Por causa do teste de Gamaliel, que o explanou em Atos V:
"Faz algum tempo apareceu um certo Teudas, que se considerava um grande homem. A ele se associaram cerca de quatrocentos homens: foi morto e todos os seus partidários foram dispersados e reduzidos a nada. Depois deste, levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e arrastou o povo consigo, mas também ele pereceu e todos quantos o seguiam foram dispersados. Agora, pois, eu vos aconselho: não vos metais com estes homens. Deixai-os!
Se o seu projeto ou a sua obra provém de homens, por si mesma se destruirá; mas se provier de Deus, não podereis desfazê-la. Vós vos arriscaríeis a entrar em luta contra o próprio Deus”.
Imagem: S. Inácio de Antioquia (+108 D.C), bispo, exclama ao único Deus verdadeiro antes de seu martírio no Coliseu Romano
Extraído de: "O Príncipe dos Cruzados" (volume II, 3a edição).
Sumário
- Introdução
- Ditames liturgicistas: constante em todas as más reformas das missas católicas orientais
- “Latinização”: acusação válida enquanto não atender aos ditames liturgicistas e reformistas, que são latinizações recentes
- Teoria dos Gêneros Litúrgicos contra o liturgicismo progressista
- Hipótese da original divisão Divina do globo por Gêneros Litúrgicos
- Gênero Litúrgico Siríaco: grandes mudanças e bem documentadas
- Gênero Litúrgico Bizantino: rito menos suscetível de Revolução Litúrgica por motivos geográficos
- Gênero Alexandrino: por onde pode se infiltrar o maligno
- Gênero Litúrgico Armeno: aparentemente o mais preservado dos ritos orientais
- Proposta de atitude acerca das missas reformadas, dadas as barreiras linguística e de acessibilidade aos missais antigos
- Conclusão: a Divina Providência deixou sinais contra alterações litúrgicas do futuro
***
Objetiva-se compilar relatos históricos de mudanças em várias espécies litúrgicas do Oriente a fim de subsidiar o católico que, amante da riqueza universal emanada da Igreja e de seus Apóstolos, anseia pela penitência e sacrifício que uma Missa da Tradição fornece (o rito Latino Tradicional é meramente uma fonte oriunda dos Apóstolos ali enviados e é regulada pelo Príncipe dos Apóstolos, o sucessor de S. Pedro em Roma).
- Introdução
Não raramente, católicos se enganam achando que a Revolução, tendo se esgueirado pelo templo sagrado da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, se deteve ao criar nova liturgia e missal Romano para o mundo latino, o mais predominante no mundo e no ocidente. Se em 1976 Plinio Corrêa de Oliveira declarou, acerca dos frutos do Concílio Vaticano II, que “a Revolução adentrou na Igreja”, é preciso lembrar: o fenômeno descrito em seu Magnum Opus é tipicamente ocidental, mas pode atingir o oriente à medida que este é afetado pelo ocidente. Ademais, a metafísica da Revolução é o igualitarismo.
Nada mais deduzível, portanto, que se rumasse a uma missa global e igualitária enquanto os revolucionários em matéria litúrgica do ocidente fossem influentes: o rito internacionalista da alegada missa primitiva (curiosamente cheia de cantos modernos e melosos de cada decadência local).
Neste artigo, tentamos provar essa afirmação com documentos e fontes acessíveis ao mesmo tempo que esboçamos conclusões para os espíritos que, estranhando alguns ritos orientais via “sensus fidei”, desejam saber a razão.
Se alguns ritos em comunhão com Roma se mantiveram em grande parte intactos no aspecto penitencial (suscitando em mais ódio do movimento litúrgico progressista) a razão foi a Divina Providência que, com a migração de muitas comunidades orientais no século XX, via mais adiante. De fato, muitas dessas comunidades são ativas, vivas, e acolhem a todos os católicos, o que causa ódio na Revolução, a qual sempre quis semear discórdia nessas comunidades a fim de que possam vir a desaparecer, dando origem a um rito internacionalista e antipenitencial global.
- Ditames liturgicistas: constante em todas as más reformas das missas católicas orientais
Para entender o que é o erro do liturgicismo e como ele foi, bem antes de sua adesão generalizada, criticado pelo magistério, recomendamos os artigos sobre o tema, pois iremos calcar a crítica inicial neles:
- “Latinização”: acusação válida enquanto não atender aos ditames liturgicistas e reformistas, que são latinizações recentes
Ao longo deste apanhado de relatos sobre o histórico de mudanças litúrgicas em ritos orientais que existem (ainda que minoritariamente em relação às contrapartes cismáticas) no seio e na economia da graça da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, uma palavra foi bastante empregada: latinização.
A Latinização sempre foi rejeitada por homens verdadeiramente apostólicos, como os jesuítas que colaboraram com os navegadores dos séculos XV e XVI para pregarem em lugares distantes e entraram em atrito até com missionários de outras santas ordens religiosas, os quais não entenderam o quanto era necessário cristianizar costumes locais e não impor os ocidentais.
Não se deve, entretanto, acatar qualquer modificação ou substituição meramente porque visa “diminuir a latinização do rito”. Afinal, todo Santo Sacrifício da Missa possui as mesmas quatro tradicionais finalidades, isto é, adorar, pedir, dar graças e se penitenciar. E assim deve se analisar.
Em síntese, latinização, enquanto se refere a substituir elementos tradicionais litúrgicos idênticos do oriente, traz problemas. Já quando o termo é usado para rejeitar elementos de caráter propiciatório ou outro caráter do rito sem substituir por equivalentes do oriente, é maléfico, seja qual for a “razão histórica” (os liturgicistas e progressistas são verborrágicos para explica-las, ainda que não consigam explicar porque, assim como os protestantes, suas afirmações pressupõem que a Providência Divina não agiu por inúmeros séculos até que viessem aqueles verdadeiramente doutos em liturgia: eles mesmos). De fato, evita-se latinização quando se rejeita má doutrina litúrgica latina.
- Teoria dos Gêneros Litúrgicos contra o liturgicismo progressista
Aproveitamos para inserir aqui duas imagens da teoria contrária à lorota “toda missa saiu de Jerusalém”. Pela pregação dos Santos Apóstolos, que abrangeu o mundo civilizado inteiro, verifica-se: foram instituídos 5 gêneros litúrgicos, os quais deram origem a várias espécies. Um só gênero litúrgico possui uma só espécie, o Armeno.
- Hipótese da original divisão Divina do globo por Gêneros Litúrgicos
Também as imagens a seguir dizem respeito a uma hipótese lindíssima que avançamos acerca dos gêneros litúrgicos e a geografia pré-diluviana pensada por Deus e exposta por Fernand Crombette. Claramente, tais relações só podem ser feitas com a noção de gênero litúrgico, algo contrário ao liturgicismo do rito internacionalista
- Gênero Litúrgico Siríaco: grandes mudanças e bem documentadas
Maronita
Considerado de gênero litúrgico siríaco (alguns dizem tradição Siríaca Ocidental), já analisamos mais especificamente no artigo desta edição do vol. II:
Bebê recém-batizado sendo coroado, como no costume sírio-malabar
Apesar do missal recém-restaurado em 1962, essa liturgia tinha poucas alterações em relação ao anterior, mas sofreu alterações pela Revolução Litúrgica progressista e continuou a mudar até o novo modificado de 1989.
