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Santos e Teólogos sobre a música que deve ser evitada


São Basílio, rogai por nós!

Veja também o artigo anterior: Modéstia nos bailes e danças em livro elogiado por Pio XII e Paulo VI, prefaciado pelo Núncio D. Bento Masela

Extraído de: "O Príncipe dos Cruzados: manual do tradicionalista contra-revolucionário: Bíblia, Papas, Santos e Teólogos (Volume II, 2a edição)".

Teólogos

Certas danças foram enumeradas como imodestas por teólogos de renome (algumas vezes com aprovação do Pontífice Reinante) ainda na primeira metade do século XX.

Se algumas danças foram proibidas como opostas à moral católica, logo, os ritmos que levavam as pessoas para aquelas danças são, no mínimo, suspeitos.

Por isso, segue a transcrição da tese compilada do artigo anterior: "são proibidas as seguintes danças: cordões carnavalescos, conga, tango, o fox-tro, bailes infantis, foxtrote, turkey-trot, o kamel-trot, o schymmy, o check-to-check, o one-step, o two-spep, o Boston, o blues, o samba, o charleston, o jazz, o boogy-woogey, o chachachá, o calipso, o twist, o rock-and-roll, o guapachá, o kanndidance.  

Outras danças que ordinariamente são más pelas circunstâncias são: valsa, a polca, a mazurca, o xote, a redowa, a habanera".


São Basílio Magno (330-379)

"Ora, é preciso que purifiqueis vossas almas, para dizer o mínimo, ainda que em poucas palavras, desprezando os prazeres dos sentidos, não alimentando os olhos com espetáculos vãos que levam todos a se perder em ilusões, evitando, enfim, coisas e pessoas que acendam o fogo da concupiscência, e também jamais admitindo que, pelos ouvidos, entrem na lama os sons que a corrompem, pois uma música efeminada faz nascer os vícios mais vergonhosos e baixos. Devemos procurar uma música mais útil, que nos inspire sentimentos virtuosos, tal como Davi, que com sua harpa tocava divinamente as músicas sacras e fazia acalmar a fúria de Saul (1 Sm 16, 23). Dizem que um dia Pitágoras encontrou homens bêbados bastante animados, vindos de um banquete onde se haviam entregado a copiosas libações, e pediu ao músico que marchava à frente para mudar o tom e cantar somente no modo dórico. Isso os acalmou de tal modo que jogaram suas coroas no chão e deram meia volta, dirigindo-se para suas casas bastante confusos.

Podem-se se ver outros que se agitam ao som de flautas como coribantes ou bacantes (*coribantes, sacerdotes de cibele, celebravam as festas dessa deusa batendo tambores, pulando, dançando e correndo para todos os lados como dementes. E sabe-se com quais loucuras as mulheres, chamadas bacantes, celebravam as festas de Baco), tanto que há diferença entre uma música honesta e uma música licenciosa. Devemos, então, evitar aquelas que dominam os nossos dias, da mesma forma que se evitam os vícios mais vergonhosos.

Constrange-me ter de advertir que não se deve espalhar no ar fragrâncias de todas as espécies apenas para agradar o olfato, e ainda menos esfregar essências no corpo. O que dizer, então, dos prazeres do toque e do gosto, senão que aqueles que os procuram são escravos que vivem como animais a satisfazer seus ventres e os apetites mais grosseiros?

Em suma, é preciso desprezar o corpo se não quisermos nos afundar nas volúpias, assim como se afunda no lamaçal. Seu cuidado não deve exceder além daquilo que pode ser útil à sabedoria. É o que dizia Platão [1] e está de acordo com o que o Apóstolo Paulo nos advertiu sobre não satisfazer os desejos da carne, no temor de acender em nós os maus desejos. Os que têm cuidado excessivo com o corpo e negligenciam, como não tendo valor, a alma, assemelham-se àqueles que muito amam os instrumentos de uma arte, sem ao menos se dedicar à arte a qual eles servem. É preciso o quanto antes castigar o corpo e domá-lo como a um animal feroz. E a razão nos serve de freio para conter os movimentos tumultuosos que se agitam na alma. Não deixemos as rédeas soltas, para que o espírito não seja impulsionado pelas paixões, assim como um cocheiro é arrastado por cavalos indóceis.

Lembremos das palavras de Pitágoras que, vendo um de seus discípulos entregando-se à boa mesa e ganhando muito peso, disse-lhe: "Quando deixará de preparar a si mesmo uma prisão tão severa?". Também de Platão, que sabia o quanto o corpo pode prejudicar a alma: dizem ter ele escolhido propositalmente um lugar insalubre para a sua Academia para podar os confortos do corpo [2], assim como se poda uma videira quando ela tem folhas em excesso. Eu mesmo já ouvi um médico dizer que o excesso de saúde é perigoso" [3].

São João Crisóstomo (347-407)

"Eu preferiria que amasses o silêncio mais que tudo, mas se tu gostas de canções, escolhe as edificantes, não as satânicas. Em vez de dançarinas, convida o coro dos anjos para teu casamento. "Mas como podemos vê-los?", perguntas. Se rechaçares todas as outras coisas, o próprio Cristo virá para teu casamento, e onde Cristo vai, o coro de anjos o segue. Se tu pedires a Ele, Ele realizará para ti um milagre ainda maior que o de Caná: Ele transformará a água das tuas paixões instáveis no vinho da unidade espiritual, mas lembra: se Ele aparecer e encontrar os músicos e os convidados fazendo tumulto, Ele expulsará a todos antes de operar Seus milagres (S. Mateus IX, 23). O que é mais desagradável que essas pompas demoníacas? É tanto barulho que nem se consegue ouvir nada. Quando dá para ouvir alguma palavra, é coisa sem sentido, vergonhosa e nojenta.

