Santos sobre uma ocasião de pecado próximo: ficar a sós com o sexo oposto quando não há matrimônio ou parentesco. Tratando objeções

S. Jerônimo,
rogai por nós!


Extraído de: "O Príncipe dos Cruzados (Volume II, 2a edição)". 

Neste artigo, apresentamos textos da Tradição sobre uma questão específica sobre a fuga da ocasião de pecado próximo: evitar ficar a sós com o outro sexo, enquanto não há parentesco ou laço matrimonial.

Após os importantíssimos textos, tentaremos dar resposta para certas questões que podem surgir, uma vez que não encontramos texto atual e mais autorizado para respondê-las.

Santo Afonso Maria de Ligório citando a Bíblia e São Bernardino de Siena

"Falando aqui da ocasião de pecado, temos em vista a ocasião próxima, pois deve-se distinguir entre ocasiões próximas e remotas. Ocasião remota é a que se nos depara em toda a parte e que raramente arrasta o homem ao pecado. Ocasião próxima é a que, por sua natureza, regularmente induz ao pecado. Por exemplo, achar-se-ia em ocasião próxima um jovem que muitas vezes e sem necessidade se entretêm com pessoas levianas de outro sexo. Ocasião próxima para uma certa pessoa é também aquela que já a arrastou muitas vezes ao pecado. Algumas ocasiões consideradas em si não são próximas, mas tornam-se tais, contudo, para uma determinada pessoa que, achando-se em semelhantes circunstâncias, já caiu muitas vezes em pecado em razão de suas más inclinações e hábitos. Portanto, o perigo não é igual nem o mesmo para todos (...).

São Bernardino de Siena diz que dentre todos os conselhos de Jesus Cristo, o mais importante e como que a base de toda a religião, é aquele pelo qual nos recomenda a fuga da ocasião de pecado.

Se fores, pois, tentado, e especialmente se te achares em ocasião próxima, acautela-te para não te deixares seduzir pelo tentador. O demônio deseja que se se entretenha com a tentação, porque então torna-se-lhe fácil a vitória. Deves, porém, fugir sem demora, invocar os santos nomes de Jesus e Maria, sem prestar atenção, nem sequer por um instante, ao inimigo que te tenta (...).

Não nos deixemos enganar pelo pretexto da ocasião ser necessária, como dizem os teólogos, e que por isso não estamos obrigados a evitá-la, pois Jesus Cristo disse: ‘Se teu olho direito te escandaliza, arranca-o e lança-o de ti’ (Mt 5, 29). Mesmo que seja teu olho direito deverás arrancá-lo e lançar fora de ti, para que não sejas condenado. Logo, deves fugir daquela ocasião, ainda que remota, já que, em razão de tua fraqueza, tornou-se ela uma ocasião próxima para ti (...).

Como queremos salvar nossa alma, é nosso dever fugir da ocasião do pecado. Principalmente devemos abster-nos de contemplar pessoas que nos suscitam maus pensamentos. (...)" [1].

S. Jerônimo escrevendo a um futuro clérigo 

"5. (...) O pé de uma mulher deve raramente, ou nunca, cruzar a soleira de sua casa. Para todas as virgens de Cristo mostre a mesma consideração ou o mesmo desprezo. Não se demore sob o mesmo teto que elas e não confie em sua continência passada. Você não pode ser mais santo do que Davi ou mais sábio do que Salomão. Tenha sempre em mente que foi uma mulher que expulsou de sua herança o lavrador do paraíso. 

Caso esteja doente, um dos irmãos pode atendê-lo; sua irmã também ou sua mãe ou alguma mulher cuja fé seja aprovada por todos. Mas, se não tens pessoas tão ligadas a ti ou tão marcadas por um comportamento casto, a Igreja mantém muitas mulheres idosas que com o seu ministério podem ajudar-te (...). 