Informa o Pe. Antony Nariculam, do Seminário Pontifício:
“A Comissão Romana restaurou o texto da Santa Missa (1957 em latim; 1960 em siríaco; 1962 em malaiala-siríaco), as orações variáveis das estações litúrgicas e festas (1960: Supplementum Mysteriorum), o Pontifical (1958) e o livro das rubricas (1959: Ordo celebrationis). Como o ano de publicação desses textos revela, todos eles eram textos anteriores ao impulso de renovação do Concílio Vaticano II.
(...)
O texto restaurado da Santa Missa foi introduzido para uso público em 1962 (...)
Parece que nem todas as seções da Igreja estavam felizes com o texto. Com base em reclamações contra esse texto de várias partes, Roma fez alguns ajustes nele em 1963, encurtando o comprimento das leituras e dos Salmos e evitando repetições de certas orações [N.E..: influência do liturgicismo aqui]. (...).
Insatisfeitos com a situação, os bispos prepararam um texto totalmente revisado da Santa Missa em malaiala em 1968 e obtiveram aprovação temporária de Roma para seu uso experimental. No entanto, uma seção da Igreja Siro-Malabar não conseguiu apreciar o texto de 1968 e argumentou a favor do texto restaurado de 1962 (...)
Muitos esperavam que a 'crise litúrgica' terminasse com a publicação do texto da Santa Missa e sua inauguração pelo Papa. Em vez disso, a crise foi agravada, o que levou o Cardeal Prefeito da Congregação Oriental a visitar as dioceses Siro-Malabares para lidar com a questão. Como consequência dessa visita, um novo conjunto de diretrizes foi dado para preparar o texto da Santa Missa em suas Formas Simples e Solenes e foi introduzido em 1989. Esse texto permitiu algumas 'dispensas' e muitas 'opções'. O texto atualmente em uso é esse texto de 1989.” (Tradução com auxílio do ágil chat GPT. Retirado em 13/4/24: https://nelsonmcbs.com/2020/07/29/syro-malabar-liturgy-2/).
Ademais, tesstemunha um autor sobre a mente do Cardeal Parecattil, que queria adequar o rito sírio-malabar aos ditames liturgistas do Concílio Vaticano II:
" (...) liturgia caracterizada por símbolos comumente usados na Índia, e particularmente pelos Hindus, foi tentada com o fim de estimular a participação comunal, de acordo com os ensinamentos do Vaticano II. Pela mesma razão, Parecattil quis revisar o texto de 1968 mais detalhadamente, e teve um papel importante na preparação da "missa curta". Sobre o missal abreviado ele escreveu: "somente deixa algumas "repetições inúteis" de acordo com art. 34 da Constituição da Sagrada Liturgia [N.E.: documento do Concílio Vaticano II]" (Jacob Nangelimalil, The Relationship Between the Eucharistic Liturgy, the Interior Life and the Social Witness of the Church According to Joseph Cardinal Parecattil, Volume 7 de Tesi Gregoriana: Teologia Series, Editrice Pontificia Università Gregoriana, 1996, p. 60).
Mesmo a liturgia sírio-malabar já bem modificada, um Santo Padre influenciado pela mentalidade litúrgica internacionalista não perdeu oportunidade em insistir em uma “uniformidade” entre os celebrantes dessa espécie litúrgica, uma vez que muitos continuavam a se voltar para o altar de Deus e não, como quer o liturgicismo, para o povo. No fim de 2023, notícias circularam de que a forma voltada para o povo era majoritariamente rechaçada em uma diocese, e boatos difundiam a notícia de que o Santo Padre excomungaria quem se opusesse a essa mudança, ou seja, basicamente toda uma diocese por um motivo tão simplório. A notícia indica um esforço de rumar a uma liturgia internacionalista como produto final de processos de mudanças em ritos ao redor do globo (“Papa pode excomungar 400 sacerdotes de rito oriental Siro Malabar”, Omnes. Retirado em 14/4/2024: https://omnesmag.com/pt/noticias/ultimatum-siro-malabar/).
Caldeu
Similar processo ocorreu no Rito Caldaico ou Caldeu Assírio, pertencente ao gênero litúrgico oriental sírio na hipótese que desenvolvemos. A diocese Católica de S. Pedro Apóstolo, de uma eparquia nos Estados Unidos, conta sobre a reforma da liturgia (“Q & A on the Reformed Chaldean Mass”, WebArchive.org. Tradução com auxílio do ágil DeepL.com. Retirado em 14/4/2024: https://web.archive.org/web/20140128133850/http://www.kaldu.org/14_Reformed_ChaldeanMass/QA_NewMass.html):
“P - Quando e como foi elaborada a Missa Reformada?
R - A Missa Caldéia Reformada é o trabalho de um Comité Litúrgico Patriarcal iniciado pelo último Patriarca, Sua Beatitude Raphael I Bidawid de abençoada memória, interagindo com toda a hierarquia da Igreja Caldéia e continuado sob o patrocínio do nosso amado Patriarca Mar Emmanuel III Delly (...). As datas mais significativas são as seguintes:
* 12 de novembro de 2005 - o Santo Sínodo Caldeu em Roma aprova o Missal Reformado.
* 18 de fevereiro de 2006 - o Vaticano reconhece oficialmente o Missal Reformado.
* 6 de janeiro de 2007 - a data dada para o início da Nova Missa pelo Santo Sínodo Caldeu realizado em Shaqlawa, Iraque, de 9 a 11 de maio de 2006 (...).
P – Por que uma nova Missa?
R - O Concílio Vaticano II apresenta razões para uma Reforma de todas as Liturgias Católicas no início da sua primeira Constituição, Sacrosanctum Concilium: (...)
"4. O sagrado Concílio, guarda fiel da tradição, declara que a santa mãe Igreja considera iguais em direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos, quer que se mantenham e sejam por todos os meios promovidos, e deseja que, onde for necessário, sejam prudente e integralmente revistos no espírito da sã tradição e lhes seja dado novo vigor, de acordo com as circunstâncias e as necessidades do nosso tempo.” (...)
P - Quais são algumas das mudanças mais dramáticas?
R - Embora a maior parte das mudanças na Missa sejam notadas principalmente pelo sacerdote, algumas mudanças são ainda mais visíveis, por exemplo:
* A Oração Eucarística ou Anáfora, o momento mais culminante da Missa, é agora dita em voz alta pelo sacerdote, onde antes era dita em silêncio. Isto permite que o povo participe, através da sua atenção consciente, na totalidade da Missa (...).
P - Como o povo vai participar?