Nada há de mais prazeroso que a virtude, nada mais doce que a ordem (...)" [4].

"Na verdade, nunca foi um costume celebrar casamento de forma desonrada; isso é uma novidade. Considera como Isaac se casou com Rebeca, como Jacó se casou com Raquel. A Escritura nos fala desses casamentos, e do modo como essas noivas entraram nos lares de seus noivos. Nada é dito sobre esses costumes. Eles deram banquetes e jantares mais luxuosos que o normal e convidaram seus parentes para o casamento. Flautas, tamborins, pratos, bagunça e bebedeira e todo o resto de nossos costumes impróprios eram evitados. Hoje, em dia de casamento, as pessoas dançam e cantam hinos a Afrodite, canções repletas de referência a adultério, corrupção do casamento, amores ilícitos, uniões proscritas e muitos outros temas vergonhosos e ímpios. Eles acompanham a noiva em público com vevedeira abjeta e discursos vergonhosos. Diz, como é possível esperar castidade da noiva se a acostumas a tal comportamento despudorado desde o primeiro dia (...) [5].

"Por que tu convidas o clero, se planejas celebrar tais ritos no dia seguinte? Queres demonstrar generosidade, bondade? Então convida os coros dos pobres. Tens vergonha dessa idéia? Estás corando? O que pode ser mais irracional que isso? Quando arrastas o diabo para tua casa, não pensas que estás fazendo nada vergonhoso, mas quando pensas em trazer Cristo para tua casa, tu coras? Assim como Cristo está presente quando os pobres entram, da mesma forma, quando os efeminados e os saltimbancos dançam na tua casa, o diabo saracoteia entre eles. Não há benefício nesse tipo de extravagância, mas sim um grande prejuízo. Mas do outro tipo de gasto, poderás esperar rapidamente uma grande recompensa.

Mas ninguém mais na cidade fez isso, é o que me dizes? Ora, por que não te apressas a ser o criador desse bom costume, para que a posteridade o atribua a ti? Se alguém invejar ou imitar esse costume, teus descendentes poderão dizer para quem perguntar que foste tu quem introduziste a prática. Nas competições dos descrentes, nos banquetes, muitos cantam louvores aos que introduziram melhorias em tais ritos, que eram pouco edificantes. Assim, nos ritos espirituais, todos louvarão e darão graças a quem trouxer essa inovação maravilhosa. Isso trará honra e benefícios a quem o fizer. Quando outros continuarem desse costume, ele te dará a recompensa de seus frutos, pois tu foste o primeiro a realizá-lo (...). Assim como Deus ameaça os pecadores continuamente dizendo: as vossas mulheres ficarão viúvas, e os vossos filhos órfãos (Ex 22, 24), da mesma forma Ele promete àqueles que são sempre obedientes uma idade avançada aprazível, acrescida de todas as boas dádivas" [6].

São Clemente de Alexandria (150-215)

"É preciso não olhar nada, nem escutar nada de vergonhoso, e para dizer tudo em uma palavra: fechemos nossas almas a todo acesso à intemperança, guardemos nossos olhos, nossas orelhas, pelo medo que a voluptuosidade os atice, fujamos das canções lascivas ou moles, e esta arte impura de uma música degenerada, que corrompe os costumes e redobra o ardor da libertinagem. Devemos empregar os instrumentos de música para cantar os louvores de Deus.

(...) Então, admitamos uma harmonia modesta e casta; mas tenhamos tão longe quanto possível, de nossos pensamentos fortes e generosos, uma música suave e irritante cujos concertos, estudados e artificiais, logo nos levariam à vergonha de uma vida suave e desordenada. Os sons graves e severos banem a imprudência e a embriaguez. Deixemos os sons irritantes da música cromática para os devassos que se cobrem de flores e se chafurdam na insolência e no vinho" [7].

Plinio Corrêa de Oliveira denunciando o Jazz e o Rock-and-Roll. Subtítulos deste artigo

1935 - O repouso, a diversão, a arte, não comportam a excitação

"Ora, não é possível admitir-se como meio de repouso um gênero de divertimentos como estes, que esgotam, em lugar de refazer, que excitam, em lugar de repousar, e que exaltam, em lugar de acalmar."

A "verdadeira arte não afasta, mas conduz a Deus a alma"

"(...) a verdadeira arte não afasta, mas conduz a Deus a alma; e a verdadeira piedade não fecha, mas abre a alma aos encantos da verdadeira arte (exclusão feita, portanto, da arte que não é verdadeira, e de que é expressão característica o shimmy tocado por um jazz-band)." [8]
 
1955 - Os adeptos do Jazz como viciados na excitação e na intemperança


"A distensão dos prazeres castos e calmos do lar, ou de uma vida razoável, temperante, tranqüila, parecem aos viciados em excitações, das megalópoles, de um tédio insuportável.

E, assim, só a intemperança, a excitação e o vício divertem. É de admirar que nesse ambiente sejam tantos os pecados, tão terríveis as psicoses?

