Papas, Santos e Teólogos sobre o beijo na boca, de língua, toques e outros atos sem perigo de polução (entre namorados e casados)

Papa Alexandre VII
Do livro "O Príncipe dos Cruzados".

Antes de qualquer coisa, convém recordar o “Compendium Theologiae Moralis”, dos Padres Ferreres e Mondría (Vol. 1, n. 512). lembrando que em uma época em que tais erros não abundam, tais temas devem ser tratados como a maior discreção possível, se é que devem ser tratados, como há pouco tempo atrás se falava de homossexualismo na orelha das pessoas. Mas como hoje se fala no jornal, é preciso se pronunciar, tendo estes devidos cuidados:

“512. É necessário em primeiro lugar referir as palavras de Santo Afonso – e fazê-las nossas – no início do seu tratado sobre o sexto mandamento.

“Agora será preciso tratar daquela matéria cujo simples nome infecciona as mentes dos homens (...) se ao menos eu as pudesse explicar de modo mais breve ou mais obscuro! Mas como essa matéria é mais frequentemente e mais abundantemente matéria das confissões (...) daí ser minha obrigação (...) com clareza (...) me explicar. No entanto eu suplico aos estudiosos (...) que ao lê-lo, com mais freqüência elevem a mente a Deus e encomendem a si mesmos à Virgem Imaculada: para que não aconteça que enquanto se esforcem em conquistar para Deus as almas dos outros, venham a sofrer prejuízo em suas próprias almas”.

Observação: As partes pudendas do corpo são não só as partes em que se dá a perpetuação da espécie, mas certas zonas que por uma certa conexão, sendo mostradas, despertam violentamente o instinto sexual. Portanto, dado que as zonas impudendas são as mãos, pés, o rosto, o ante-braço, nuca, e a zona semi-pudenda é aquela que não é diretamente imoral mostrar, mas que uma moral exímia, preferia que não mostrasse (por exemplo o braço, pescoço, um pequeno espaço abaixo do pescoço, o tornozelo), todo o resto seria a zona pudenda.

Provaremos primeiro as seguintes afirmações, dispondo os textos dos Papas, Santos e Teólogos em seguida de modo ilustrativo a estas proposições:

->Entre namorados ou noivos, o beijo na boca, com a língua encontrando a do outro ou não, e os toques nas partes pudendas ou semi-pudendas do corpo, mesmo sem perigo de polução, com a intenção do prazer sexual ou sensível constituem pecado mortal.

->Entre casados, o beijo na boca, com a língua encontrando a do outro ou não, e os toques nas partes pudendas ou semi-pudendas do corpo, mesmo sem perigo de polução, com a intenção do prazer sexual ou sensível, enquanto visam preparar ou estimular o cumprimento do ato sexual, não constituem pecado mortal.

São Tomás de Aquino [1] e os teólogos católicos em geral apontam três fatores dos atos humanos indicadores da moralidade. Sem um deles, o ato é imoral:

1 - Objeto                      2 - Circunstância                  3 - Intenção

1 - O objeto, o beijo e o toque, não são intrinsecamente maus, visto que existem por costume pátrio, ou outra circunstância justa, como no caso de quem coloca a boca na boca do outro e assopra, para salvá-lo do afogamento.

2 - Pela circunstância, podemos dizer que quando há estímulo sexual, o beijo e o toque são pecado grave entre namorados porque eles não vão se engajar no ato sexual, portanto não podem excitar a sexualidade. Pode se objetar que algumas carícias, e alguns beijos na boca ou até de língua não estimulam a sexualidade, mas só um prazer sensível. No entanto, essa objeção é falsa, dado que se não estimulam a sexualidade, constituem perigo próximo para tal, para os namorados e para as pessoas assistindo, visto que os namorados não podem ficar sozinhos por causa desse mesmo perigo próximo originário do desejo de entregar-se corporalmente ao namorado (a), desejo tal que precisa existir em quem tem vocação matrimonial, mas reprimido pelo menos até o casamento. 

Para os casados a circunstância só proíbe o ato quando há outras pessoas olhando.

3 - É desse fator que vem a frase "o fim não justifica os meios". Nesse caso, entre namorados, é ruim todo beijo ou toque visando a prazer sexual ou venéreo, porque aos namorados não são lícitos tais prazeres. O namoro é uma relação de dois que visa o conhecimento das partes, suas características morais e espirituais, e não tirar um proveito sensível. O namoro deve começar do espiritual, passar pelo intelectual, e daí deve vir toda afeição, tal como uma amizade, até o dia em que ambos possam, já entregues em todas as esferas da harmonia interpessoal, se entregar corporalmente, formando uma completa entrega, duas carnes formando uma. Além disso, os toques e beijos visando o prazer sensível possuem em geral uma mentalidade romântica por trás, fantasiosa, fazendo a pessoa perder o senso da realidade e do parceiro, o qual ela deveria conhecer no namoro. 