R - A Missa Nova oferece muito mais oportunidades para a participação do povo:
* Na Missa antiga, havia uma separação entre a oração do sacerdote e a do povo: enquanto o sacerdote rezava a Oração Eucarística, a mais importante da Missa, o povo cantava um cântico ou rezava sozinho. Na Nova Missa, o povo pode participar com o sacerdote, rezando no seu coração a mesma oração que o sacerdote reza em voz alta.
(...)
P - Porque é que os anúncios não são feitos no mesmo lugar de antes? E por que não rezamos um Pai-Nosso e uma Ave-Maria pelos defuntos?
A - Interromper a ligação entre a leitura do Evangelho e o sermão foi sempre uma distração. Antes, quando ouvíamos o sermão, esquecíamos completamente a história do Evangelho, porque tínhamos de pensar nos parentes mortos, nas segundas colecções ou nas festas de angariação de fundos. Agora, já não há distração - ouvimos o Evangelho proclamado, depois ouvimo-lo pregado. As intenções da Missa, incluindo os nomes dos defuntos, e os anúncios, foram deslocados para lugares muito mais apropriados:
* Os nomes das pessoas por quem rezamos durante a Missa passaram a fazer parte integrante do próprio Ofertório, em vez de serem uma questão secundária. Agora fazem parte do "Livro dos Vivos e dos Defuntos", as pessoas que são nomeadas como intenções para toda a Missa, e não apenas para um Pai-Nosso e uma Avé-Maria.
* Tal como noutras Igrejas, os outros anúncios foram deslocados para antes da bênção final.
P - Porque é que o padre já não prepara o pão e o vinho na Missa?
R - Mais uma vez, num "regresso às nossas raízes", o pão e o vinho são preparados antes do início da Missa. Isto está em conformidade com as acções de Cristo, que antes do início da Última Ceia enviou os discípulos para "preparar a refeição" na Ceia da Páscoa (...).
Q. E os outros sacramentos e cerimônias da Igreja? Também vão ser reformados?
R - Sim. Conforme declarado pela Comissão Patriarcal, a Reforma da Liturgia Caldeia começou com a Missa, e continuará o seu trabalho de melhoria e revisão de todas as outras orações oficiais da Igreja (...).”
Sírio-malankar
Rito sírio-malankar sendo celebrado
Por causa de mudanças como as relatadas anteriormente, diz o site Rorate Caeli (Tradução com auxílio do ágil Chat GPT. Retirado em 14/4/2024: https://rorate-caeli.blogspot.com/2015/09/infusing-spirit-of-novus-ordo-into.html)
"Com a notável exceção dos siro-malankares, as Igrejas Católicas Orientais de tradição siríaca (maronitas, caldeus, católicos siríacos, siro-malabares) têm sofrido um "novusordoismo" crescente com a adoção generalizada do ad populum (facilmente verificável na Internet), o abandono da cortina ou véu do santuário comum às tradições siríaca e armena, e uma tendência para abreviar e modernizar a liturgia. Num artigo escrito por um caldeu em defesa da celebração da Missa ad orientem (Virado para a Cruz), o autor lamenta que a celebração da Missa ad populum se tenha espalhado por quase todas as dioceses católicas caldeias, mas também salienta que isso é contrário à lei e tradição litúrgicas caldeias. Infelizmente, com a última reforma litúrgica do seu próprio Patriarca, o ad populum e a perda do véu do Santuário passaram de meros abusos generalizados a práticas "normalizadas" para os caldeus. Vimos manobras semelhantes serem usadas repetidamente no Rito Latino e não temos ilusões quanto aos danos adicionais que isto acabará por infligir ao espírito de um povo já devastado".
Dado o fato que dignidades eclesiásticas como o Cardinalato, nesses tempos sombrios de mudanças litúrgicas, costuma preceder a alteração de missas tradicionais, é de se temer reformas no futuro próximo porque há um jovem Cardeal votante naquela pequena comunidade (descendente, em linha episcopal, do famoso bispo que voltou essa comunidade e rito para a verdadeira fé). Rezemos pelos católicos desse rito, laicato ou clero.
- Gênero Litúrgico Bizantino: rito oriental menos suscetível de Revolução Litúrgica por motivos geográficos
Sabe-se que atualmente, o gênero litúrgico bizantino e suas espécies, especialmente a ucraniana e a melquita, congregam mais de cinco milhões de fiéis no mundo todo. Se se agrega ao fato de que há espécies desse gênero em toda Europa e Eparquias no Ocidente em virtude de diáspora dos povos comumente relacionados ao rito (no território latino e ocidental, bispos da diáspora estão sujeitos diretamente ao Papa, ou Patriarca do Ocidente, e não ao Patriarca respectivo), a geografia e mentalidade que se precisa mudar para conseguir a mudança sincronizada almejada pela Revolução é árdua: o território é muito vasto, e as diferenças, complexas. Vale notar que as tradições ou espécies geralmente indicam, liturgicamente falando, modos diferentes de cantar e alguns gestos diferentes ou adicionais.
Entretanto, é sabido que também neste rito algo do aspecto penitencial geralmente é omitido ou retirado, especialmente nas missas da semana em eparquias numerosas de rito bizantino. Por exemplo, o equivalente do Kyrie Eleison ou “Senhor, tende piedade” foi trocado por “Senhor, ouvi-nos”, uma clara substituição de uma oração de caráter propiciatório ou penitencial para uma de caráter de petição ou de pedido. O “Kyrie Eleison” é muito repetido no rito bizantino.
Ademais, após a homilia, por motivos de brevidade entre outras razões, já não se canta cinco vezes o “Kyrie Eleison” em muitas espécies litúrgicas, ainda que o povo esteja favorável a que se cante.
Por mais que a quantidade de vezes em que se fala “Senhor, tende piedade” não seja sinônimo de devoção, humildade ou penitência genuína, a comparação da diminuição do número de “kyries” com a quantidade anterior não devia passar sem lamentação (no sentido penitencial).
Já em certas festas litúrgicas e eventos o número de “kyries” certamente aumenta, embora seja duvidoso que figurassem em igual quantidade antes da retirada.
É árduo e inútil contar o número de “Kyries” no Rito Bizantino para contrastar com o número de outras partes fixas do rito romano tradicional para efeitos quantitativos. São orações de contexto e ritualística diferentes. Contudo, não se exige muito esforço para compreender que, atualmente, essa perda não é nem metade da perda na comparação entre rito latino novo e latino tradicional.
Talvez por isso, há muito tempo (desde João Paulo II), quase todo Sumo Pontífice entusiasta da reforma litúrgica não vê problema ao concelebrar ou participar de um Rito Bizantino.