Nossa fotografia apresenta um dos mil, ou antes dos milhões de aspectos que essa excitação apresenta. Lado a lado, um jovem robusto urra num rictus que tem um que de entusiasmo, um que de gemido, um que de imprecação, uma jovem sorri deliciada, enlevada, como que sentindo escorrer um deleite interior em todos os seus nervos, e outro jovem, sumamente atento, utiliza uma revista como corneta. São três jovens que "descansam" divertindo-se. Com o que? Um match? Um torneio? Não... ouvem um jazz!"

Tais hábitos acabam por levam à psicose


"Aí está uma manifestação extrema de um fato psicológico que em proporções mais discretas é comum. Se assim se vibra com um jazz, que dizer das vibrações provocadas pelo cinema, pelo rádio, pelo esporte? Não é precisamente assim, que as almas acabam por perder o gosto do lar e do trabalho, ou por cair na psicose?" [9]


1960 - Uma sociedade assim só "
encontrará a verdadeira paz quando tiver reencontrado o verdadeiro Deus"
 
"Mas os sons típicos das imensas babéis modernas, o ruído das máquinas, o tropel e as vozes dos homens que se afanam em pós do ouro e dos prazeres; que não sabem mais andar, mas correr; que não sabem trabalhar sem se extenuar; que não conseguem dormir sem calmantes nem se divertir sem excitantes; cuja gargalhada é um ricto frenético e triste; que não sabem mais apreciar as harmonias da verdadeira música, mas só cacofonias do jazz; tudo isto é a excitação na desordem, de uma sociedade que só encontrará a verdadeira paz quando tiver reencontrado o verdadeiro Deus." [10]


O Rock 

1956 - O Rei do Rock recém-coroado, e Dr. Plinio lá estava novamente para denunciar, em meio ao caos do século XX

"Com o o violão a tiracolo, e o microfone na mão, o "artista" campeão mundial do frenesi, que está pondo em delírio milhões de pessoas. Elvis Presley, canta e dança em meio de instrumentos de orquestra, diante de um público alucinado.

No homem a inteligência deve dirigir a vontade, e ambas devem, por sua vez esclarecer a sensibilidade, guiá-la, e ampará-la contra a fraqueza que lhe é própria. Pois, das faculdades humanas, todas nobres si mesmas, mas todas atingidas pelo pecado original, aquela por onde mais freqüentemente começam as desordens, as crises, os desmandos, é precisamente a sensibilidade."

O ritmo do rock tem como efeito a desordem na sensibilidade


"Pelo contrário, no porte, no gesto, na fisionomia deste pobre jovem, tudo indica o desencadeamento total da sensibilidade, subjugando inteiramente a vontade, e determinando movimentos em que absolutamente não se notam o equilíbrio, o bom senso, a compostura inerentes, ação rectrix da inteligência.

E, ainda, no caso presente nem sequer se trata precisamente da hipertrofia da sensibilidade, à maneira dos românticos. Censurável nestes era o excesso de emotividade em relação a determinados assuntos políticos, sociais, artísticos ou literários, ou em face de certas situações pessoais como a orfandade, a viuvez, a solidão afetiva, etc. De um certo ângulo, o erro do romântico consistia em fazer do sentimento o ápice e o termo de toda a vida mental. Erro, sem dúvida, e erro grave, que produziu na história da cultura ocidental funestas conseqüências. Mas erro que, pelo menos, ainda pressupunha uma verdade, ou seja, que o sentimento é um dos elementos integrantes do processus intelectual."


Essa desordem na sensibilidade vem do desejo mórbido de vibrar

"No caso concreto, há um mero vibrar de nervos. De nervos doentios e superexcitados, que vibram sem outra razão, sem outro ponto de partida e sem outro objetivo senão o prazer mórbido de vibrar, e cujo frenesi pede por sua vez vibrações sempre maiores. Por onde se chega rapidamente às manifestações extremas: ritmos delirantes, gestos desordenados, expressões fisionômicas contorcidas, um conjunto de desmandos, enfim, típicos dos que, segundo a expressão incisiva de Dante, "perderam a luz do intelecto".

Em uma palavra, e baixando o nível destas considerações, se um bêbado cantasse e dançasse, fá-lo-ia estertorando assim. Embriaguez contagiosa, pois se estende como uma nova "dança de São Guido" a milhões de pessoas. Embriaguez muito mais perigosa do que a do álcool, porque indica uma desordem fundamental da alma, que não passa como os efeitos do vinho.(...)


Neste clichê, tudo faz pensar na grande verdade enunciada por Claudel: a mocidade não foi feita para o prazer, mas para o heroísmo. Ao passo que na primeira gravura tudo parece dizer-nos que a mocidade não foi feita para o heroísmo, mas para o prazer. Ou pior ainda, para o gozo." [11]
 

1959 - Tratando dos valores metafísicos da revolução no seu livro principal, uma denúncia de uma geração inteira como exemplo de manifestação do sensualismo

"d. A geração do “rock and roll”: o processo revolucionário nas almas, assim descrito, produziu nas gerações mais recentes, e especialmente nos adolescentes atuais que se hipnotizam com o “rock and roll”, um feitio de espírito que se caracteriza pela espontaneidade das reações primárias, sem o controle da inteligência nem a participação efetiva da vontade; pelo predomínio da fantasia e das “vivências” sobre a análise metódica da realidade: fruto, tudo, em larga medida, de uma pedagogia que reduz a quase nada o papel da lógica e da verdadeira formação da vontade." [12].