Para os casados, a intenção só corrobora a licitude destes atos quando direcionada ao ato sexual ou estimuladora dele, porque fora disso ou prolongadamente nisso há o perigo de polução próxima, ou de um gosto por estes atos em detrimento do ato sexual, ao qual ele deveria servir, levando à perda de tempo, e desse gosto podem vir erros gravemente pecaminosos. Além disso, possibilitam uma romantização fantasiosa, dado que os beijos principalmente são feitos de olhos fechados pela impossibilidade de ver qualquer coisa, ao contrário da maior parte do ato sexual, que possibilitando o contato visual face a face, é mais real, mais próprio para um tipo de aumento do amor mútuo entre os esposos, em que um se alegra com a alegria do outro, pois são ambos "uma só carne".

Papa Alexandre VII (1655-1667)

Segundo a condenação da frase abaixo, o beijo dado em vista do deleite carnal não pode ser considerado só pecado venial mesmo não tendo relação sexual em seguida, ou seja, o beijo que visa somente o deleite carnal originado dele é pecado grave.

Condenou a proposição: "É opinião provável a que diz ser somente pecado venial o beijo que se dá pelo deleite carnal e sensível que do beijo origina, excluindo o perigo de ulterior consentimento e polução" [2].

Santo Afonso Maria de Ligório (1696-1787)

"No entanto, nota-se corretamente que o beijo, mesmo sendo costume da pátria, se se faz demoradamente, ou com ardor, são normalmente pecados mortais. O mesmo se diz quando toca a boca, ou se a boca encontra a língua do outro" [3].

"Beijos, abraços, olhares, toques, e semelhantes, se se faz fora do matrimônio, com intenção luxuriosa, ou pelo prazer venéreo, mesmo se não se atingem esta intenção ou prazer, porque estão na direção de atingirem, são sempre pecados mortais: porque o que os anima, fora do matrimônio, é impuro, e tais prazeres por sua natureza tendem à se completarem" [4].

São Tomás de Aquino (1225-1274)

Objeções: parece que não há pecado mortal nos toques e beijos.

1. O apóstolo diz em Efésios 5, 3: Nem sequer se nomeie entre vós a fornicação ou qualquer impureza ou avareza, como convém a santos. E adiciona (v.4): nada de obscenidades, de conversas tolas ou levianas. Tudo isto interpreta a Glosa, obscenidades (beijos e abraços), conversas tolas (conversa mole e obscena), e levianas ( jocosidade, o que os néscios chamam chocarrice). E depois ele continua (Ef.5,5): “Porque sabei-o bem: nenhum dissoluto, ou impuro, ou avarento - verdadeiros idólatras! - terá herança no Reino de Cristo e de Deus” , e aí não se refere mais às obscenidades, nem às conversa tolas, e aos gracejos atrevidos. Logo, não são pecados mortais.
2. Ainda, dizemos que a fornicação é pecado mortal porque impede o bem da geração e educação da prole. Mas nisto não fazem em absoluto os beijos, toques e abraços. Logo, neles não se dá pecado mortal.
3. E também: as coisas que são em si mesmas pecados mortais não podem ser nunca boas ações. E os beijos, toques, etc, podem se fazer sem pecado. Então eles não são pecados mortais neles mesmos.

Em sentido contrário, um olhar luxurioso é menos obsceno que um toque, um abraço ou beijo. Mas de acordo com Mateus 5, 28: “Todo aquele que olha uma mulher com desejo, já cometeu adultério com ela no seu coração”. Por isso, com maior razão será pecado mortal beijos sensuais e atos similares (...).
Solução. Uma coisa é dita pecado mortal em duplo aspecto. Em primeiro lugar, por sua espécie. E assim considerado, os beijos, abraços e toques não são necessariamente pecados mortais, pois podem ser feitos tais atos sem sensualidade, por ser costume da pátria, ou por necessidade ou por outra circunstância ou causa razoável.

Em segundo lugar, dizemos que uma coisa é pecado mortal por razão de sua causa: aquele que dá esmola para induzir alguém à heresia, peca mortalmente pela corrupção existente na intenção com que o faz. Agora, já foi dito antes (I-II, 74, 8), que é pecado mortal não só consentir com um ato, mas também se deleitar com o pecado mortal. Por isso, dado que a fornicação é pecado mortal, e os são muitos mais outras espécies de luxúrias, segue que nesses pecados não só consentir com o ato mas deleitar-se com ele é pecado mortal. Consequentemente, quando os beijos, abraços, etc, tem por fim este deleite, segue que são pecados mortais. E só nesse sentido eles são tomados como libidinosos e, como tais, são pecados graves.

Respostas às objeções
1. O apóstolo não menciona os três últimos atos porque não são graves senão enquanto direcionados aos anteriores mencionados.
2. Apesar dos beijos e toques não impedirem pela própria natureza o bem da prole, são frutos da sensualidade, que é a raiz desse impedimento, e por isso são mortalmente pecaminosos.
3. Da objeção se deduz que estes atos não são pecados mortais por sua natureza mesma [5].