Mas quando o Rito Bizantino é celebrado na Basílica de S. Pedro, que está eivada de mentalidade liturgicista, lá estão inúmeros bispos e sacerdotes desse gênero litúrgico. Mal ou bem, impede-se a celebração de outra liturgia daquela no dia, mesmo modificada. Como já visto com textos autoritativos, o liturgicismo favorece a única missa, algo contrário mesmo à tradição litúrgica católica e agradável ao inferno, que é oprimido por cada missa de valor infinito. Já os falsos peritos em liturgia, que argumentam que séculos de Tradição não perceberam a necessidade de uma missa primitiva, alegam que nunca houve a tradição de missas simultâneas no oriente. De fato, isso gera discussão histórica extensa, o que deveria ser selado pelo simples fato de que a liturgia própria do sucessor de S. Pedro em Roma, o Sumo Pontífice da Igreja Universal e Patriarca do Ocidente, não deixou de favorecer as missas simultâneas, o que se percebe pelos inúmeros altares laterais na Basílica de S. Pedro do Vaticano.
- Gênero Alexandrino: por onde pode se infiltrar o maligno
Quem assistiu a um Rito Alexandrino por vídeo lembra do instrumento que se toca ali como sino junto dos cantos, o qual aparenta, à primeira impressão, estridente e inadequado. Porém, logo se lembra das tábuas de madeira substitutas do sino na semana santa, bem como se vê que os cantos não são dançantes, e a penitência e pompa litúrgica ali se clarifica.
Devido a barreiras linguísticas e falta de materiais, só é possível dizer, dado o espírito africano mais propenso ao festejo, que o inferno mais provavelmente tentará perverter o rito alexandrino se usando dessa extroversão desmedida. Impossível dissertar mais sobre esse rito e suas mudanças litúrgicas sem ter tempo ou os missais contrastantes. De fato, pode-se verificar como as contrapartes cismáticas de rito alexandrino (bem mais numerosas) celebram o rito para se ter uma noção, embora isso não necessariamente seja garantia de celebração tradicional inalterada.
- Gênero Litúrgico Armeno, aparentemente o mais preservado dos ritos orientais
Vídeo de cismáticos do Rito explicando a missa (mesmo rito dos católicos, com exceção das orações ao Papa, etc)
Os sinais por detrás da nossa hipótese de que o Rito Armeno se manteve intacto são vários: 1. Há conflitos contínuos naquela região (diabo não gosta de missa genuína), sejam bélicos, sejam outros. 2. A diáspora armena católica é bem reduzida e geralmente não consegue se expandir para além de uma missa na nação onde se alocou originalmente. 3. É o único rito de uma espécie só, tornando-o preciosidade litúrgica. 4. Plinio Corrêa de Oliveira, atento às mudanças litúrgicas diversas e notório por seu discernimento dos espíritos, preferia frequentar esse rito como rito público de seu domingo (na época, não havia nenhum rito público latino tradicional).
Isso, porém, é uma hipótese para além do objetivo deste artigo.
- Proposta de atitude acerca das missas reformadas, dadas as barreiras linguística e de acessibilidade aos missais antigos
É preciso se municiar com o básico do que o magistério falou sobre o erro do liturgicismo, bem como da importância da noção penitencial nas missas, que é refinamento do erro anterior. Se é possível escolher, visa-se as missas menos modificadas. E estar sempre se indagando e pondo não só o próprio farejo de penitência litúrgica à prova, como o entendimento do cerne desses câmbios, o qual não é meramente de aspecto exterior, mas algo que impacta o exercício da humildade no Santo Sacrifício.
De qualquer forma, missa tradicional pública da hierarquia católica, ocidental ou oriental, que tenha sacramento piedosamente distribuído (na boca), gravidade na melodia e um número maior de orações penitenciais, já é um diferencial nesse mundo confuso e arrogantemente avesso ao próprio passado.
- Conclusão: a Divina Providência deixou sinais contra alterações litúrgicas do futuro
Embora haja espécies litúrgicas do gênero latino, como o rito Ambrosiano, Bracarense, etc, fato é que o missal latino tradicional em uso foi promulgado providencialmente por João XXIII, o mesmo Sumo Pontífice que convocou o Concílio Vaticano II, de onde surgiram diretrizes para um novo missal, o qual só veio a surgir integralmente em 1969.
Não parece óbvio, assim como em muitas liturgias orientais que tiveram missais aprovados às portas de mudanças litúrgicas, que a Divina Providência agiu para salvar as tradições litúrgicas diversas?
Ademais, a aprovação de um Papa iniciador do Concílio Vaticano II para a missa tem efeitos até hoje, por exemplo: 1. Muitos progressistas não podem dizer que a Igreja mudou inteiramente, até mesmo na Liturgia, com João XXIII. 2. Evita cismáticos latinos que simploriamente imputam todos os problemas da Igreja àqueles Pontífices. 3. Faz com que o alto clero simpático ao progressismo respeite a liturgia promulgada por um Pontífice tido atualmente em grande estima.
A Divina Providência, ao aproximar ao máximo o tempo de aprovação daqueles missais por Roma e o tempo de implementação das reformas, tornou bem estranho a alegação de que aqueles missais que tinham passado por revisões longas e recentes ainda precisassem de novas modificações.
Além disso, parece que se chega à plenitude dos tempos em termos de ritos orientais em união ao sucessor do Príncipe dos Apóstolos em Roma, o Sumo Pontífice da Igreja Universal: na década de 1930 o último rito sem nenhuma comunidade na Igreja, o Rito Sírio-Malankar, por fim retornou, pelo menos em parte, à comunhão com Roma. Tal obra importante veio especialmente por iniciativa do Venerável Bispo Aboun Mor Ivanios Geevarghese Panikkervettil.
Dado o ímpeto reformista noticiado aqui para as liturgias orientais em comunhão com Roma, pode-se dizer que Deus tolerou os cismas de espécie litúrgica idêntica para que eles mantivessem a tradição litúrgica e dificultassem a mudança global. Também o cisma do Oriente, inicialmente trágico, com a queda de Constantinopla no século XV revelou ao mundo que Deus, pelo decorrer dos fatos, não preservaria as doutrinas cismáticas em Bizâncio, o que se provou mais verdadeiro com passar do tempo, pois houve inúmeros cismas de cismas, igrejas autocéfalas e a perseguição dos muçulmanos àquela maioria cristã em território maometano. Assim, um dos Patriarcas mais antigos, o de Constantinopla, em 2024, é crítico das atitudes da hierarquia Russa cismática, que se pretendeu por muito tempo continuadora de Bizâncio, e por outro lado é bem amigo do Bispo de Roma, o Papa.
Por fim, a imagem do início do artigo é clara: as mudanças litúrgicas do oriente católico foram precedidas de guerras e rumores de guerras em suas regiões predominantes porque o diabo quer acabar com toda missa agradável a Deus, por se sentir oprimido pelo valor infinito de cada uma delas, o qual agrada a Deus, sendo renovação incruenta do Santo Sacrifício do Calvário. Não parece errado afirmar que muitas guerras foram suscitadas pelo inferno a fim de pressionar pela amenização do que mais desagrada ao poder das trevas: o rito conforme a justa medida das finalidades da Liturgia (adoração, propiciação, ação de graças, petição), informado plenamente pela Tradição.
Pela mesma razão é plausível dizer que o Anticristo matará todos os bispos e sacerdotes do planeta até que, contente por finalmente “provar” na prática que a Liturgia Católica tradicional, de qualquer rito, é irrelevante por não haver mais quem a celebre, descubra que é sexta-feira santa.