Pe. Chad Ripperger, FSSP (2007) em consonância com S. Boécio, mártir (480-525)

Em artigo para o louvável Instituto "Claritas Pulchri", que se especializa em música e seus princípios segundo a Santa Tradição Católica [13], o professor Thiago Plaça Teixeira cita um trecho do teólogo americano, já usado em outro tema aqui. Melissa Bergonso, outra articulista do site do Instituto, em tese de mestrado nota como o Pe. Chad, nesta mesma obra, "aproxima-se bastante das ideias expostas por Boécio" [14].

“Uma vez que a masculinidade e a feminilidade são acentuados pelo destaque de diferentes características, a música pode contribuir para formação do caráter masculino e feminino. Anteriormente observou-se que escutar música sem moderação sobre os prazeres da música pode levar à efeminação. Vemos que este é o caso do homem. Se homens são forçados a adotar ou escutar formas de música que são mais ativas no apetite concupiscível do que no apetite irascível e no intelecto, ela terá um efeito efeminante sobre eles. Não que eles nunca possam escutar tais formas, mas sua escuta deve ser mais moderada e dirigida intelectualmente, para que assim não tenha um efeito efeminante sobre o homem. De modo oposto, mulheres que tendem a escutar música masculina demais podem assumir características próprias somente aos homens. Novamente, não que elas não possam escutar a essas músicas, mas elas devem ser moderadas e intelectualmente ordenadas. Em condições normais, mulheres e homens virtuosos tenderão para aquelas formas de música em congruência com as disposições de seus sexos.

“No entanto, não se deve assumir que a música seja pouco viril (efeminada). Desde que ela possa formar o caráter por formar a virtude, a música pode ser varonil. A virtude tende a temperar a alma e a moderá-la, tanto em homens como em mulheres. Platão observa que, se alguém nunca escuta música, isto o faz duro e selvagem e ainda, se alguém escuta bastante música, pode tornar-se suave e gentil. Os prazeres da música podem ter um efeito moderador, não somente em homens mas também em mulheres. No entanto, uma devida solicitude deve ser tomada para assegurar que os prazeres da música não façam nem o homem efeminado nem causem falta de temperança nas mulheres.


“Podemos começar a ver por que Platão disse que é falso que o critério para a boa música seja se ela causa prazer. Antes, a música, que é parte do plano providencial divino, é ordenada para o bem da alma, isto é, para a retidão e força da alma (virtude). O critério para a boa e má música não pode ser baseado puramente no fato de que uma forma particular cause prazer. Tal posição é nada menos que hedonismo. Antes, boa e má música devem ser julgadas baseadas em dois critérios distintos. O primeiro é seu mérito artístico, isto é, uma música é mais bela do que outras e uma música é mais capaz de ordenar a vida apetitiva do que outras. O segundo é o caráter moral: aquelas formas de música que tendem a corroer a virtude moral, ou por causa de suas letras ou por causa das suas melodias e qualidade musical, constituem um perigo às almas das pessoas e à sua saúde psicológica. Aquelas formas de música que tendem a construir a virtude moral são boas enquanto suas letras e estilo musical promovem o que é nobre no homem e na criação de Deus. Na medida em que contribua para a virtude moral e mesmo para a virtude intelectual, a música contribui para a saúde psicológica.” [15].


CLIQUE para mais compilados da Tradição Católica sobre Modéstia, Pureza e Elegância: masculina e feminina

 

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[1] Platão, Fédon 67a: E enquanto vivermos, não nos aproximaremos da verdade enquanto não nos agastarmos do corpo; renunciemos a qualquer comunicação com ele naquilo que não seja estritamente necessário; não permitamos que ele nos ocupe de sua corrupção natural, mas conservemo-nos puros de suas mancha, até que a própria divindade venha nos libertar".
[2] Porfírio relata, no terceiro século a.C., que "Platão escolheu a Academia para viver, um lugar que não era somente solitário e isolado da cidade, mas também, segundo dizem, nada saudável" (sobre a abstinência, livro I, 36); alguns autores contestam dizendo que nem Diógnes Laércio nem Plutarco fizeram comentários a respeito.
[3] São Basílio, carta aos jovens sobre a utilidade da literatura pagã, Ed. Ecclesiae, Pg. 52-54
[4] "Casamento e Vida em Família", Edição Biblioteca Católica, Homilia 12, Pg.109
[5] "Casamento e Vida em Família", Edição Biblioteca Católica, Pg. 118
[6] "Casamento e Vida em Família", Edição Biblioteca Católica, Pg. 120-121
[7] S. Clément d'Alexandrie, "le divin maitre, ou le pédagogue, Livre II, Traduction française: M. DE GENOUDE. Link: http://remacle.org/bloodwolf/eglise/clementalexandrie/pedagogue3.htm#IV. Também conferido com outra tradução do inglês: Chapter 4. How to Conduct Ourselves at Feasts, The Paedagogus (Clement of Alexandria) The Instructor (Book II), Translated by William Wilson. From Ante-Nicene Fathers, Vol. 2. Edited by Alexander Roberts, James Donaldson, and A. Cleveland Coxe. (Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1885.) Revised and edited for New Advent by Kevin Knight. <http://www.newadvent.org/fathers/02092.htm>
[8] Repouso autêntico, O Jornal, 29 de outubro de 1935
[9] Prazeres que conduzem à psicose, distrações que preparam para o trabalho, "Catolicismo" Nº 54 - Junho de 1955
[10] Tranqüilidade da ordem, Excitação na desordem, "Catolicismo" Nº 110 - Fevereiro de 1960
[11] A mocidade foi feita para o heroísmo ou para o gozo? "Catolicismo" Nº 72 - Dezembro de 1956
[12] Revolução e Contra-Revolução, Parte I, cap. VII.s
[13] Visto em 15/03/2022: https://claritaspulchri.com.br/a-musica-e-os-quatro-temperamentos/ 
[14] BERGONSO, M. C. C. Número, Som e Beleza, A Estética Musical em Boécio, Dissertação mestrado – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, UFPR, 2013. Visto em 15/03/2022: http://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/30451/R%20-%20D%20-%20MELISSA%20CARLA%20CHORNOBAY%20BERGONSO.pdf?sequence=1 
[15] RIPPERGER, C. Introduction to the Science of Mental Health. Denton: Sensus Traditionis Press, 2007. p. 592, tradução de: https://claritaspulchri.com.br/a-musica-e-os-quatro-temperamentos/


