: guardar-te-ei como um sinete, porque te escolhi, diz o Senhor dos exércitos".


"E, aos vinte e quatro dias do mês". A simbologia numérica do vinte e quatro, relativos ao dia do mês, é obscura para nós. "Foi dirigida pela segunda vez a palavra do Senhor a Ageu, a qual dizia". A "segunda vez" parece indicar um paralelo com a segunda vinda de um Rei prometido, isto é, o Grande Monarca. A primeira cumpriu-se em Nosso Senhor Jesus Cristo Rei, mas também Profeta, Sacerdote e Salvador da humanidade. A segunda se cumprirá com o Grande Monarca, e a terceira, com Santo Enoch que, embora não tenha sido Rei em seu tempo, é o equivalente ao símbolo do Rei, por ter sido patriarca e pai de toda posteridade, tal como seu bisneto Noé.

Já mostramos no capítulo I a doutrina comum dos Padres da Igreja sobre a noção de que virão Elias e Enoch antes do fim do mundo. No capítulo III, sustentamos, de acordo com antigos autores, que S. João Evangelista está ressuscitado, e será o terceiro a vir com os demais. Além disso, sustentamos, desde o capítulo II com raciocínios de teologia da história, que virão prefiguras de Elias, Enoch e S. João Evangelista para o tempo próximo: o grande monarca, o grande general, e o Papa Santo, conforme a muitas profecias privadas que veremos no capítulo V.

"Fala a Zorobabel, chefe de Judá", porque aqui é considerado o simbolismo do chefe de Judá, isto é, o simbolismo do Rei. "Dizendo-lhe: Eu abalarei juntamente o céu e a terra, farei cair o trono dos reinos, quebrarei a fortaleza do reino das gentes, destruirei os carros de guerra e os que vão sobre eles; os cavalos e os seus cavaleiros cairão; cada um será passado pela espada do seu irmão". Estes versículos falam de guerra e tudo relacionado, assim como reinos e tudo relacionado, o que se harmoniza com a missão do Grande Monarca: conquistar o mundo a Deus pela força. "Eu abalarei juntamente o céu e a terra" não está mal contextualizado, pois o Castigo Mundial, contexto no qual o Grande Monarca atuará, será recheado de Castigos naturais e sobrenaturais, como temos dito desde o capítulo III, com confirmação das profecias privadas do capítulo V.

"Naquele dia, diz o Senhor dos exércitos, eu te tomarei debaixo da minha proteção, ó Zorobabel, meu servo, filho de Salatiel, diz o Senhor". O Pe. Matos Soares, provavelmente reproduzindo a tradição até então, argumenta que essa parte indica que Zorobabel foi um símbolo do Messias, o que concordamos inteiramente, com a seguinte observação: foi o símbolo do Messias tal como Rei.

Símbolo do Messias tal como Rei pois Zorobabel era descendente da casa de Davi. Por isso, seu nome é citado na genealogia de Nosso Senhor em S. Mateus I, 12-13, e S. Lucas III, 27.

Ademais, é notável que seu nome, predominantemente masculino e de origem Hebraica, signifique "Gerado na Babilônia" (Zorobabel foi chefe de Judá na volta do exílio e construção do segundo templo), uma vez que o Grande Monarca foi ou será gerado na Babilônia, isto é, o mundo neopagão atual. Assim como Zorobabel esteve ligado aos acontecimentos que deram origem à reconstrução do templo em Judá, o Grande Monarca estará ligado aos acontecimentos que darão origem à restauração da Igreja, conforme já vimos e ainda veremos com profecias do capítulo V.

"Meu servo, filho de Salatiel", que era neto de Jeconias, da descendência de David. Novamente o texto sagrado menciona a descendência do Messias como Rei. Salatiel em hebraico significa Shə’altî ’Ēl, "Eu pedi El (por esta criança)". Parece que o versículo cita o pai de Zorobabel para incluí-lo no simbolismo por causa de seu nome, isto é, aqui o vocativo significa aquele por quem se pediu e foi gerado na Babilônia. Também pediram pelo Rei Messias a Virgem Maria e os judeus fiéis, e Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu como Rei na Babilônia, se considerarmos que Judá se tornou uma Babilônia ao deixar-se influenciar pelos costumes e modos pagãos, muitas vezes chamados de cultura helenista, o que já tinha suscitado a revolta dos Macabeus um tempo antes. Afinal, Nosso Salvador condenou as duas seitas maiores daquele tempo: os saduceus e os fariseus, mostrando que a ordem social e religiosa não estava conforme a Tradição.

"Guardar-te-ei como um sinete, porque te escolhi, diz o Senhor dos exércitos". Sinete é um emblema que serve para pressionar a cera e dar-lhe uma forma quando a cera quente cai no papel. Um exemplo conhecido de sinete é o anel do pescador de S. Pedro, usado pelo Sumo Pontífice. 

Dado esse conhecimento prévio, o símbolo de "guardar o sinete" parece indicar mais de um uso, ou seja, mais de um significado ao chefe Zorobabel. Afinal, quem guarda um sinete se não é para usá-lo mais uma vez, pelo menos? Assim, Zorobabel como sinete significa o futuro sinal de um chefe tal como Zorobabel para mais de uma vez no futuro, como temos argumentado neste artigo.

Próximo deste capítulo: Os Salmos falam de um castigo divino? Análise dos Salmos 73 e 74

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[1] Pio IX: "16. (...) E previamente os Arianos falsamente acusaram Libério, também Nosso predecessor, ao Imperador Constantino, porque Libério recusou-se a condenar Santo Atanásio, Bispo de Alexandria, e recusou-se a apoiar a heresia deles" Encíclica Quartus Supra, 1863, Item #16. Link: http://www.papalencyclicals.net/Pius09/p9quartu.htm. Bento XV: "3. Os Padres da Igreja (...) tomaram refúgio nesta Sede Apostólica, a única capaz de assegurar a salvação em situações de extrema crise. Basílio, o Grande, fez isso, e o grande defensor do Credo de Nicéia, Atanásio, e também João Crisóstomo. Estes padres, mensageiros da fé ortodoxa, apelaram do Concílio de Bispos ao juízo do Supremo Pontífice (...). Quem poderia dizer que estos Papas falharam em relação ao mandato de Cristo de confirmar seus irmãos? Assim (...), muitos foram ao exílio sem medo, como Libério, Silvério e Martino" Encíclica Principi Apostolorum Petro, October 5, 1920, Item #3. Link: http://w2.vatican.va/content/benedict-xv/it/encyclicals/documents/hf_ben-xv_enc_05101920_principi-apostolorum-petro.html. Papa Santo Anastásio I e Santo Ambrósio segundo a Enciclopédia Católica: "Uma carta do Papa S. Anastásio I (401) menciona ele [Libério] com Dionísio, Hilário, e Eusébio como um daqueles que prefiriram morrer que blasfemar a Cristo com os Arianos. S. Ambrósio o recordava com um um homem muito santo". Chapman, J. (1910). Pope Liberius. In The Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company. Link: http://www.newadvent.org/cathen/09217a.htm.