No vídeo, o Prof. Plinio explica a posição tradicionalista perante a missa nova, que se baseou no livro de Dr. Arnaldo sobre a missa, aqui citado. A comissão indicada pelo Cardeal para tratar do problema da missa então novíssima, que ele cita, não se reuniu mais porque um dos membros acabou por abandonar o sacerdócio
Extraído de: "O Príncipe dos Cruzados" (volume II, 3a edição). Este artigo resume o que há de mais relevante na segunda parte do livro de Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira, "Considerações sobre o "Ordo Missae" de Paulo VI", escrito em 1970, quando passou a vigorar a nova missa. Usaremos quase que somente trechos deste livro, portanto. Sabe-se que esta obra recebeu total assentimento de Plinio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP, à qual também pertencia naquela época o Dr. Arnaldo.Vale notar como o Prof. Plinio, ao surgir a missa nova, incentivou Dr. Arnaldo a continuar seus estudos litúrgicos abordando esse novo missal latino e, após apresentação filial e educada da questão de consciência ao então Cardeal de S. Paulo, este indicou uma comissão do clero para avaliá-la junto a membros da então TFP. Tal comissão não se reuniu mais porque um dos membros, na parte do clero, acabou por abandonar o sacerdócio.
Foi no dia 3 de abril de 1969 que Paulo VI, com a Constituição Apostólica "Missale Romanum", promulgou dois documentos referentes à reforma do rito da Missa Latina Romana. Esses documentos são a "Institutio Generalis Missalis Romani" (Ordenação Geral do Missal Romano. Chamaremos ela de Institutio) e o novo "Ordo Missae" propriamente dito, isto é, o novo texto da Missa com as rubricas que o acompanham. O autor avalia unicamente o novo missal romano em contraste com o anterior. Embora as traduções sejam ainda mais problemáticas, nesta análise não são consideradas porque amanhã podem ser consertadas.
Sumário
1. Favorecimento de erros ou de heresias na Missa nova em contraste com a anterior
1.1. Espírito anti-hierárquico: sacerdote e povo são a mesma coisa
1.2. Diminuído o caráter propiciatório da missa, ao gosto protestante
1.3. Favorecimento da tese de que o sacerdote não celebra "in persona christi", que é uma tese herética
1.4. Menor fé na Santíssima Trindade
1.5. Ecumenismo
1.6. Abertura para mulheres no serviço litúrgico
1.7. Ritualística oral da Ceia protestante
1.8. Ritualística gestual dessacralizante
1.9. MENOS INVOCAÇÕES À SANTÍSSIMA VIRGEM e outras doutrinas favorecidas pelo Missal que os protestantes não aceitam
1.10. Conclusão uma vez que as supressões não foram substituídas por equivalentes
2. Erros ou heresias favorecidos pela "Institutio" (Ordenação Geral do Missal Romano)
2.1. Favorecimento da tese protestante de que não há transubstanciação
2.2. Favorecimento da tese protestante de que a missa não é sacrifício
3. Conclusão Geral
4. Objeções 4.1. “Não se deve ir nunca a uma missa assim” 4.2. “Qualquer mudança futura no rito foi vedada por S. Pio V” 4.3. "Duvidar da promulgação da missa pelo Papa é duvidar da indefectibilidade da Santa Igreja" 4.4. "Em nenhuma hipótese se deve ir a tal missa" 4.5. "Nunca se deve comungar nessa missa" 4.6. "É pecado faltar ao preceito dominical mesmo havendo só missa nova" 4.7. "O Espírito Santo não avisou dessa situação através das almas com dons proféticos" 4.8. "A missa nova é intrinsecamente má" 4.9. "Chamar a missa nova de heretizante é o mesmo que chamar de herética"
***
1. Favorecimento de erros ou heresias na Missa nova em contraste com a anterior 1.1. Espírito anti-hierárquico: sacerdote e povo são a mesma coisa
No Ordo de São Pio V, o Confiteor (Confesso) inicial é dito em primeiro lugar pelo padre, e depois pelo acólito em nome do povo. Essa distinção marca claramente a diferença existente entre o celebrante e os fiéis. No novo Ordo, o Confiteor é dito simultaneamente pelo sacerdote e pelo povo. Tal modificação tende a insinuar uma identidade entre o sacerdócio do presbítero e o dos leigos. Foi supressa a absolvição dada pelo padre ao fim do Confiteor, outra inovação que contribui para tornar menos precisa a distinção ente o sacerdócio hierárquico e a condição de simples fiel. Não figura a oração Suscipe Sancte Pater, na qual o sacerdote oferece a hóstia pelo povo, numa afirmação clara de seu múnus hierárquico. 1.2. Diminuído o caráter propiciatório da missa, ao gosto protestante
Rito Tradicional que exibe claramente a noção de Sacrifício
Não figuram várias orações da Missa tradicional que ressaltam as noções de humildade, de compunção pelos próprios pecados, de propiciação e de que sem a graça não há perseverança na virtude. Assim, desapareceram a absolvição dada pelo padre ao fim do Confiteor, as invocações que a seguem; a oração Aufer a nobis; a prece dita pelo sacerdote enquanto oscula o altar; parte da oração Munda cor meum; quase todo o ofertório; parte da prece Perceptio Corporis tui, que precede a comunhão; duas orações posteriores à Comunhão: Quod ore sumpsimus e Corpus tuum, Domine; e ainda a súplica Placeat tibi, que encerra o sacrifício. Não figura a oração Suscipe Sancte Pater, na qual o sacerdote oferece por todos os fiéis vivos e defuntos, o que contraria o princípio protestante segundo o qual os frutos da Missa não são aplicáveis aos ausentes nem aos defuntos, e foi eliminada a Offerimus Tibi Domine, com a qual é oferecido o vinho: nela se encontra a noção de satisfação pelos pecados, expressa sobretudo no pedido humilde para que a Majestade divina se digne aceitar o sacrifício. Essas duas orações, de oferecimento do pão e do vinho, foram substituídas pelas seguintes: Oferecimento do pão: "Bendito sois, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade, fruto da terra e do trabalho das mãos do homem, que agora Vos oferecemos, e do qual far-se-á para nós o pão da vida". Oferecimento do vinho: "Bendito sois, Senhor, Deus do universo, pelo vinho que recebemos de vossa bondade, fruto da videira e do trabalho das mãos do homem, que agora Vos oferecemos, e do qual far-se-á para nós a bebida espiritual". Note-se que não há, nessas orações, referência alguma à verdadeira vítima, que é Jesus Cristo; ao oferecimento dos dons por nós e por nossos pecados; ao caráter propiciatório da oblação; ao sacerdócio hierárquico do celebrante; ao princípio de que o sacrifício precisa ser aceito por Deus para Lhe ser agradável. Pelo contrário, as expressões ―far-se-á para nós o pão da vida‖ e ―far-se-á para nós a bebida espiritual insinuam que o verdadeiro fim essencial da Missa é a nossa alimentação espiritual – tese esta que se aproxima de uma das heresias condenadas em Trento: "Se alguém disser que na Missa não se oferece a Deus verdadeiro e próprio sacrifício, ou que oferecer-Se Cristo NÃO É MAIS QUE DAR-SE-NOS EM ALIMENTO – seja anátema" (Denz.-Sch. 1751).