Se, no exercício de suas funções clericais, tiver que visitar uma viúva ou uma virgem, nunca entre na casa sozinho. Deixe que seus companheiros sejam pessoas com as quais não o desonre. Se levar um leitor ou um acólito ou um cantor de salmos, deixe que seu caráter, e não seu traje seja seu adorno (...). Não se sente sozinho com uma mulher ou encontre uma mulher sem testemunhas. Se tem algo confidencial para revelar, ela certamente terá alguma enfermeira ou governanta, alguma virgem, alguma viúva, alguma mulher casada. Uma mulher não pode ficar tão sem amigas a ponto de não ter ninguém, exceto você, a quem pode contar seu segredo. Cuidado com tudo o que dá motivo para suspeitas; e, para evitar escândalo, evite todo ato que possa lhe dar aparência [de escândalo]" [2].

S. Boaventura citando S. Jerônimo, dirigindo-se a clérigos

"Há também alguns meios diretos à empregar contra esse vício, seja considerando-o presente em nosso corpo, ou em nossa alma. Os meios são: a guarda constante de nossos sentidos, porque estes são as aberturas por onde o vício entra em nós se dormimos; a fuga de toda familiaridade e sociedade com pessoas do outro sexo, e a resolução de não ficar só ou conversar a sós com o sexo oposto, especialmente em um lugar remoto, e a não frequentar suas casas, de acordo com os ensinamentos de São Jerônimo [
Epist. ad nepotian.]". [3].

S. João Maria Vianney


III. (...) Se vós me perguntardes o que é um noivado, é isso: a promessa que duas pessoas fazem uma à outra de se casar. Tão logo duas pessoas se tornem noivas, elas não devem permanecer na mesma casa sob pena de grande pecado, por causa dos perigos e tentações a que serão expostas; porque o diabo faz tudo o que pode para torná-los indignos da bênção de Deus prometida a eles no sacramento do casamento. É por isso que a Igreja os proíbe de viver sob o mesmo teto durante todo o tempo do noivado [4].

Beata Anna Maria Taigi (1769-1837)

"Quando não podia ir ao mercado, nunca enviava suas filhas para irem, mas a Antonini. Solicitudes excessivas? Anna, sem contar a experiência dos perigos que tinha passado, via de perto exemplos tão singulares. O mesmo Domenico aprovava este rigor: "Na época do casamento de Sofía con o senhor Micali, para dar aos futuros esposos a ocasião de se conhecerem, minha esposa permitiu que o noivo frequentasse a casa cerca de dois meses antes da celebração do casamento e que conversasse com Sofía, mas sempre em sua presença" [5].  


-> Respondendo objeções sobre o tema (parte do texto sujeita à censura eclesiástica)


Obj. 1: Esses textos dirigem-se aos clérigos, e não aos leigos.

Resp: Apesar de alguns textos dirigirem-se aos sacerdotes, também é válido para aqueles que querem manter a castidade em seu estado, quando o sexo oposto não é cônjuge ou parente. 


Lembremos: "(..) não confie em sua continência passada. Você não pode ser mais santo do que Davi ou mais sábio do que Salomão".

Se um clérigo precisava tomar precauções sobre ficar a sós com o sexo oposto, e não confiar na sua continência passada, muito mais precaução deve tomar
um leigo. E ainda mais um leigo que visa casar com a pessoa com a qual fica sozinha, à qual há uma inclinação oriunda da natureza reprodutiva.

Obj. 2: Não é possível que essa doutrina seja aplicada, pois algumas vezes precisamos de um médico, que é do sexo oposto.

Resp: O médico possui uma graça de estado para tratar de seus pacientes, especialmente se precisa tocá-los, examiná-los, etc. Embora o melhor seja um médico do mesmo sexo que o paciente, nem sempre isto é possível. A urgência de um médico pesa mais que a falta de médico do mesmo sexo.
 
Obj. 3: Não existe tal coisa como graça de estado para casos de médicos. Não só a Igreja não fala desta, como é um conceito sem base na razão, talvez criado para tentar justificar essa posição moralista. Afinal, há diversos casos de médicos abusadores.

A graça de estado que o médico possui é baseado não só na doutrina católica, como na razão. Não é um modo de justificar toques indiscretos em certas circunstâncias.