Pe. Antonio Royo Marín O.P. (1958)

602. 2.° Beijos e abraços.

a) Constituem pecado mortal quando se tenta com eles excitar diretamente o deleite venéreo, embora se trate de parentes e familiares (e com maior razão entre estes, pelo aspecto incestuoso desses atos).

b) Podem ser mortais, com muita facilidade, os beijos passionais entre noivos (embora não se tente o prazer desonesto), sobre tudo se forem na boca e se prolongam algum tempo; pois é quase impossível que não representem um perigo próximo e notável de movimentos carnais em si mesmo ou na outra pessoa. Quando menos, constituem uma falta maior de caridade para com a pessoa amada, pelo grande perigo de pecar a que a expõe. É incrível que estas coisas possam fazer-se em nome do amor (!). Até tal ponto os cega a paixão, que não lhes deixa ver que esse ato de paixão sensual, longe de constituir um ato de verdadeiro e autêntico amor—que consiste em desejar ou fazer o bem ao ser amado—, constitui, em realidade, um ato de egoísmo refinadíssimo, posto que não vacila em satisfazer a própria sensualidade até a custa de lhe causar um grande dano moral à pessoa amada. Diga-o mesmo dos toques, olhares, etc., entre esta classe de pessoas.

c) Um beijo rápido, suave e carinhoso dado a outra pessoa em testemunho de afeto, com boa intenção, sem escândalo para ninguém, sem perigo (ou muito remoto) de excitar a própria ou alheia sensualidade, não pode proibir-se em nome da moral cristã, sobre tudo se houver alguma causa razoável para isso; v.gr., entre prometidos formais, parentes, compatriotas (onde haja costume disso), etc.

d) O que acabamos de dizer pode se aplicar, na devida proporção, aos abraços e outras manifestações de afeto [6].

Pe. Thomas Morrow (2003)

“Uma pergunta clássica entre os solteiros diz respeito ao french kiss ou beijo de língua. É aceitável ? Redondamente, não. Houve mulheres que me disseram serem capazes de fazê-lo sem se sentirem excitadas, e acredito nelas. Mas, é difícil encontrar um homem normal que não se excite com um beijo de língua. As mulheres são responsáveis pelo que provocam no homem, assim como pelo que provocam e si mesmas.

Um estudante disse-me: "Padre, eu consigo dar um beijo de língua sem excitar-me". Repliquei-lhe: "Talvez seja porque o faz mal". Também pode ser porque, pela prática constante, um homem se torne insensível, mas esse processo de insensibilização esconde já muitos pecados graves (...)

O propósito do namoro é chegar a conhecer a outra pessoa para ver se seria conveniente casar-se com ela. Os beijos prolongados não ajudam a alcançar esse objetivo. Geralmente, faz-se isso por ser agradável, não para se chegar a uma descoberta interpessoal. De modo que, ainda que os beijos prolongados não provoquem excitação (o que poderia ser caso para uma consulta médica), são contraproducentes para o namoro. São pelo menos um pecado contra a virtude da prudência (...) Pôr-se voluntariamente em perigo de pecar já é um pecado” [7]

Pe. Jean-Pierre Gury, S.J. (1862)

413. - I.  Beijos e toques verdadeiramente impuros, ou beijos e toques direcionados às partes pudendas de outra pessoa (especialmente do sexo oposto) sem uma razão séria, podem raramente ser livres de pecado mortal, mesmo se o prazer sexual é ausente, devido ao perigo eminente que eles trazem.

II.  Beijos e toques direcionados às partes impudendas ou semi-pudendas (honrosas ou menos desonorosas) do corpo constituem pecado mortal se são feitas buscando o prazer sexual. São pecados veniais se elas são feitas por razão de leviandade, brincadeira, curiosidade, etc. No entanto, elas são livre de toda culpa se são feitas de acordo com o costume local por razões de cortesia e bons sentimentos mútuos. As razões para isso são óbvias.

414. - III.  Toques e beijos direcionados às partes impudendas (honrosas) não são facilmente desculpadas de perigo mortal se elas são feitas muito caprichosamente ou muito frequentemente, especialmente entre jovens do sexo oposto, na ausência de qualquer necessidade, mesmo se o motivo é puramente o prazer não-sexual. A razão é que os sentimentos carnais e o prazer sexual necessariamente aparece de atos destes feitos repetidamente ou caprichosamente... [8]

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[1] Suma Teológica, I-II, q.18, art.2,3,4.
[2] Proposição Condenada por Alexandre VII em 1665/1666. Denzinger 1140
[3] Theologia Moralis, Livro III, Trat.IV, Cap.II, Dubium I, n.417
[4] Theologia Moralis, Livro III, Trat.IV, Cap.II, Dubium I, 414.I
[5] Suma Teológica, II-II, q.154, art.4 
[6] Teología Moral para seglares, B.A.C. (1958), Cap.II, IV.
[7] "Namoro Cristão em um mundo supersexualizado", 2003, Cap.3.
[8] Compendium Theologiae Moralis (1862), Cap I. Sobre pecados sexuais não consumados, Artigo I. Sobre beijos e toques impuros