Deixou também de ser obrigatória, em várias orações, a referência à mediação de Jesus Cristo, na própria Missa, entre Deus Padre e nós. Esta modificação contribui para aproximar a Missa da liturgia dos protestantes. Com efeito, segundo estes, a Missa não é verdadeiro sacrifício propiciatório, não é verdadeira renovação da imolação de Nosso Senhor na Cruz, mas simples ágape comemorativo da última Ceia.
1.3. Favorecimento da tese de que o sacerdote não celebra "in persona christi", que é uma tese herética A supressão de "este preclaro cálice" foi simplificada para "o cálice". Eis o ponto especialmente grave: o fato de já não se indicar o cálice como "este" favorece as teorias segundo as quais o sacerdote não age "in persona Christi", isto é, como representante de Nosso Senhor. Este ponto exige certa explicação. A Missa tradicional usou um recurso simbólico para indicar que as palavras da transubstanciação são pronunciadas em nome do próprio Nosso Senhor: o cálice que o padre tem diante de si indicado como se fosse aquele mesmo cálice sacratíssimo em que Jesus Cristo pela primeira vez converteu o vinho em seu precioso Sangue. A eliminação desse simbolismo tão forte, tão rico, tão vivo, é mais uma medida que, na ordem concreta, tenderá a debilitar a fé no princípio de que Nosso Senhor, Sacerdote principal em todas as Missas, é nelas ministerialmente representado pelo sacerdote celebrante. 1.4. Menor fé na Santíssima Trindade A referência à Santíssima Trindade desapareceu de várias passagens, o que tende a debilitar a fé no mistério principal da Revelação. No Kyrie tradicional cada pessoa da Santíssima Trindade é invocada três vezes. Afirma-se assim com particular insistência o caráter trinitário das relações divinas. Também essa afirmação foi debilitada no novo Ordo Missae, em cujo Kyrie cada Pessoa é invocada apenas duas vezes. Foi eliminada a oração à Santíssima Trindade. Esta prece marca que o sacrifício da Missa é oferecido à Santíssima Trindade. 1.5. Ecumenismo A quarta Oração Eucarística é bastante vaga, e acentua que não se reza apenas pelos fiéis defuntos. Eis seus termos: "Lembrai-vos também daqueles que morreram na paz do vosso Cristo, e de todos os defuntos, cuja fé só vós conhecestes". A fórmula tende a apaziguar a consciência dos que não querem pertencer à Igreja Católica: talvez tenham eles uma "fé" ignota aos homens, mas conhecida por Deus. Não é menos ecumênica a fórmula empregada por essa quarta Oração Eucarística para interceder pelos vivos: "E agora lembrai-vos, Senhor, de todos pelos quais vos oferecemos esta oblação: em primeiro lugar, de vosso servo, nosso Papa N.; (...) e de todo o vosso povo, e de todos aqueles que vos procuram de coração sincero". Mais uma vez, temos aqui uma fórmula ambígua e perigosa pois insinua que uma "sinceridade" vaga e genérica na "procura" de Deus é condição suficiente para a salvação. 1.6. Abertura para mulheres no serviço litúrgico Com autorização das Conferências Episcopais, as leituras, exceto a do Evangelho, podem ser feitas por mulheres (número 66 da Institutio). E os ministérios exercidos fora do presbitério podem ser confiados a mulheres (número 70). 1.7. Ritualística vocal da Ceia protestante
Introduzindo a narração da Ceia, encontramos no novo Ordo a seguinte rubrica: "Nas fórmulas que seguem, as palavras do Senhor sejam proferidas de modo claro e audível, como requer a natureza das mesmas". Essa prescrição, que vale também para as palavras da Consagração propriamente ditas, é sumamente grave pois: - assemelha a Missa católica às Ceias de Zwinglio, Lutero, etc. - de outro lado, porque a rubrica indicada não apenas determina a dicção em voz alta dessa parte central da Missa, mas acrescenta que isso é requerido pela própria natureza de suas palavras. Ora, esta última asserção já foi condenada pelo Concílio de Trento: "Se alguém disser que deve ser condenado o rito da Igreja Romana pelo qual parte do Cânon e as palavras da Consagração são proferidas em voz baixa (...) seja anátema" (Denz- Sch. 1759). 1.8. Ritualística gestual dessacralizante Eliminaram-se quase todas as genuflexões, inclinações, ósculos do altar, etc.
Nas novas Orações Eucarísticas, como no novo Cânon dito Romano, é mínimo o número de sinais da cruz feitos pelo sacerdote, bem como de inclinações reverenciais e genuflexões. Os ósculos do altar foram também nelas eliminados por completo.
No Cânon tradicional, a consagração do pão vem precedida pelas seguintes palavras: "Na véspera de sua paixão, tomou o pão em suas santas e veneráveis mãos e, tendo elevado para o céu os olhos a vós, seu Pai e Deus onipotente, rendeu-vos graças, abençoou o pão, e partiu-o e deu-o a seus discípulos, dizendo: Tomai e comei dele todos".
Foram eliminadas expressões que põem em relevo o caráter sagrado e santíssimo do ato que se vai realizar. Assim é que se diz apenas que Nosso Senhor tomou o pão, sem sequer nomear suas sagradas mãos. Omitiu-se a frase "tendo elevado os olhos ao céu". A referência afetuosa a Deus Padre, "a vós, seu Pai e Deus onipotente" foi supressa na segunda Oração Eucarística, e substituída por um lacônico "a vós" na terceira, e por "a vós, Pai santo" na quarta. A supressão de "este preclaro cálice" foi simplificada para "o cálice", em mais uma medida dessacralizante.
Merece especial destaque o novo rito da paz, introduzido entre os atos preparatórios à Comunhão. O sacerdote diz: "Oferecei a paz uns aos outros", e os presentes se cumprimentam com um aperto de mão, um abraço ou outro sinal da saudação, a ser determinado pelas Conferências Episcopais "conforme os costumes e o caráter de cada povo".
Não é preciso salientar como semelhante prática, no ambiente dessacralizado e sensual de nossos dias, pode prestar-se a abusos. Sob tal ponto de vista, não há como comparar o "rito da paz" introduzido pelo novo "Ordo" com cerimônias análogas de liturgias orientais e da Igreja primitiva, já que a saudação estabelecida pelo "Ordo" de Paulo VI não parte do sacerdote, mas cada um dos presentes cumprimenta seus vizinhos, isto é, a "paz" não se apresenta como sendo o resultado da reconciliação entre o céu e a terra, efetuada pelo sacrifício redentor de Jesus Cristo; mas parece antes provir do próprio povo, como resultado da mera solidariedade fraterna e humana que une a todos os presentes.