Sagrada Escritura, Papas e Santos sobre a modéstia dos olhos

Papa São Gregório Magno,
rogai por nós!
Extraído de: "O Príncipe dos Cruzados (Volume II, 2a edição)".

Sagrada Escritura

"Não olhes para a mulher volúvel, para que não suceda caíres nos seus laços" Eclo IX, 3.

"Não detenhas os olhos sobre uma donzela, para que a sua beleza não te seja ocasião de queda" Eclo IX, 5.

"Afasta os teus olhos da mulher enfeitada, e não olhes com curiosidade para a formosura alheia. Por causa da formosura da mulher pereceram muitos, e por ela se acende a concupiscência como o fogo" Eclo IX, 8-9.

"A impudicícia da mulher reconhece-se na altivez do olhar, e na imodéstia dos seus olhos. Redobra de vigilância sobre a filha que não refreia os olhos, para que não abuse de si própria, se encontrar a ocasião. Vigia sobre todo o desavergonhamento dos seus olhos, e não estranhes se ela te desprezar". Eclo XXVI, 12-14.

São Pio X

"Para nos conservarmos castos, devemos evitar a ociosidade, os maus companheiros, as más leituras, a intemperança, o olhar para figuras indecentes, os espetáculos licenciosos, os bailes, as conversas e diversões perigosas, bem como todas as demais ocasiões de pecado” (Catecismo de São Pio X, 430).

Santo Afonso Maria de Ligório citando a Escritura, Papa São Gregório Magno, Santo Agostinho, São Basílio, São Bernardo, São Hugo e Santa Clara

"§ III. Da modéstia dos olhos

Quase todas as paixões que se revoltam contra nosso espírito têm sua origem na liberdade desenfreada dos olhos, pois os olhares livres são os que despertam em nós, de ordinário, as inclinações desregradas. "Fiz um contrato com meus olhos de não cogitar sequer em uma virgem", diz Jó (Job 31, 1). Mas, por que diz ele de não pensar sequer em uma virgem ? Não parece que deveria dizer: Fiz um contrato com meus olhos de não olhar sequer ? Não, ele tem toda a razão de falar assim, porque o pensamento está intimamente ligado ao olhar, não se podendo separar um do outro, e, para não ter maus pensamentos, propôs-se esse santo homem nunca olhar para uma virgem.

Santo Agostinho diz: "Do olhar nasce o pensamento, e do pensamento a concupiscência". Se Eva não tivesse olhado para o fruto proibido, não teria pecado; ela, porém, achou gosto em contemplá-lo, parecendo-lhe bom e belo; apanhou-o então, e fez-se culpada da desobediência.

Aqui vemos como o demônio nos tenta primeiramente a olhar, depois a desejar e, finalmente, a consentir. Por isso nos assegura São Jerônimo que o demônio só necessita de nosso começo: dá-se por satisfeito se lhe abrimos a metade da porta, pois ele saberá conquistar a outra metade. Um olhar voluntário, lançado a uma pessoa do outro sexo, acende uma faísca infernal que precipita a alma na perdição. "As primeiras setas que ferem as almas castas, diz São Bernardo (De mod. ben. viv., serm. 23), e não raro as matam, entram pelos olhos". Por causa dos olhos caiu Davi, esse homem segundo o coração de Deus. Por causa dos olhos caiu Salomão, esse instrumento do Espírito Santo. Por causa dos olhos, quantas almas não se perderam eternamente?

Vigie, pois, cada um sobre seus olhos, se não quiser chorar uma vez com Jeremias: "Meus olhos me roubaram a vida" (Jer 3, 51); as afeições criminosas que penetraram em meu coração por causa dos meus olhares, lhe deram a morte. São Gregório diz (Mor. 1, 21, c. 2): "Se não reprimires os olhos, tornar-se-ão ganchos do inferno, que a força nos arrastarão e nos obrigarão, por assim dizer, a pecar contra a nossa vontade". "Quem contempla objeto perigoso, acrescenta o Santo, começa a querer o que antes não queria". É também o que diz a Sagrada Escritura (Jdt 16, 11), quando diz que a bela Judite escravizou a alma de Holofernes, apenas este a contemplou.
  
Sêneca diz que a cegueira é mui útil para a conservação da inocência. Seguindo esta máxima, um filósofo pagão arrancou-se os olhos para guardar a castidade, como nos refere Tertuliano. Isso, porém, não é lícito a nós, cristãos; se queremos conservar a castidade, devemos, contudo, fazer-nos cegos por virtude, abstendo-nos de olhar o que possa despertar em nós os maus pensamentos. "Não contemples a beleza alheia; disso origina-se a concupiscência, que queima como o fogo" (Ecli 9, 8). À vista seguem-se as imaginações pecaminosas, que acendem o fogo impuro.