Pela doutrina católica, o Catecismo da Igreja Católica, no Can. 2004: "Entre as graças especiais, devem mencionar-se as graças de estado, que acompanham o exercício das responsabilidades da vida cristã e dos ministérios no seio da Igreja (...)" [5].

Pela razão, vemos que a chamada graça de estado, por causa do ofício médico, não exige que a pessoa seja católica.

Em todos os países onde existe medicina, e o neopaganismo não tomou inteiramente a mentalidade do povo, há uma ética médica, por vezes em forma de lei, advertindo o profissional que o uso inadequado da função pode acarretar punição. Da mesma forma
, durante um socorro, todo socorrista, por causa da própria circunstância que encerra algo grave, tem uma abordagem diferente em relação ao socorrido.

Obj. 4: Esse tipo de raciocínio, que coloca a alma em primeiro lugar e a vida em segundo, possibilita as mais diversas loucuras, como deixar alguém morrer em um quarto sozinho gritando por ajuda, porque é proibido ficar a sós com o sexo oposto.

Resp: Essa objeção é infantil. Se as coisas espirituais têm maior valor, é justamente a caridade, a mais importante virtude, que nos obriga a ajudar um moribundo nesse caso.

Em circunstâncias assim, vale o mesmo que para o caso do médico: há uma graça de estado. Reforça essa noção a possibilidade de entrada do sacerdote em uma casa de perdição, quando por alguma razão um agonizante ali está: nesses casos, confia-se que o sacerdote tem uma graça de estado.

Obj. 5: Acaba-se com todo tipo de namoro católico seguindo esta moral, pois muitas vezes os pais não a seguem, não se importando com castidade também. Ora, é muito inconveniente casar-se com quem não se pode encontrar previamente, pois o conhecimento prévio mútuo de ambos os noivos fica comprometido.

Resp: Se antigamente os noivados consistiam em conversas na presença de parentes próximos, hoje a providência suscitou a inovação tecnológica, que possibilita não só que leiam este artigo online, mas que as conversas sejam
meramente auditivas. Só há detrimento ao casal que se dissolve em conversas pecaminosas, como já compilado neste volume.

Ademais, não é impossível que os noivos se encontrem, enquanto escolham um lugar frequentado e público, apropriado e familiar (isto é, com o máximo de espírito católico). Assim, através do ambiente bem frequentado e familiar, sofrerão socialmente por todo ato imodesto, o que tem chance aumentada de ocorrer, quando o ambiente é frequentado.





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[1] Santo Afonso Maria de Ligório, Escola da Perfeição Cristã, I Parte, Cap.II.
[2] Epístola à Nepotiano. Tradução de: <http://www.newadvent.org/fathers/3001052.htm>.Translated by W.H. Fremantle, G. Lewis and W.G. Martley. From Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series, Vol. 6. Edited by Philip Schaff and Henry Wace. (Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1893.) Revised and edited by Kevin Knight.
[3] OEUVRES SPIRITUELLES DE S. BONAVENTURE, de l'Ordre des Frères Mineurs, Cardinal-Évêque d'Albane, Traduites par M. l'Abbé Berthaumier, curé de Saint-Pallais. Paris. Louis Vivès, Libraire — Éditeur, rue cassette, 23. 1854. Beaugency. — Imprimerie de Gasnier. Numérisation: Abbaye Saint Benoît de Port-valais, 2005. Link: https://www.bibliotheque-monastique.ch/bibliotheque/bibliotheque/saints/bonaventure/vol02/014.htm#_Toc101148485
[5] Link: http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s1cap3_1949-2051_po.html
[4] Segundo domingo depois da Epifania, sermão sobre o casamento. Tradução do link: https://livres-mystiques.com/partieTEXTES/Ars/Sermons/tome1/mariag10.html
[5] La Beata Ana María Taigi - Madre de Familia, Albert Bessiéres, S. I., 1942. Imprimatur Mons. Dr. Antonio Rocca, Obispo de Augusta y Vicario General, p.34