A cruz não precisa mais estar sobre o altar (números 79, 84, 236b, 270 da Institutio). Exige-se uma única toalha, e já não três, para cobrir o altar (número 79). Havendo comunhão sob as duas espécies, os fiéis a recebem obrigatoriamente de pé (números 244c, 244d, 245b, 245c, 246b, 247b, 249b). Na comunhão apenas sob a espécie de pão, nada se determina quanto à postura dos fiéis (números 56, 117).
1.9. MENOS INVOCAÇÕES À SANTÍSSIMA VIRGEM e outras doutrinas favorecidas pelo Missal, que são agradáveis aos protestantes
Eliminou-se a alusão à queda original. Desapareceram as invocações de Nossa Senhora, dos Anjos e Santos.
Foi eliminada a oração à Santíssima Trindade. Esta prece marca que o sacrifício da Missa é oferecido à Santíssima Trindade, e sumindo ela, foi-se também o pedido de intercessão dirigida a Nossa Senhora e aos Santos.
Tornou-se facultativa a invocação da maior parte dos Apóstolos e Mártires cujos nomes figuram na Missa tradicional.
1.10. Conclusão uma vez que as supressões não foram substituídas por equivalentes Não haveria problema caso as supressões tivessem sido substituídas por outras que manifestassem as mesmas disposições de alma, ou caso houvessem sido acrescentados novos e mais numerosos sinais de arrependimento e adoração; como genuflexões, prostrações válidas, etc. Mas nada disso foi feito. 2. Erros ou heresias favorecidos pela "Institutio" (Ordenação Geral do Missal Romano)
Esse documento veio junto da promulgação do Missal e tenta explicar teologicamente a Missa, sendo, portanto, fiel transmissor da teologia litúrgica que permeou o novo Missal Latino.
2.1. Favorecimento da tese protestante de que não há transubstanciação Em todo o documento não se encontra uma só vez a palavra "transubstanciação". Também nem uma vez fala em "presença real" de Cristo na Eucaristia. Há, sem dúvida, muitas referências, com termos e expressões diversas, à "presença" de Nosso Senhor; mas com tais termos e expressões a "Institutio" indica indiscriminadamente a presença de Jesus na palavra da Escritura, na Eucaristia, entre os que se reúnem em seu nome, etc. O número 55 da "Institutio" explica as diversas partes do Cânon – agora denominado "Prece Eucarística". A respeito da Consagração (item "d"), lemos aí o seguinte: "A narrativa da instituição: nesta parte com palavras e ações de Cristo se torna de novo presente (REPRAESENTATUR) aquela última Ceia (...)". O termo latino "repraesentatur" é traduzido, nesta versão da Editora Vozes por "se torna de novo presente". Sem dúvida a palavra comporta esse sentido; mas comporta também outro, como o tradutor sentiu, pondo por isso entre parênteses o termo latino. Esse outro sentido seria "é representado", o que daria ao texto um sabor fortemente protestante, pois a Missa não é uma simples representação, mas é uma verdadeira renovação do sacrifício de Nosso Senhor. Note-se ademais que a "Institutio", especialmente redigida para explicar o que é a Missa, nem sequer declara que há a "presença real" de Nosso Senhor na Eucaristia, e que com a Consagração cessam as substâncias do pão e do vinho. 2.2. Favorecimento da tese protestante de que a missa não é sacrifício No número 7, ao qual é difícil negar o caráter de uma definição da Missa, não se fala em sacrifício: "A Ceia do Senhor ou Missa é a sagrada sinaxe ou assembléia do Povo de Deus que se congrega, presidida pelo sacerdote, para celebrar o memorial do Senhor. Por isso, de maneira toda particular, vale para a reunião local da Santa Igreja a promessa de Cristo: "Onde dois ou três estão congregados em meu nome, ali estou Eu no meio deles" (Mt. 18, 20)". Falta a essa definição qualquer referência a sacrifício. Falta sobretudo qualquer referência à propiciação, isto é, à satisfação que na Missa Jesus presta pelos pecados dos homens. Logo, se o que aí está pretendesse ser uma definição de Missa, tratar-se-ia de uma definição falsa, contrária ao Concílio de Trento: "Se alguém disser que o sacrifício da Missa é somente de louvor e ação de graças, ou mera comemoração do sacrifício consumado na cruz, mas que não é propiciatório (...) seja anátema" (Denz.-Sch. 1753). Ora, analisando as diversas passagens da "Institutio" que falam em sacrifício, verificamos que em nenhuma delas se afirma o caráter propiciatório da Missa. Pelo contrário, a todo momento elas se referem à Missa como sacrifício de louvor, de ação de graças, de comemoração do sacrifício da Cruz, aspectos todos eles verdadeiros, mas que o Concílio de Trento declarou insuficientes para a conceituação católica da Missa. Ocorrem também na "Institutio" expressões que acabam pondo na sombra o caráter sacrifical e propiciatório da Missa. É o caso da insistência exagerada no princípio, em si incontestável, de que na Missa há um banquete, uma vez que Jesus Cristo ali nos dá o seu Corpo e o seu Sangue em alimento. Esse aspecto da Missa é sem dúvida verdadeiro, mas deve estar subordinado ao aspecto sacrifical e propiciatório, tanto mais quanto o protestantismo procura reduzir o sacrifício eucarístico ao banquete. Assim, a "Institutio", que em apenas em dez passagens se refere a "sacrifício", emprega inúmeras vezes expressões relativas ao ágape eucarístico: "alimento espiritual", "Ceia", "mesa do Senhor", "banquete" ("convivium"), "refeição", etc. Por exemplo, nos números 2, 7, 8, 33, 34, 41, 48, 49, 55d, 56, 56g, 62, 240, 241, 259, 268, 281, 283, 31. 3. Conclusão geral Muitos outros problemas poderiam ser apontados nessa missa, especialmente quanto ao seu aspecto liturgicista, um erro (noção diferente e menos grave que heresia) condenado pela Igreja, conforme visto largamente neste volume. Além disso, é possível notar também os frutos desastrosos dessa reforma litúrgica.
Para esta conclusão em forma de pergunta, o que foi mostrado é suficiente: pode o católico favorecer uma missa de caráter pouco humilde, pouco penitente, pouco reparadora e assim agradável ao herege protestante?
Como ao católico difere muito a atuação e prudência da teoria, esta conclusão não é uma convocação a proclamar por todos os cantos e em todas as ocasiões o cerne dessa matéria complexa que por isso mesmo é ignorada por católicos medianos, mesmo do clero.
Dicas de ação prática: buscar comunhão em paróquia onde há a "celebração da palavra" de um
diácono, em virtude do descanso do sacerdote ou férias deste (não nos
consta, nem em passado recente, a abrangência deste fato como se dá
hoje, que parece consequência da Revolução Litúrgica), ou onde se possa receber, mediante humilde solicitação prévia, a
comunhão fora da missa (hábito tradicional).