São Francisco de Sales dizia: "Quem não quiser que o inimigo penetre na fortaleza, deve conservar as portas fechadas". Por essa razão foram os Santos tão cautelosos em seus olhares. Por temor de enxergarem inesperadamente qualquer objeto perigoso, conservavam os olhos quase sempre baixos, e se abstinham de olhar coisas inteiramente inocentes. São Bernardo, depois de um ano inteiro no noviciado, não sabia ainda se o teto de sua cela era plano ou abobadado. Na igreja do convento havia três janelas e ele não o sabia, porque conservara os olhos baixos. Evitavam os Santos, com cautela maior ainda, pôr os olhos em pessoa de outro sexo. São Hugo, bispo, nunca olhava para o rosto das mulheres com quem tinha de conversar. Santa Clara nunca olhava para a face de um homem. Aconteceu uma vez que, levantando os olhos para a Hóstia Sagrada, durante a Elevação, viu o rosto do sacerdote, com o que ficou profundamente aflita.

Julgue-se agora quão grande é a imprudência e temeridade dos que, não possuindo a virtude dum desses Santos, ousam passear suas vistas em todas as pessoas, não exceptuando as de outro sexo, e querendo ainda ficar livre de tentações e do perigo de pecar. São Gregório diz (Dial. 1.2, c. 2) que as tentações que levaram São Bento a revolver-se sobre espinhos, provieram de um olhar imprudente sobre uma senhora. São Jerônimo, achando-se na gruta de Belém, onde continuamente orava e macerava seu corpo com as mais atrozes penitências, foi por longo tempo atormentado pela lembrança das damas que vira tempos antes em Roma. Como, pois, poderemos ficar preservados
de tentações, quando nos expomos ao perigo, olhando e até fitando complacentemente pessoas de outro sexo ?

O que nos prejudica não é tanto o olhar casual como o premeditado, o mirar. Razão porque Santo Agostinho diz (Reg. ad Serv. Dei, n. 6): "Se vossos olhos casualmente caírem sobre uma pessoa, cuja vista vos pode ser prejudicial, guardai-vos, ao menos, de fitá-la". E São Gregório diz: "Não é lícito contemplar ou extasiar-se com a vista daquilo que não é lícito desejar, pois, ainda que expulsemos os maus pensamentos que costumam seguir o olhar voluntário, deixam sempre uma mancha na alma". Tendo-se perguntado ao irmão Rogério, franciscano, dotado de uma pureza angélica, por que se mostrava tão reservado em seus olhares, quando tratava com mulheres, respondeu: "Se o homem foge à ocasião, Deus o protege; se se expõe a ela, Nosso Senhor o abandona e facilmente cairá no pecado" (...).

Com isso não quero, porém, dizer que nunca se deva levantar os olhos ou considerar coisa alguma; pelo contrário, é até bom, às vezes, olhar coisas que elevam nosso coração para Deus, como santas imagens, prados floridos, etc, já que a beleza dessa criatura nos atrai à contemplação do Criador.

Deve-se notar também que a modéstia dos olhos é necessária não só para nosso próprio bem, como para a edificação do próximo. Só Deus vê o nosso coração; os homens vêem apenas nossas obras externas e, ou se edificam, ou se escandalizam com elas. "Pelo rosto se conhece o homem", diz a Escritura (Ecli 19, 26), isto é, pelo exterior se depreende o que é o homem interiormente (...). Também a nós se podem aplicar as palavras que São Paulo dirigiu a seus discípulos (I Cor 4, 9): "Somos o espetáculo dos anjos e dos homens". "A vossa modéstia seja conhecida de todos os homens" (Filip 4, 5).

Pessoas devotas são observadas pelos anjos e pelos homens, e, por isso, sua modéstia deve ser notória a todos, do contrário, deverão dar rigorosas contas a Deus no dia do Juízo. Observando a modéstia, edificamos sumamente os outros e os estimulamos à prática da virtude.

É celebre o que se conta de São Francisco de Assis: Uma vez deixou ele o convento junto a uma companheiro, dizendo que ia pregar; tendo dado uma volta pela cidade com os olhos baixos, entrou novamente no convento. 'Mas quando farás o sermão?', perguntou-lhe o companheiro. 'Já o fiz, respondeu-lhe o Santo, consistiu todo no resguardo dos olhos, do que demos exemplo ao povo' (...).

Nosso ideal mais perfeito de modéstia foi, porém, o nosso Divino Salvador mesmo, pois, como nota um célebre autor, os Evangelistas dizem, várias vezes, que o Redentor levantou os olhos em certas ocasiões, dando a entender, com isso, que tinha ordinariamente os olhos baixos. Por isso exalta o Apóstolo a modéstia de seu Divino Mestre, escrevendo a seus discípulos: "Rogo-vos pela mansidão e modéstia de Cristo" (II Cor 10, 1).

Concluo com as palavras de São Basílio a seus monges: "Se quisermos que nossa alma tenha suas vistas sempre postas no Céu, filhos queridos, conservemos nossos olhos sempre voltados para a terra". De manhã, ao despertar, devemos já pedir, com o Profeta: "Afastai meus olhos, Senhor, para que não vejam a vaidade" (Sl 118, 37)" [1].

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[1] Santo Afonso Maria de Ligório, Escola da Perfeição Cristã, Parte II, Cap.VI

Modéstia dos olhos segundo S. Afonso Maria de Ligório

S. AFONSO MARIA DE LIGÓRIO, Escola da Perfeição Cristã.

Nota: em tempos onde se faz pouco caso da modéstia e da castidade nos meios católicos convém divulgar esse pequeno trecho da obra do Doutor da Igreja, um tanto "difícil" de ser posto em prática na concepção ecumenista de "encontrar Cristo" onde for. Serve também aqueles com pouco fervor na guarda da pureza.


§ III. DA MODÉSTIA DOS OLHOS

Quase todas as paixões que se revoltam contra nosso espírito têm sua origem na liberdade desenfreada dos olhos, pois os olhares livres são os que despertam em nós, de ordinário, as inclinações desregradas. "Fiz um contrato com meus olhos de não cogitar sequer em uma virgem", diz Jó (Job 31, 1). Mas, por que diz ele de não pensar sequer em uma virgem? Não parece que deveria dizer: Fiz um contrato com meus olhos de não olhar sequer? Não, ele tem toda a razão de falar assim, porque o pensamento está intimamente ligado ao olhar, não se podendo separar um do outro, e, para não ter maus pensamentos, propôs-se esse santo homem nunca olhar para uma virgem.

Santo Agostinho diz: "Do olhar nasce o pensamento, e do pensamento a concupiscência". Se Eva não tivesse olhado para o fruto proibido, não teria pecado; ela, porém, achou gosto em contemplá-lo, parecendo-lhe bom e belo; apanhou-o então, e fez-se culpada da desobediência.

Aqui vemos como o demônio nos tenta primeiramente a olhar, depois a desejar e, finalmente, a consentir. Por isso nos assegura São Jerônimo que o demônio só necessita de nosso começo: dá-se por satisfeito se lhe abrimos a metade da porta, pois ele saberá conquistar a outra metade. Um olhar voluntário, lançado a uma pessoa do outro sexo, acende uma faísca infernal que precipita a alma na perdição. "As primeiras setas que ferem as almas castas, diz São Bernardo (De mod. ben. viv., serm. 23), e não raro as matam, entram pelos olhos". Por causa dos olhos caiu Davi, esse homem segundo o coração de Deus. Por causa dos olhos caiu Salomão, esse instrumento do Espírito Santo. Por causa dos olhos, quantas almas não se perderam eternamente?

 Vigie, pois, cada um sobre seus olhos, se não quiser chorar uma vez com Jeremias: "Meus olhos me roubaram a vida" (Jer 3, 51); as afeições criminosas que penetraram em meu coração por causa dos meus olhares, lhe deram a morte. São Gregório diz (Mor. 1, 21, c. 2): "Se não reprimires os olhos, tornar-se-ão ganchos do inferno, que a força nos arrastarão e nos obrigarão, por assim dizer, a pecar contra a nossa vontade". "Quem contempla objeto perigoso, acrescenta o Santo, começa a querer
o que antes não queria". É também o que diz a Sagrada Escritura (Jdt 16, 11), quando diz que a bela Judite escravizou a alma de Holofernes, apenas este a contemplou.
 
Sêneca diz que a cegueira é mui útil para a conservação da inocência. Seguindo esta máxima, um filósofo pagão arrancou-se os olhos para guardar a castidade, como nos refere Tertuliano. Isso, porém, não é lícito a nós, cristãos; se queremos conservar a castidade, devemos, contudo, fazer-nos cegos por virtude, abstendo-nos de olhar o que possa despertar em nós os maus pensamentos. "Não contemples a beleza alheia; disso origina-se a concupiscência, que queima como o fogo" (Ecli 9, 8). À vista seguem-se as imaginações pecaminosas, que acendem o fogo impuro.

São Francisco de Sales dizia: "Quem não quiser que o inimigo penetre na fortaleza, deve conservar as portas fechadas". Por essa razão foram os Santos tão cautelosos em seus olhares. Por temor de enxergarem inesperadamente qualquer objeto perigoso, conservavam os olhos quase sempre baixos, e se abstinham de olhar coisas inteiramente inocentes. São Bernardo, depois de um ano inteiro no noviciado, não sabia ainda se o teto de sua cela era plano ou abobadado. Na igreja do convento havia três janelas e ele não o sabia, porque conservara os olhos baixos. Evitavam os Santos, com cautela maior ainda, pôr os olhos em pessoa de outro sexo. São Hugo, bispo, nunca olhava para o rosto das mulheres com quem tinha de conversar. Santa Clara nunca olhava para a face de um homem. Aconteceu uma vez que, levantando os olhos para a Hóstia Sagrada, durante a Elevação, viu o rosto do sacerdote, com o que ficou profundamente aflita.

Julgue-se agora quão grande é a imprudência e temeridade dos que, não possuindo a virtude dum desses Santos, ousam passear suas vistas em todas as pessoas, não exceptuando as de outro sexo, e querendo ainda ficar livre de tentações e do perigo de pecar. São Gregório diz (Dial. 1.2, c. 2) que as tentações que levaram São Bento a revolver-se sobre espinhos, provieram de um olhar imprudente sobre uma senhora. São Jerônimo, achando-se na gruta de Belém, onde continuamente orava e macerava seu corpo com as mais atrozes penitências, foi por longo tempo atormentado pela lembrança das damas que vira tempos antes em Roma. Como, pois, poderemos ficar preservados
de tentações, quando nos expomos ao perigo, olhando e até fitando complacentemente
pessoas de outro sexo?