Além disso, há a opção, embora inalcançável para muitos, de manter
dignamente o Santíssimo Sacramento em um bonito altar caseiro, o qual
pode ser alimentado por sacerdote da hierarquia católica que tenha
suficiente bom-senso para entender a piedade da comunhão frequente (sem
necessariamente entender os inconvenientes litúrgicos modernos). Neste
caso, haveria a necessidade de um ministro, realmente extraordinário, o
qual já se viu em compilado neste volume. 4. Objeções
4.1. Objeção 1: Não deixa de favorecer tal missa quem aparece para comungar, mesmo que próximo da hora da comunhão e, assim, não poderia ser coerente com sua tomada de posição de rejeitar a missa nova. Ademais, ainda se poderia mencionar casos de abusos litúrgicos ou ambientes (músicas, trajes, decoração, etc) que prejudicam a piedade de quem busca o recolhimento da penitência, além do obstáculo do "grupo numeroso" (família, amigos, etc) que frequenta o mesmo local, podendo suscitar conflito. Assim, é melhor não frequentar tal missa em nenhuma hipótese.
Resposta à 1: a alma Eucarística não deve se privar de sua devoção se até mesmo o bispo local, um Cardeal ou até um Papa está celebrando de forma que um herege não acharia ruim ou que em outros tempos seria escandaloso. É por amor à Sagrada Eucaristia e à hierarquia legítima que na comunhão se deve pôr a intenção do fim da celeuma litúrgica.
4.2. Objeção 2: A missa Latina foi promulgada por toda a posterioridade e não pode ser reformada em nenhum aspecto, como deixa claro o documento "Quas Primas" de S. Pio V.
Resposta à 2: como se exprime o Dr. Arnaldo, não haveria problema algum se as supressões tivessem sido substituídas por outras que manifestassem equivalentes características da Santa Missa (culto de propiciação ou reparação, adoração, petição e agradecimento) ou caso houvessem sido acrescentados novos e mais numerosos sinais dentre os supressos (sobretudo da parte de arrependimento e adoração). Além disso, o número de reformas pontuais realizadas ao longo dos séculos desde S. Pio V refuta a alegação de inalterabilidade absoluta da Missa.
4.3. Objeção 3: duvidar da promulgação da missa por um Pontífice Romano é duvidar da indefectibilidade da Santa Igreja dada a abrangência e poderio do Bispo de Roma e do rito.
Resposta à 3: prevendo tal objeção, Dr. Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira escreveu a primeira parte de seu livro acerca da missa nova com farto material de teólogos sobre a possibilidade de um Papa nas seguintes situações: herege, cismático, demente, eleito não canonicamente, seu erro em documento do magistério, etc. Ao colocar uma tabela da opinião de teólogos sobre esse tema, o autor sustenta uma. Da mesma forma, este volume inicia por retomar essas questões. A controvérsia da indefectibilidade da Igreja na promulgação de uma missa poderia ser solucionada por qualquer Pontífice Romano de modo extraordinário e infalível, porém, é justamente a pastoral ecumênica pós-conciliar inspiradora da nova missa o maior obstáculo parausar esse privilégio da única e verdadeira religião.
4.4. Objeção 4: em nenhuma hipótese se deve ir à missa nova porque assim se favorece o protestantismo.
Resposta à 4: se tradicionalmente podia o católico marcar mera presença em missas de cismáticos ou hereges por um motivos como o dever cívico de chefe de estado (evitando a communicatio in sacris com a-católicos ao não comungar), ainda com mais razão se pode estar presente, sem participação ativa, a uma missa nova no caso, por exemplo, de um casamento de amigos ou missa de parente falecido (podendo
comungar se confessado, pois o sacerdote não é cismático ou herege declarado).
4.5. Objeção 5: nunca se deve comungar em missa nova. Seria análogo a comungar em missa negra.
Resposta à 5: assim como a piedade popular busca o sacerdote celebrante mais reverente, o fiel tradicional busca o mesmo para sua devoção Eucarística. Se for verdade que a missa nova impede a comunhão do fiel católico, Nossa Senhora errou ao instituir, pouco antes da reforma litúrgica e através da mais velha vidente da aparição em Fátima, a comunhão reparadora dos primeiros sábados, uma vez que a Rainha dos profetas devia saber que seria pecado comungarem boa parte das missas do globo.
4.6. Objeção 6: não se deve faltar com o preceito dominical se não houver missa tradicional acessível. A comparação pode até provar ser preferível uma missa tradicional, porém, não
havendo uma local, é pecado faltar a missa e o preceito dominical. Resposta à 6: a decisão de não ouvir a missa nova, ainda que comungando e confessando ali, se funda na atitude de não favorecer a afirmação do protestante Thurian, de Taizé, que dizia poder celebrar nessa reforma: “Ela se acercou das próprias formas litúrgicas da Igreja luterana” (O direito de saber, Folha de S. Paulo, 25 de janeiro de 1970, Plinio Corrêa de Oliveira). Como cumprir um mandamento favorecendo o descumprimento de outro?
4.7. Objeção 7:o
Espírito Santo na Igreja não avisou através das almas com dons
proféticos essa situação. Uma situação tão grave, ainda que dependa da
ciência particular, precisava de algum modo ser alertada em
profecias autorizadas dada a ação do sobrenatural na Igreja.
Resposta à 7: o Espírito Santo várias vezes se pronunciou sobre uma grande apostasia na Igreja, especialmente no século XIX, mas isso precisa de interpretação. Por outro lado, o Espírito Santo criticou de forma diplomática a reforma litúrgica através do perito em liturgia e Venerável jesuíta João Batista Reus (1868-1947), cujos êxtases ocorreram com preces retiradas na reforma sem substituição por equivalentes (exemplos: "Senhor, não sou digno (...)" repetido 3 vezes no rito tradicional, aufer a nobis, misereatur, etc, todos contidos na sua Autobiografia e Diário Espiritual). Outro detalhe é a instituição da comunhão reparadora dos primeiros sábados: ao fortalecer ideias de "reparação", elemento pouco enfatizado no missal novo, e de comunhão extralitúrgica, mal visto pelo liturgicismo, parece que a Providência Divina afastou assim o erro de que comunhão só se recebe ao ouvir missa inteira, algo inconveniente numa situação de liturgia mal reformada e tão amplamente celebrada no ocidente.
4.8. Objeção 8: a missa nova é intrinsecamente má.
Resposta à 8: se
por "intrinsecamente má" entende-se aquilo que deve ser rejeitado em
qualquer circunstância ou intenção, então a missa nova não é
intrinsecamente má, já que é possível se fazer presente nessa missa por deveres cívicos,
entre outras razões.
4.9. Objeção 9: chamar a missa nova de heretizante é o mesmo que chamar de herética.
Resposta à 11: em um mundo ignorante e hostil em conceitos e linguagem, é preferível usar o termo claro de "favorecedora do protestantismo" do que "heretizante". Afinal, foram muitos os protestantes que afirmaram poder celebrá-la. E essa observação pesa muito mais na defesa da posição litúrgica tradicional do que debater terminologias diversas.
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