O que nos prejudica não é tanto o olhar casual como o premeditado, o mirar. Razão porque Santo Agostinho diz (Reg. ad Serv. Dei, n. 6): "Se vossos olhos casualmente caírem sobre uma pessoa, cuja vista vos pode ser prejudicial, guardai-vos, ao menos, de fitá-la". E São Gregório diz: "Não é lícito contemplar ou extasiar-se com a vista daquilo que não é lícito desejar, pois, ainda que expulsemos os maus pensamentos que costumam seguir o olhar voluntário, deixam sempre uma mancha na alma". Tendose perguntado ao irmão Rogério, franciscano, dotado de uma pureza angélica, por que se mostrava tão reservado em seus olhares, quando trata va com mulheres, respondeu: "Se o homem foge à ocasião, Deus o protege; se se expõe a ela, Nosso Senhor o abandona e facilmente cairá no pecado".

Suposto mesmo que a liberdade que se concede aos olhos não produzisse outros males, impediria sempre o recolhimento da alma durante a oração; pois tudo o que vimos e nos impressionou, apresenta-se aos olhos de nossa alma e nos causa uma imensidade de distrações. Quem já tem recolhimento de espírito durante a oração, tome muito cuidado para não se ver privado dessa graça dando liberdade a seus olhos.

Está fora de dúvida que um cristão que vive sem recolhimento de espírito não pode praticar as virtudes cristãs da humildade, da paciência, da mortificação, como deveria. Guardemo-nos, por isso, de olhares curiosos, e só olhemos para objetos que elevam para Deus o nosso espírito. "Olhos baixos elevam o coração para o Céu", dizia São Bernardo. São Gregório Nazianzeno (Ep. ad Diocl.) escreve: "Onde habita Cristo com Seu amor, reina aí a modéstia". Com isso não quero, porém, dizer que nunca se deva levantar os olhos ou considerar coisa alguma; pelo contrário, é até bom, às vezes, olhar coisas que elevam nosso coração para Deus, como santas imagens, prados floridos, etc, já que a beleza dessa criatura nos atrai à contemplação do Criador.

Deve-se notar também que a modéstia dos olhos é necessária não só para nosso próprio bem, como para a edificação do próximo. Só Deus vê o nosso coração; os homens vêem apenas nossas obras externas e, ou se edificam, ou se escandalizam com elas. "Pelo rosto se conhece o homem", diz a Escritura (Ecli 19, 26), isto é, pelo exterior se depreende o que é o homem interiormente. Todo cristão, por isso, deve ser o que era São João Batista, conforme as palavras do Salvador (Jo 5, 35): "Uma lâmpada que arde e ilumina". Interiormente deve arder em amor divino; exteriormente, alumiar, pela modéstia, a todos os que o vêem. Também a nós se podem aplicar as palavras que São
Paulo dirigiu a seus discípulos (I Cor 4, 9): "Somos o espetáculo dos anjos e dos homens". "A vossa modéstia seja conhecida de todos os homens" (Filip 4, 5).

Pessoas devotas são observadas pelos anjos e pelos homens, e, por isso, sua modéstia deve ser notória a todos, do contrário, deverão dar rigorosas contas a Deus no dia do Juízo. Observando a modéstia, edificamos sumamente os outros e os estimulamos à prática da virtude.

É celebre o que se conta de São Francisco de Assis: Uma vez deixou ele o convento junto a uma companheiro, dizendo que ia pregar; tendo dado uma volta pela cidade com os olhos baixos, entrou novamente no convento. 'Mas quando farás o sermão?', perguntou-lhe o companheiro. 'Já o fiz, respondeu-lhe o Santo, consistiu todo no resguardo dos olhos, do que demos exemplo ao povo'.

Santo Ambrósio diz que a modéstia das pessoas virtuosas é uma exortação mui poderosa ao coração dos mundanos. "Quão belo não seria se bastasse te apresentares em público para fazeres bem aos outros!" (In ps. 118, s. 10). De São Bernardino de Sena se conta que, mesmo antes de entrar para o convento, bastava só a sua presença para pôr fim às conversas livres de seus companheiros; mal o avistavam, diziam uns para os outros: Silêncio, Bernardino vem vindo; e então calavam-se ou começavam a falar de outras coisas. Santo Efrém, segundo o testemunho de São Gregório de Nissa, era tão modesto, que já a sua vista estimulava à devoção, e não se podia vê-lo sem se sentir levado a se tornar melhor. Mais admirável ainda é o que nos refere Suvio, do santo sacerdote e mártir Luciano: só por sua modéstia moveu muitos pagãos a abraçarem a santa Fé. O imperador Mazimiano, que fôra disso informado, temendo sentir a sua influência e ser obrigado a converter-se, citou-o à sua presença, mas não quis vê-lo, e sujeitou-o ao interrogatório ocultando-o a suas vistas por uma cortina estendida entre os dois.

Nosso ideal mais perfeito de modéstia foi, porém, o nosso Divino Salvador mesmo, pois, como nota um célebre autor, os Evangelistas dizem, várias vezes, que o Redentor levantou os olhos em certas ocasiões, dando a entender, com isso, que tinha ordinariamente os olhos baixos. Por isso exalta o Apóstolo a modéstia de seu Divino Mestre, escrevendo a seus discípulos: "Rogo-vos pela mansidão e modéstia de Cristo" (II Cor 10, 1).

Concluo com as palavras de São Basílio a seus monges: "Se quisermos que nossa alma tenha suas vistas sempre postas no Céu, filhos queridos, conservemos nossos olhos sempre voltados para a terra". De manhã, ao despertar, devemos já pedir, com o Profeta: "Afastai meus olhos, Senhor, para que não vejam a vaidade" (Sl 118, 37).